Nem as guerras, nem os bárbaros: Foram os mosquitos que ditaram o fim do Império Romano

Já desde o século XX que se especulava que os mosquitos, e as doenças transmitidas por estes insetos, poderiam ter um papel da queda da Grécia ou do Império Romano.

Pedro Zagacho Gonçalves

A teoria não é nova, e até é usada como um exemplo demonstrativo da força que as doenças tiveram nas mudanças civilizacionais e socioeconómicas ao longo da história da Humanidade. Já desde o século XX que se especulava que os mosquitos, e as doenças transmitidas por estes insetos, poderiam ter um papel da queda da Grécia ou do Império Romano.

No último caso, sempre se teve em conta outros fatores que acabaram por levar ao colapso do império, como o enfraquecimento do Senado e da figura do imperador, um aumento da corrupção generalizada, uma expansão excessiva e as constantes guerras que isso implicava. A malária manteve-se como uma hipótese secundária.

Na década de 1990, recorda o ABC, a teoria dava novo avanços com uma descoberta macabra feita por David Soren nas margens do rio Tibre, em Itália: 49 esqueletos de crianças, naquele que será o maior cemitério infantil de todos os descobertos na história do país. Datam da era romana e os arqueólogos estudaram os sinais que apontavam para uma epidemia e que, até então se desconhecia nos textos literários existentes.

As evidências começavam a provar cada vez com mais força de que a malária foi arrasadora nos últimos séculos da Roma imperial. Os terrenos pantanosos que rodeavam a capital tonavam-na o cenário ideal para a proliferação de mosquitos.

Historicamente, referiam-se à doença como os “vapores do verão”, altura em que o mosquito está mais ativo. Florence Ninghtingale viria a referir-se às doenças transmitidas pelos mosquitos como “o vale da sombra da morte”.

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A confirmação chegou em 2016: uma análise de ADN de uma equipa de investigadores internacionais, em várias regiões de Itália, confirmou que a malária existia efetivamente naquele local há dois mil anos. E que seria a mesma doença que, no ano anterior, tinha registado casos em 95 países.
“A malária era provavelmente um agente patogénico histórico significativo, que causou uma morte generalizada na Roma Antiga”, explica Hendrik Poinar, diretor do Centro de ADN Antigo da Universidade de McMaster, no estudo publicado na revista Current Biology.

Na segunda guerra púnica o exército cartaginês fraqueja, com a derrota de Aníbal, em 202 a.C.. Os mosquitos, neste caso, também haviam cercado as tropas acampadas ao redor de Roma, onde se propagava a malária nos térreos pantanosos.

Mas a expansão da doença terá sido rapidamente acelerada para o interior da cidade, devido “à intensidade do trabalho agrícola nas redondezas imediatas de Roma”, segundo explica o autor Timothy C. Winegard no livro ‘O Mosquito’.

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“Intensificou a malária endémica, ao mesmo tempo que submetia a uma exigência extrema a produção de alimentos que pedia a população em expansão na cidade. O efeito bola de neve palúdico crónico foi um catalisador direto para a decadência e queda do Império Romano. A sociedade e os seus apêndices económicos, agrícolas e políticos não puderam prosperar, quando mais manter o ‘statu quo’’, quando a malaria se tornou num carrocel habitual de morte de mão-de-obra”, explica o autor.

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