A União Europeia (UE) e a China alcançaram esta sexta-feira um princípio de acordo comercial que poderá reduzir em mais de metade as exportações chinesas de automóveis híbridos e híbridos plug-in para o mercado europeu. O entendimento, anunciado em Pequim, prevê ainda medidas para melhorar o acesso das empresas europeias ao mercado chinês e facilitar o fornecimento de terras raras, matérias-primas essenciais para a indústria.
O anúncio foi feito pelo comissário europeu para o Comércio e Segurança Económica, Maroš Šefčovič, no final de dois dias de reuniões com o ministro chinês do Comércio, Wang Wentao, realizadas a 8 e 9 de outubro.
Segundo as informações divulgadas e citadas pela Lusa, o entendimento poderá representar uma redução de vários milhões de automóveis chineses importados pela União Europeia ao longo dos próximos quatro anos.
Apesar do avanço, o responsável europeu deixou claro que as negociações estão longe de concluídas.
“É um primeiro passo crucial, mas é apenas um primeiro passo no processo de reequilíbrio” das relações comerciais, afirmou Šefčovič aos jornalistas, em Pequim.
Menos carros híbridos chineses nas estradas europeias?
O setor automóvel esteve no centro das negociações entre Bruxelas e Pequim, numa altura em que a União Europeia manifesta preocupações com o crescimento das importações de veículos produzidos na China.
O entendimento alcançado prevê uma moderação das exportações chinesas de automóveis híbridos e híbridos plug-in para o mercado comunitário, podendo traduzir-se numa redução superior a 50% face aos volumes atualmente previstos.
De acordo com Šefčovič, o efeito acumulado poderá representar vários milhões de veículos ao longo de quatro anos.
Contudo, ainda não foram divulgados os mecanismos concretos que permitirão atingir essa redução, nem a data em que as medidas começarão a ser aplicadas.
Também não foram especificadas eventuais diferenças de tratamento entre fabricantes chineses ou categorias de veículos.
O acordo representa, por isso, um compromisso político inicial, cujo impacto efetivo dependerá das condições de implementação que venham a ser definidas.
Défice comercial de mil milhões de euros por dia preocupa Bruxelas
A dimensão do desequilíbrio comercial entre a União Europeia e a China foi outro dos temas centrais das reuniões.
Segundo dados europeus citados pelo comissário, o défice comercial da UE com a China atingiu, no ano passado, um valor equivalente a cerca de mil milhões de euros por dia.
Bruxelas considera que esta situação exige medidas para garantir relações económicas mais equilibradas e melhores condições de acesso ao mercado chinês para as empresas europeias.
“Vim aqui com um propósito claro: começar a reequilibrar a relação comercial entre a UE e a China e garantir que esta primeira fase de negociações no âmbito das consultas sobre comércio e investimento produz os seus primeiros resultados tangíveis”, explicou Šefčovič.
Do lado chinês, Wang Wentao defendeu que Pequim não deve ser considerada a principal causa dos problemas económicos europeus, mas antes um parceiro na procura de soluções.
Os dois responsáveis comprometeram-se a continuar a gerir as divergências comerciais no quadro das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Terras raras também entram no acordo
As negociações não ficaram limitadas à indústria automóvel.
A União Europeia e a China concordaram em continuar a facilitar o licenciamento das exportações de terras raras e ímanes permanentes destinados à Europa, através de um mecanismo chinês conhecido como “canal verde”.
Estes materiais são fundamentais para diferentes setores industriais, incluindo a produção de motores elétricos, equipamentos eletrónicos, tecnologias energéticas e sistemas de defesa.
A forte dependência europeia das cadeias de abastecimento chinesas tem levado Bruxelas a procurar mecanismos que garantam maior estabilidade no fornecimento.
Segundo Šefčovič, o objetivo é tornar os procedimentos de licenciamento mais transparentes, previsíveis e acessíveis às empresas europeias.
O comissário explicou que já tinha sido desenvolvido um procedimento específico após vários episódios críticos registados no ano passado, procurando-se agora simplificar o seu funcionamento.
A melhoria deste mecanismo poderá representar um benefício importante para a indústria europeia, particularmente para os fabricantes que dependem de componentes e matérias-primas provenientes da China.
Fabricantes europeus de automóveis saúdam entendimento
A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) reagiu positivamente ao anúncio, considerando que o acordo provisório constitui um avanço no sentido de reduzir as tensões comerciais entre a União Europeia e a China.
A organização, que representa os principais fabricantes europeus do setor, destacou a importância de corrigir os desequilíbrios existentes nas relações comerciais.
Contudo, a ACEA sublinhou que ainda aguarda uma análise detalhada do conteúdo do entendimento para avaliar as suas consequências concretas para a indústria automóvel.
A reação reflete a importância que as negociações assumem para um setor confrontado com a crescente concorrência internacional e com profundas transformações tecnológicas.
Próxima decisão cabe aos líderes europeus
Os resultados das reuniões realizadas em Pequim serão agora apresentados aos chefes de Estado e de Governo da União Europeia, que se reúnem na próxima semana, em Bruxelas.
Caberá aos líderes europeus avaliar o entendimento e decidir os próximos passos nas relações comerciais com a China.
As duas partes concordaram também em realizar uma videoconferência em janeiro e agendaram para março de 2027 a terceira reunião ministerial das Consultas sobre Comércio e Investimento.
Questionado sobre a possibilidade de o acordo evitar uma guerra comercial, Šefčovič rejeitou essa expressão, sublinhando que a União Europeia privilegia a negociação para resolver as divergências com Pequim.
Para já, o entendimento abre caminho a uma possível redução significativa das exportações chinesas de veículos híbridos para a Europa, mas deixa várias questões por esclarecer, desde os mecanismos de aplicação até aos efeitos sobre fabricantes, concessionários e consumidores europeus.













