Nika, Mahsa, Hadis… as histórias de três jovens iranianas que morreram pela liberdade de ser mulher

Nika Shakarami, de 16 anos, é um dos casos que está a revoltar a comunidade internacional.

Pedro Zagacho Gonçalves

Nika Shakarami tornou-se nos últimos dias num dos rostos dos protestos de milhares de mulheres no Irão (e em todo o mundo) que reclamam o fim do véu islâmico, manifestando-se contra as leis do governo iraniano e a repressão que afeta sobretudo mulheres, no seguimento do caso de Mahsa Amini, de 22 anos, que morreu após ter sido detida em Teerão, capital iraniana, por não estar a usar corretamente o hijab.

A morte de Mahsa deu mote a um grito de liberdade no Irão, que levou as mulheres para as ruas. A repressão policial aos protestos tem resultado na morte de várias manifestantes, entre elas a jovem Nika Shakarami, de 16 anos, que desapareceu durante vários dias após ter participado nos protestos, tendo a polícia iraniana comunicado depois que Nika estava morta.

O caso tem feito correr tinta na imprensa em todo o mundo, uma vez que os contornos da morte de Nika ainda estão por explicar.

Corpo ‘roubado’ pela polícia e família ameaçada

Nika morava com a tia, Atash, uma artista iraniana, na capital iraniana. Saiu de casa no dia 20 de setembro para participar nos protestos, equipada com uma toalha e uma garrafa de água. Nas redes sociais, partilhou fotografias e vídeos em que se mostrava a queimar o hijab enquanto entoava os hinos de “mulher, vida, liberdade”, que se ouvem nas manifestações em Teerão. Os perfis e contas de Nika foram depois apagados.

Continue a ler após a publicidade

Segundo relatou a tia à BBC, Nika ainda ligou para uma amiga. Estaria a tentar escapar aos polícias que a perseguiam nos protestos. Depois, desapareceu.

A família, desesperada por notícias, mobilizou-se para encontrar a adolescente. A tia conta que uma fonte não oficial da Guarda Revolucionária do Irão que a jovem esteve sob custódia da ‘polícia dos costumes’ durante cinco dias, enquanto as autoridades tentavam que Nika confessasse a sua participação nos protestos. A jovem terá sido depois entregue às autoridades judiciais e levada para a cadeia de Evin, em Teerão.

Segundo a polícia terá sido depois que Nika se evadiu, durante a noite, tendo sido alegadamente vista a entrar num edifício onde estavam oito trabalhadores de construção civil. Na manhã seguinte terá sido encontrada morta, com sinais de uma violenta agressão, no chão desse mesmo edifício.

Continue a ler após a publicidade

À família, inicialmente a polícia afirmou que a jovem tinha morrido vítima de uma queda de uma grande altura. Mohammad Shahriari, oficial de justiça em Teerão, afirmou que a autópsia mostrou “múltiplas fraturas na pélvis, cabeça, membros inferiores e superiores, consistentes com uma queda em altura”. No entanto, o certificado de óbito de Nika, consultado pela BBC, revela que a menor morreu após “sofrer uma série de ferimentos causados por vários golpes com um objeto contundente”.

A família começou por contradizer a versão da polícia e, nas primeiras intervenções que fizeram perante os jornalistas, disseram ter encontrado o corpo de Nika na mortuária de um centro de detenção, dez dias depois do seu desaparecimento. A tia da jovem afirmou que só foi permitido que vissem o rosto de Nika durante breves segundos, para que pudessem confirmar a identidade da menor.

A família foi autorizada a levar o corpo para Khorramabad, de onde é natural o pai de Nika, mas fonte próxima conta à BBC que foram pressionados a não fazer um funeral público. A mesma fonte adianta que logo depois o corpo foi “roubado” pelas autoridades e enterrado secretamente na localidade de Veysian, a mais de 40 km de distância do local onde a família queria depositar os restos mortais de Nika.

Entretanto, a tia de Nika, Atash, e o tio, Mohsen, foram detidos pela polícia iraniana. Os dois chegaram a surgir em vídeos divulgados pelo canal de televisão do estado a confirmar a causa de morte de Nika como uma queda, já depois de terem contado a sua versão a outros meios de comunicação. Num dos vídeos é possível ouvir alguém que não aparece na imagem a ordenar ao tio de Rika: “Di-lo, seu monte de terra”.

A detenção destes familiares e os relatos de pressões à família levam fonte a confirmar à BBC que se trataram de “confissões forçadas” e que os familiares de Nika foram interrogados e ameaçados de morte.

Continue a ler após a publicidade

Hadis Najafi: A jovem iraniana fã de Shakira que acabou morta a tiro

O caso de Nika não é único. São já várias as jovens mortas durante os protestos no Irão, com pelo menos outros três casos já confirmados.

Hadis Najafi, de 22 anos, mantinha uma forte presença nas redes sociais. Com mais de 75 mil seguidores, a jovem mostrava a rotina do dia a dia e exibia os cabelos louros em vídeos e fotografias. Assumia-se com uma fã da música iraniana, mas também ocidental, tendo entre os prediletos temas de Shakira.

A 21 de setembro pôs-se a caminho de um dos protestos que decorria em Karaj, cidade próxima de Teerão. Parecia otimista, mostrava-se feliz num vídeo com amigos. “Espero que daqui a alguns anos, quando olhar para o que se passou, fique feliz por ter mudado tudo para melho”, ouve-se a jovem dizer.

Segundo a BBC, Hadis acabou morta uma hora depois. A mãe da jovem, no Instagram, relata que a filha foi morta a tiro: “A minha filha foi morta por causa do hijab, por causa de Mahsa Amini. Foi protestar e foi morta. Foi atingida por balas em todo o lado, no coração, na barriga, no pescoço. Quando a vimos, o seu corpo e rosto estavam com ferimentos bala”, lamentou.

Segundo a família de Hadis, as autoridades proibiram que fosse feito um funeral público à jovem. Os familiares terão ainda sido instruídos pelas autoridades para dizerem, caso alguém perguntasse, que Hadis tinha morrido num acidente de carro ou vítima de causas naturais.

Filha chora mãe morta em protesto

Minou Madji, uma iraniana curda, de 55 anos, foi morta pelas autoridades quando participava num dos protestos, no dia 20 de setembro.

A filha filmou-se e foi fotografada junto ao túmulo da mãe, chorando a morte de Minou revoltada. Segundo a jovem, Minou terá reclamado a sua vontade de se juntar aos protestos: “Se pessoas como nós não foram, quem é que vai? Eu já vivi a minha vida, só quero que, pelo menos, não matem os nossos jovens”, terá dito à filha.

Em resposta, após enterrar a mãe, a filha de Minou mostrou-se junto do túmulo da mãe, com a cabeça destapada, e os longos cabelos que acabara de cortar na mão.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.