As manhãs nos comboios de Tóquio são normalmente silenciosas. Passageiros despertam lentamente, cada um concentrado no seu dia. Até que, em março de 1995, uma jovem sentou-se num carruagem e reparou num detalhe estranho: os passageiros à sua volta tossiam.
“Uh oh”, pensou. “Todos estão a ficar doentes.”
Quando o comboio chegou à próxima estação, muitos passageiros saíram — uma cena incomum naquele horário. Mas a jovem seguiu viagem, até que começou a notar uma luz estranha no interior da carruagem.
“O interior parecia extremamente brilhante,” explicou mais tarde, “ou pelo menos foi o que me pareceu na altura. Agora, ao recordar, era amarelo, ou uma pérola luminosa com tons de amarelo. Desmaiei antes por anemia, e foi como isso.”
A sensação de sufoco instalou-se. Tentou abrir as janelas, mas nada funcionava. Um cheiro estranho preenchia o ar. “Não era um odor pungente,” disse ela. “Era mais uma sensação de sufocamento.”
À medida que os sintomas se agravavam, ninguém mostrava sinais de pânico. Um agente entrou noutra carruagem e saiu com um objeto coberto por jornal. A jovem percebeu então que não podia continuar. “Senti-me absolutamente horrível. Os meus olhos convulsionavam, tudo parecia amarelo.” Ao sair, a sua conclusão foi imediata: “Isto tem de ser sarin.” E estava certa.
O relato foi registado pelo escritor japonês Haruki Murakami e publicado no ‘IFLScience’, oferecendo um raro testemunho em primeira pessoa sobre o contacto com uma substância letal. Apesar de exposição mínima, o corpo humano sofre efeitos terríveis.
Armas químicas modernas: como funcionam
Os agentes nervosos, como o sarin, interferem diretamente com o sistema nervoso, bloqueando a ação da enzima colinesterase e causando acumulação de acetilcolina nas sinapses. O resultado? Convulsões, dificuldades respiratórias e morte por asfixia em minutos nos casos mais graves.
Já os gases sufocantes, como o cloro ou o fosgénio, atacam o sistema respiratório. O cloro, denso e amarelo, provoca tosse e permite que as vítimas fujam. O fosgénio, mais insidioso, atravessa os pulmões e cria ácidos que destroem os alvéolos antes de qualquer sintoma se manifestar, levando a um afogamento interno silencioso.
“Logo que chega, sabes o que se passa — mas muitas vezes já é tarde demais para reagir”, recordou Martin Greener, oficial britânico que sobreviveu à Primeira Guerra Mundial.
Agentes vesicantes: o horror em contacto direto
O gás mostarda (sulphur mustard) e outros agentes vesicantes provocam queimaduras e bolhas na pele, olhos e vias respiratórias. Penetram rapidamente em áreas com glândulas sebáceas e sudoríparas, causando lesões profundas e dor intensa.
Apesar da sua alta letalidade, a mortalidade direta é inferior à dos agentes nervosos, mas o sofrimento e as incapacidades que deixam são duradouros.
Com a entrada em vigor da Convenção sobre Armas Químicas em 1997, o fabrico e o armazenamento destes agentes passaram a ser ilegais. No entanto, a ameaça persiste, como mostraram os ataques na Síria com sarin e cloro, ou o envenenamento com Novichok no Reino Unido.
A lição permanece: vigilância constante
O ‘IFLScience’ sublinha que, apesar das normas internacionais, a existência contínua destas armas não pode ser ignorada. Desde Tóquio até à Síria e Salisbury, a história recente prova que estas substâncias continuam a ser utilizadas, colocando em risco civis e militares.
“A experiência da jovem no metropolitano é um lembrete de que a exposição mínima pode ser aterradora e mortal,” escreve o site. “O reconhecimento do perigo químico é vital para proteger pessoas e ecossistemas em todo o mundo.”














