A escalada de tensões no Médio Oriente, nomeadamente após os ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel ao Irão a 28 de fevereiro, poderá ter mais consequências diretas no bolso dos consumidores, com os analistas a alertarem para um aumento significativo do preço da água engarrafada nos próximos meses.
Segundo dados citados pela Newsweek, o impacto surge sobretudo devido às restrições impostas pelo Irão ao tráfego no Estreito de Ormuz — uma das principais rotas energéticas mundiais, responsável pelo transporte de cerca de 20% do petróleo e gás natural liquefeito global. Esta perturbação fez disparar o preço do crude Brent em mais de 50% desde o início de março.
O aumento dos custos energéticos está a refletir-se rapidamente na indústria dos plásticos, essenciais para a produção de garrafas, criando um efeito em cadeia que pode culminar numa subida generalizada dos preços da água engarrafada.
Subida dos preços pode chegar aos 30%
Especialistas indicam que os primeiros aumentos poderão ser visíveis já a curto prazo. Patrick Penfield, professor de práticas de cadeia de abastecimento na Universidade de Syracuse, afirmou à Newsweek que espera “um aumento de pelo menos 5% nas bebidas engarrafadas em plástico durante o mês de abril”.
O especialista vai mais longe ao traçar cenários mais severos caso os preços do petróleo continuem a subir. “Se continuarmos a ver os preços do petróleo a subir para valores entre 125 e 150 dólares por barril, o aumento pode duplicar para 10% em maio e, se atingir os 200 dólares, poderemos ver subidas entre 25% e 30%”, alertou.
Ligação direta entre petróleo e plástico explica impacto
A relação entre energia e embalagens é direta. O plástico utilizado nas garrafas de água depende de matérias-primas derivadas do gás natural. Kenneth Gillingham, professor de economia na Universidade de Yale, explicou à Newsweek que o etileno — componente essencial das resinas plásticas — é produzido a partir do etano, que por sua vez deriva do gás natural.
Este encadeamento faz com que qualquer aumento nos preços energéticos tenha impacto quase imediato nos custos de produção de embalagens.
Aumento já é realidade em alguns mercados
Em alguns países, o impacto já se faz sentir. Na Índia, por exemplo, o preço da água engarrafada aumentou cerca de 11%, impulsionado pelos custos energéticos mais elevados.
Angelo George, CEO da Bisleri, a maior empresa de água engarrafada da Índia, revelou à Reuters que o preço atingiu as 20 rupias por litro depois de os custos dos materiais plásticos terem subido mais de 70% em poucas semanas.
Impacto nos Estados Unidos poderá ser mais gradual
Apesar da tendência global, os Estados Unidos poderão sentir os efeitos de forma menos imediata. Isto porque o país produz a maior parte do etano que consome, reduzindo a dependência de importações.
Ainda assim, Kenneth Gillingham admite que “poderá haver alguma pressão ascendente nos preços da água engarrafada nos Estados Unidos, mas não tão significativa como na Índia”.
Michael Dall, diretor associado de preços e compras da S&P Global Market Intelligence, reforça esta ideia ao afirmar que os aumentos “ainda não foram totalmente repercutidos nos preços finais”, sobretudo porque mais de 90% da produção de garrafas plásticas ocorre internamente.
No entanto, alerta que a subida é inevitável: “Os preços globais dos polímeros — como o polietileno e o polipropileno — dispararam desde o início do conflito, e isso acabará por se refletir nos preços das garrafas de plástico nos Estados Unidos”.
Histórico aponta para aumentos com atraso
A evolução dos preços deverá seguir um padrão semelhante ao registado após o início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, em 2022. Segundo Michael Dall, nesse caso demorou cerca de um mês até os aumentos começarem a refletir-se na produção, atingindo o pico três meses depois.
“A nossa expectativa é que este cenário siga um percurso semelhante”, afirmou.
Os primeiros sinais de impacto já são visíveis na indústria. Matt Slutzker, analista da Wood Mackenzie, revelou que “os preços das resinas utilizadas em garrafas de alimentos e bebidas aumentaram mais de 30% desde o final de fevereiro”.
Segundo o especialista, as empresas irão inevitavelmente transferir estes custos para os consumidores. “As marcas vão procurar repercutir estes aumentos nos seus produtos, o que significa que os consumidores podem esperar aumentos nos preços da água engarrafada nos Estados Unidos como resultado da guerra com o Irão”, afirmou.
Slutzker acrescenta que os efeitos deverão começar a ser visíveis nas prateleiras já em abril, uma vez que os produtores de embalagens enfrentaram aumentos em março e estão a esgotar os stocks adquiridos a preços mais baixos. Os aumentos poderão prolongar-se durante o verão, período de maior consumo.
Grandes empresas já antecipam subida de preços
Gigantes do setor das bebidas já estão a alertar para aumentos de custos. Segundo Thomas Duncan, professor de economia na Universidade de Radford, empresas como a Coca-Cola e a PepsiCo “já avisaram nos seus relatórios que os preços ao consumidor deverão subir”.
A PepsiCo referiu no seu relatório anual de 2025 que continua a enfrentar “volatilidade nos custos de matérias-primas, embalagens e outros fatores”, situação que poderá prolongar-se até 2026.
Já a Coca-Cola alertou que “alterações desfavoráveis nas condições económicas podem afetar negativamente a acessibilidade e a procura dos seus produtos”, destacando ainda níveis elevados de inflação em vários mercados.
Além dos custos de produção, a procura poderá também influenciar os preços. Thomas Duncan alerta que os consumidores podem começar a comprar mais água engarrafada por antecipação, criando um efeito de pressão adicional no mercado.
“Mesmo empresas com stock disponível podem começar a subir os preços em antecipação de custos futuros”, explicou, acrescentando que o aumento da procura poderá esgotar reservas mais rapidamente e acelerar a subida de preços.
O fator decisivo para a evolução dos preços será a duração da crise energética. Caso os preços do petróleo se mantenham elevados durante um período prolongado, o impacto nos custos de produção e, consequentemente, no consumidor final será inevitável.











