“Abandono escolar é preocupante”: Associação denuncia 9 mil refugiados ucranianos por integrar nas escolas em Portugal e pede soluções

Outro dos desafios que a comunidade enfrenta, um ano após o começo da guerra, é o de encontrar uma habitação permanente em Portugal.

Pedro Zagacho Gonçalves

Um ano após a guerra na Ucrânia, e vários meses depois de terem chegado a Portugal, mais de um terço dos menores ucranianos refugiados no nosso País ainda não estão integrados no sistema de ensino nacional. Este tem sido um dos principais obstáculos da comunidade que chegou a Portugal, em fuga à invasão de Putin, segundo denuncia a Associação dos Ucranianos em Portugal, em entrevista à Mutinews.

Outro dos desafios que a comunidade enfrenta, um ano após o começo da guerra, é o de encontrar uma habitação permanente em Portugal.

Afonso Nogueira, coordenador de projetos da Associação dos Ucranianos em Portugal, começa por destacar, no balanço do primeiro ano da guerra que, em termos de acolhimento geral na sociedade portuguesa “as portas foram escancaradas para todos os refugiados ucranianos, e isso é muito bom”. No entanto, o responsável é menos efusivo no que respeita às respostas oficiais.

“Foram dados alguns passos muito importantes, de avanços para que houvesse resposta aos pedidos de proteção temporária, sobretudo avanços nos mecanismos digitais”, aponta no entanto o coordenador da associação, destacando que estes avanços tecnológicos de digitalização e desburocratização registaram “uma transferência, da comunidade ucraniana para outras comunidades”.

Esta foi a primeira vez que o Estado português teve que responder a uma crise de refugiados desta dimensão, à semelhança de muitos outros países europeus, e a Associação de Ucranianos em Portugal quer que o balanço do acolhimento, feito pelos organismos oficiais, sirva para aprendizagem e forma de corrigir alguns erros e respostas deficitárias.

Continue a ler após a publicidade

“O Estado não tinha capacidade de infraestruturas para acolher toda a gente que chegou, e muitas famílias abriram as portas de casa. Mas tudo isto foi feito sem controlo. E isso implica uma reflexão, é algo a rever, no que respeita ao acompanhamento por parte de organismos oficiais noutras situações de grande número de refugiados”, considera Afonso Nogueira, em declarações à Multinews.

Nova fase: integração e inclusão têm como obstáculos abandono escolar e dificuldades em encontrar casa

Afonso Nogueira explica que o acolhimento de refugiados ucranianos em Portugal entrou numa nova fase, de integração e inclusão, “em que a resposta tem sido mais lenta”.

Continue a ler após a publicidade

“Precisamos de mais apoio na procura de emprego e de habitação”, aponta o responsável, que considera que o programa do Governo para efeitos de ajudar os refugiados a encontrar casa permanente “não é de fácil acesso”, já que implica contrato formal assinado, num mercado com enorme pressão imobiliária, especialmente em cidades como Lisboa e Porto, ou em regiões como o Algarve. As barreiras linguísticas e fata de fiadores “torna o acesso real” ao apoio muito limitado.

“Temos outra realidade: de pessoas com profissões diferenciadas na Ucrânia e com poupanças, que vieram para Portugal com ideia de cá ficar três ou quatro meses. Agora esgotaram as poupanças, precisam urgentemente de soluções de habitação a longo prazo. Esta é a maior dificuldade”, aponta o responsável da associação.

Estes problemas agravam outro que afeta gravemente a comunidade: questões de saúde mental. A Associação dos Ucranianos em Portugal tem uma psicóloga que presta apoio e promove sessões em vários pontos do país, com partilha de testemunhos. “Mas é difícil, é só uma para 57 mil refugiados acolhidos”, lamenta o coordenador.

Falta de medidas na educação

Os problemas de saúde mental têm tido especial expressão no aproveitamento escolar das crianças ucranianas refugiadas. O abandono escolar é uma realidade emergente e que deve ser tratada “com urgência”. “Traumas de guerra, após três anos de pandemia. è muito difícil, os jovens e crianças precisam de apoio para problemas de saúde mental”.

Continue a ler após a publicidade

Os refugiados ucranianos que não frequentam o ensino português ficam mais expostos a dificuldades culturais e de contexto, alerta a associação, que explica à Multinews que muitos refugiados não querem inscrever os filhos nas escolas portuguesas. “Isso é assumir que não vão voltar à Ucrânia tão depressa. É uma rotura com o país”, considera.

Afonso Nogueira sublinha que a associação é contra a criação de uma obrigatoriedade ou um sistema de penalização de pais refugiados que não queiram incluir os filhos nas escolas portuguesas, mas defende um contacto de proximidade, que “clarifique que não significa essa rotura”.

Para responder a esta necessidade urgente, até agora o Estado pouco fez. “O Alto-Comissariado para as Migrações fez um folheto. É alguma coisa, é melhor do que nada. Mas falta uma mediação”, defende o responsável da Associação de Ucranianos em Portugal, alertando que o trabalho de voluntários não chega.

“Há 9 mil crianças refugiadas ucranianas para integrar no sistema de ensino. Chegaram 15 mil. Isto significa que um terço não está integrada nas escolas, com tudo o que isso acarreta”, descreve Afonso Nogueira. Muitas crianças continuam a assistir às aulas ucranianas por ensino remoto, mas o comportamento pode criar ainda mais barreiras à interação social, mais problemas de saúde mental e física, já que passam maior parte dos dias fechados em casa, e sem convívio.

“Nunca foi feito um acolhimento tão massivo, é normal que haja falhas, mas também tem de haver reflexão e planeamento. Algumas respostas, por não terem resultado, têm de ser reajustadas, e por isso deve ser feito um balanço sobre o acolhimento. De estas pessoas ficarem marginalizadas, teremos outros problemas no futuro”, aponta.

A Associação dos Ucranianos em Portugal explica à Multinews que, ao longo do último ano, denunciou casos de infiltrados pró-russos em atividades de acolhimento de refugiados, especialmente no que respeita ao tratamento de dados pessoais. “Queremos garantir a segurança de 57 mil pessoas. Tivemos casos de assédio, um em contexto laboral e em contexto de habitação. Em dois casos, ajudamos a reportar às autoridades e foi dado o devido acompanhamento jurídico”, adianta Afonso Nogueira, que destaca que muitos refugiados “não se sentem à vontade para denunciar, já que o tema tem de ser tratado com grande sensibilidade”.

“É mais um exemplo que ilustra que o acolhimento sem controlo, sem o devido acompanhamento, é o que mais preocupa esta comunidade”, termina o responsável.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.