‘Projeto Manhattan’ da IA: porque é que a inteligência artificial já é tratada como uma arma nuclear?

Relatório do Parlamento britânico alerta que o Reino Unido “pode não poder contar com os seus aliados” para ter acesso às tecnologias mais avançadas e corre o risco de ser desligado sem aviso

Francisco Laranjeira

Menos de um ano depois de as bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki terem precipitado o fim da II Guerra Mundial, o presidente Harry Truman tomou uma decisão que apanhou os aliados de surpresa: os Estados Unidos deixariam de partilhar tecnologia nuclear, incluindo com o Reino Unido.

A decisão foi particularmente dura para Londres. Cientistas britânicos tinham desempenhado um papel determinante no Projeto Manhattan, mas o país acabou afastado de uma tecnologia que ajudara a desenvolver. A resposta foi construir uma bomba própria, num programa que custou 150 milhões de libras — tanto quanto todo o orçamento anual então previsto para o recém-criado Serviço Nacional de Saúde britânico.

Oitenta anos depois, a história pode estar a repetir-se, desta vez com a inteligência artificial. Um relatório do Parlamento britânico alerta que o Reino Unido “pode não poder contar com os seus aliados” para ter acesso às tecnologias mais avançadas e corre o risco de ser desligado sem aviso.

Segundo o ‘The Independent’, os deputados pedem ao Governo uma estratégia de soberania em inteligência artificial, perante uma corrida global que começa a ser comparada à disputa nuclear do pós-guerra. A questão deixou de ser apenas económica ou tecnológica: passou a envolver segurança nacional, poder militar e autonomia política.

“O Governo precisa de um plano realista para alcançar capacidades soberanas em áreas críticas, ou arrisca-se a ver o acesso cortado ao sabor dos seus parceiros”, afirmou Chi Onwurah, presidente da comissão parlamentar de Ciência, Inovação e Tecnologia.

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O aviso ganhou força depois de a Administração Trump ter restringido o acesso a alguns dos modelos mais avançados da Anthropic, considerados um risco para a segurança nacional. O bloqueio atingiu os sistemas Fable e Mythos, capazes, segundo a empresa, de descobrir falhas informáticas em sistemas operativos e motores de busca que permaneceram escondidas durante décadas.

Embora parte das limitações tenha sido posteriormente levantada, o modelo Mythos continuava indisponível para organizações fora dos Estados Unidos. Para especialistas citados pelo ‘The Independent’, o episódio mostrou que uma ferramenta comercial usada por empresas e Governos pode desaparecer em poucas horas, por decisão unilateral de Washington e sem período de transição.

A China parece estar a seguir uma estratégia semelhante. As autoridades chinesas terão discutido limitações à utilização externa dos seus modelos mais avançados e bloquearam a aquisição, pela Meta, de uma empresa de inteligência artificial fundada no país, procurando impedir a saída de talento e propriedade intelectual.

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A linguagem usada nesta nova disputa já se aproxima da Guerra Fria. Uma empresa chinesa afirma ter desenvolvido uma “arma nuclear cibernética”, enquanto o diretor da CIA comparou os modelos mais avançados de inteligência artificial a “armas nucleares digitais”.

A diferença é que, no setor nuclear, os países sabiam aproximadamente qual era a meta: construir uma bomba. Na inteligência artificial, não existe um ponto final claro. Os modelos evoluem a uma velocidade que pode tornar impossível a recuperação dos países que fiquem para trás durante apenas alguns anos.

O limite desta corrida seria o aparecimento de uma inteligência artificial geral ou de uma superinteligência, capaz de superar os humanos em praticamente todas as tarefas intelectuais. Nesse momento, o sistema poderia começar a aperfeiçoar-se sem controlo efetivo e a perseguir objetivos incompatíveis com os interesses humanos.

Sam Altman, da OpenAI, e Demis Hassabis, da Google DeepMind, já subscreveram um alerta que coloca o risco de extinção provocado pela inteligência artificial ao nível das pandemias e da guerra nuclear. Ao mesmo tempo, organizações especializadas começam a defender acordos internacionais inspirados nos tratados de não proliferação.

Uma dessas propostas prevê que Estados Unidos e China suspendam o desenvolvimento prematuro de uma superinteligência artificial e convençam os restantes países a fazer o mesmo. Até agora, nenhum Governo aderiu.

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Em 1946, o Reino Unido respondeu ao corte americano com a Operação Hurricane e construiu a própria bomba. A nova corrida poderá ser muito mais difícil: uma arma nuclear exigia dinheiro, matérias-primas e conhecimento; uma inteligência superior pode exigir tudo isso — e avançar mais depressa do que qualquer país consegue acompanhar.

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