Os casos aumentaram exponencialmente com os efeitos da pandemia na vida familiar. Foi o que aconteceu a ‘Ana’, que continuou a cuidar dos filhos sem interrupção enquanto mantinha o teletrabalho. Aos 42 anos começou com sintomas de pré-menopausa e insónias, até que um dia colapsou em frete ao marido a chorar, depois de ter deitado os filhos. Trata-se da ‘síndrome do progenitor esgotado’.
‘Ana’ decidiu ir ao psicólogo, assoberbada pelos sentimentos de que os filhos não a amavam o suficiente e de que não tinha capacidades para os continuar a educar. Agora, ao fim dos três anos de acompanhamento, está melhor.
O termo para a doença é não-clínico e não aparece nas estatísticas ou manuais médicos, já que fenómeno é relativamente recente, mas mais e mais casos vão surgindo. Define a crise psicológica que afeta os pais devido à exaustão e stress causados pela missão de criar os filhos na atual sociedade moderna.
Os sintomas manifestados incluem dores de cabeça, insónias, distúrbios gastrointestinais e, caso a doença continue a evoluir, depressão, distanciamento das crianças e dúvidas dobre a capacidade de ser um bom pai ou mãe.
“Os progenitores, especialmente as mães, vivem assoberbados com muito mais coisas do que as gerações anteriores. Tornámos a maternidade um feito, quando se trabalha, organiza uma casa e, ao mesmo tempo, se quer manter os hobbies e atividades de lazer”, explica a psicóloga Raquel Huéscar ao El Mundo, assinalando que, quando os pais ou mães não conseguem cumprir tudo a que se propõem, “aparecem sentimentos de culpa”.
A síndrome do progenitor esgotado, também pode ser chamada de exaustão parental ou ‘burnout’, que é mais conhecido na sua vertente que ocorre no trabalho, e que foi incluída na Classificação de Doenças Ocupacionais em janeiro do ano passado.
A verdade é que o fenómeno é pouco conhecido, talvez por muitos pais terem receio ou vergonha de procurar ou pedir ajuda a especialistas. O primeiro estudo que deu provas teóricas e empíricas para este tipo de cansaço emocional data de 2017 e foi desenvolvido por investigadores da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica. Desde então, a doença, que afeta muito mais mulheres do que homens, tem crescido e regista a esmagadora maioria dos casos em países desenvolvidos.
No entanto, apesar da prevalência e crescimento, ainda não mereceu a devida atenção dos poderes públicos e políticos, sendo que apenas um país em todo o mundo já tomou medidas para enfrentar a questão: a Alemanha.
Neste país existe a Kur, uma licença de até três semanas que os pais esgotados podem pedir, de quatro em quatro anos, e que inclui apoio terapêutico e ajuda para cuidar dos filhos.
“No caso de um paciente que tenha de ficar internado numa clínica, uma prescrição do médico de família é necessária. É o setor público, ou o seguro privado, em cada caso, que fica responsável por todas as despesas, sendo que os doentes terão apenas de pagar 10 euros por cada dia em que fiquem na unidade”, explica Claudia Kirsch, diretora hospitalar em Hannover.
Estas clínicas são uma espécie de spa, onde os pais e mães podem descansar e serem ao mesmo tempo acompanhados por profissionais de saúde mental.
Uma investigação do Melbourne Institute of Australia, feita nos primeiros meses da pandemia, apurou que os pais que sofriam de maior stress mental era os que tinham filhos em idade escolar: foram detetados altos níveis de stress em 25% dos pais com idades entre os 5 e os 11 anos.
A realidade das redes sociais, com páginas que dão dicas de parentalidade e educação, ‘mommy e daddy bloggers’, influenciadoras, famosas que mostram o dia a dia, vieram aumentar a pressão sobre os pais, que veem os padrões de exigência cada vez mais altos e temem não corresponder à imagem artificial mostrada nestas plataformas.
Raquel Huéscar, psicóloga, tem um só conselho para quem tenha este tipo de preocupações ou esteja à beira de ser um ‘progenitor esgotado’: “Tente ser um bom pai ou uma boa mãe, mas não um pai ou mãe perfeito”.














