O teólogo Henrique Pinto disse hoje que a Igreja tem de apoiar as vítimas de abusos sexuais no seu seio e que não pode limitar-se a “um contínuo pedido de perdão”.
“Perdão só não chega”, indicou em declarações à agência Lusa sobre o relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica divulgado hoje.
Henrique Pinto considerou ser dever da Igreja “cuidar das vítimas” que “viveram traumas” e que “precisam de apoio psicológico, psiquiátrico, de psicoterapia”.
A comissão recebeu 512 testemunhos validados relativos a 4.815 vítimas desde que iniciou funções em janeiro de 2022, anunciou hoje o coordenador Pedro Strecht.
De entre os 512 testemunhos validados, 25 casos foram enviados para o Ministério Público e, segundo o antigo ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio, a maioria destes já prescreveu.
“A Igreja não pode simplesmente dizer nós não temos recursos para apoiar”, afirmou, referindo o caso da Igreja em França, que por não ter dinheiro para pagar indemnizações às vítimas decidiu vender património religioso para o efeito.
“A França se o está a fazer, está a fazer muito bem, vendam-se os anéis, não é, mas tratemos das pessoas”, acrescentou o teólogo.
Insistiu que “a Igreja não pode ter ou encontrar 80 milhões de euros para uma Jornada Mundial da Juventude (que se realiza no início de agosto em Lisboa) e deixar de ter dinheiro para apoio a vítimas”.
O especialista em Teologia considerou, por outro lado, “fazer todo o sentido” a criação de uma nova “comissão para continuidade do estudo e acompanhamento do tema”, referindo que o revelado no relatório “não é mais do que a ponta do iceberg” e que se devia dar continuidade ao trabalho já feito “indo à base do iceberg o mais possível”.
Em relação ao dado revelado de que 77% dos abusadores eram padres, assinalou ser uma percentagem “muito elevada”, defendendo que os que ainda estão no ativo sejam “destituídos, retirados das suas funções”.
“Seria escandaloso, uma total falta de respeito pelas vítimas e pela sociedade no seu todo, que alguém abusador continuasse em funções, não pode acontecer”.
Defendeu ainda que a formação de clero futuro tenha “muito mais em linha de conta” esta questão.
Por outro lado, considerou que “os abusadores também não podem ser abandonados” e que há “a urgente necessidade de a Igreja pensar o que fazer” para acompanhar e ajudar estas pessoas.
“A Igreja deve ter no centro toda a pessoa e, aqui voltamos ao evangelho, o que está em causa é o crime, é o ato que foi praticado (…) não podemos abandonar a pessoa”, disse ainda o teólogo.
O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP, que encomendou o estudo), José Ornelas, reconheceu hoje que os resultados do relatório não podem ser ignorados e admitiu estar-se perante uma situação “dramática”.
Os casos de abusos sexuais revelados ao longo de 2022 abalaram a Igreja e a própria sociedade portuguesa, à imagem do que tinha ocorrido com iniciativas similares em outros países.













