Por Maria Rosa Borges, Economista e Professora do ISEG
O BdP no seu último boletim trimestral de março de 2022, revê em baixa o crescimento do produto. Em relação à anterior estimativa, prevê-se uma redução da taxa de crescimento do produto de 5,8% para 4,9%, ainda assim acima do crescimento médio para a zona do euro, cuja previsão é de 2,5%. Isto significa já, um revés na recuperação económica para os níveis pré-pandemia, que se estimava ocorrer durante o primeiro semestre de 2022. A recuperação, refere este relatório, vê-se assim adiada para o final de 2022.
Este contexto, relativamente otimista, conta, por um lado, com a contribuição dos fundos comunitários que Portugal irá receber e que permitirá fazer crescer o investimento público e, por outro, com a manutenção da política do BCE de contenção das taxas de juro, que se pretende, mitigue, o aumento do custo do crédito, podendo deste modo serem contrariados, parcialmente, os efeitos económicos negativos da guerra da Ucrânia, que está a condicionar fortemente a evolução da economia mundial.
Este cenário, dadas as circunstâncias, parece não ser mau, como não é mau, o cenário mais adverso divulgado pelo BdP de um crescimento do PIB de 3,6% para 2022. Contudo, a incerteza acerca da duração e do eventual aprofundamento da dureza da guerra na Europa, adiciona dúvidas, mesmo sobre esta estimativa.
É imprevisível o valor a alcançar pela taxa de inflação. Os aumentos dos custos do gás natural, do petróleo e da energia em geral, afetam de forma muito decisiva os custos de produção na indústria transformadora, onde podemos esperar a continuação de algumas restrições ao nível da oferta, assim como afetam os custos no setor da distribuição, em particular os custos de transporte. A isto acresce o aumento do preço de outras commodities nomeadamente dos cereais e dos fertilizantes, tão importantes, uns na cadeia alimentar e, outros, na utilização como consumos intermédios na produção agrícola. Os bens de consumo, mais especificamente os bens de consumo alimentar já estão a ver repercutidos nos seus preços estes impactos. Por isso, a estimativa para a queda da procura interna, por redução do poder de compra, pode acentuar-se. Quanto à procura externa ela estará condicionada pelas consequências económicas imprevisíveis da guerra na Europa, sobre os países destinatários das nossas exportações.
Também, o acréscimo da taxa de inflação assumindo um carácter não transitório, levará certamente, à revisão da política monetária conduzida pelo BCE, tornando-se muito provável a subida das taxas de juro, que poderão refrear ainda mais o crescimento económico.
Por outro lado, relembremo-nos que os efeitos na economia resultantes da aplicação do PRR, dependem muito da agilidade e da eficiência na utilização dos fundos comunitários e, Portugal, não tem o melhor historial nesta utilização. Embora o plano seja muitas vezes criticado por ser pouco dedicado às empresas, a sua concretização célere será mais provável, se for realizada através do investimento público, sendo por esta via que se deverão esperar efeitos positivos na atividade do setor privado, chamado a concretizar este investimento.
Podemos fazer muitas conjeturas sobre a evolução económica no contexto atual, sendo a probabilidade de falhar enorme. Por isso, preparemo-nos para o pior, esperando que o melhor aconteça.




