A análise de José Borralho, Presidente executivo & fundador da Consumerchoice Europe
Dos dados apresentados neste barómetro ressalta a enorme carga burocrática com que os empresários ainda continuam a lidar. Quando 56% dos líderes empresariais portugueses colocam a desburocratização acima da saúde, da habitação, dos salários ou até da carga fiscal como prioridade máxima para o país, talvez esteja na altura de aceitarmos uma verdade incómoda: Portugal não bloqueia por falta de talento, mas sim pelo próprio sistema.
Continuamos a viver num país onde abrir, crescer, investir, contratar, licenciar, aprovar ou transformar exige quase sempre mais resistência psicológica do que visão estratégica e é perigosamente incompatível com o mundo atual.
A lentidão administrativa, a complexidade dos processos, a dificuldade de execução e a morosidade da justiça tornaram-se custos invisíveis da economia portuguesa. Custos que não aparecem diretamente nos orçamentos, mas que roubam tempo, energia, inovação e competitividade. Num mercado global onde a velocidade é uma vantagem estratégica, Portugal continua demasiadas vezes preso a uma lógica de autorização, validação, parecer e espera.
E os dados deste estudo são quase irónicos. As empresas querem crescer (mais de 70% antecipam crescimento em 2026), metade planeia aumentar investimento, a prioridade estratégica dominante é expansão de mercado e a burocratização do estado trabalha no sentido inverso.
As empresas estão cansadas de processos que andam à velocidade de um fax num mundo que já funciona em tempo real. Cansadas de reuniões para marcar reuniões. Cansadas de sistemas onde a regulação é cada vez mais um entrave competitivo, em particular com indústrias fora da UE.
Até a própria Inteligência Artificial expõe essa contradição. Apesar de toda a discussão em torno da IA, os ganhos reais de produtividade continuam relativamente modestos para a maioria das empresas. E talvez isso aconteça porque a transformação tecnológica não depende apenas de ferramentas. Depende da capacidade do sistema acompanhar a velocidade da mudança.
No fundo, os empresários portugueses parecem estar a dizer algo muito simples: o país não precisa apenas de mais incentivos. Precisa sobretudo de deixar de dificultar. Porque talvez o verdadeiro desafio de Portugal já não seja criar potencial. Seja finalmente permitir que ele aconteça. Talvez por isso o maior risco para Portugal já não seja a falta de investimento, nem a ausência de capacidade empresarial. Talvez o maior risco seja continuarmos a institucionalizar a lentidão como se fosse prudência. E chamarmos “processo” àquilo que, muitas vezes, é apenas medo de mudar.
Testemunho publicado na edição de Junho (nº. 243) da Executive Digest, no âmbito da XLVIII edição do seu Barómetro.














