Crise política na Finlândia: Primeiro-ministro esclarece hoje apoio de 35 milhões de euros a projeto imobiliário

O primeiro-ministro da Finlândia, Petteri Orpo, enfrenta esta terça-feira um dos momentos politicamente mais delicados desde que assumiu funções, ao prestar esclarecimentos no Parlamento sobre a controversa decisão do Governo de apoiar com 35 milhões de euros o projeto Helsinki Garden.

Pedro Zagacho Gonçalves

O primeiro-ministro da Finlândia, Petteri Orpo, enfrenta esta terça-feira um dos momentos politicamente mais delicados desde que assumiu funções, ao prestar esclarecimentos no Parlamento sobre a controversa decisão do Governo de apoiar com 35 milhões de euros o projeto Helsinki Garden, um complexo destinado a acolher eventos desportivos e culturais na capital finlandesa. A oposição exige respostas sobre a forma como foi tomada a decisão, levantando suspeitas de favorecimento político, utilização questionável de dinheiros públicos e eventuais conflitos de interesses.

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A polémica dominou a agenda política finlandesa durante as últimas semanas e ganhou maior dimensão devido ao facto de Orpo se ter mantido praticamente afastado do escrutínio público durante o período de férias. Com menos de um ano para as próximas eleições legislativas, os partidos da oposição consideram que o caso representa uma oportunidade para colocar o Governo sob forte pressão política, sobretudo depois de uma sondagem indicar que os cidadãos consideram Petteri Orpo o primeiro-ministro finlandês menos bem-sucedido da história recente.

Projeto de 35 milhões de euros está no centro da polémica
O caso envolve o Helsinki Garden, um projeto desenvolvido há vários anos que prevê a construção de um grande complexo de eventos e desporto junto ao Estádio Olímpico de Helsínquia.

Inicialmente, os promotores solicitaram ao Ministério das Finanças uma garantia estatal para um empréstimo de 110 milhões de euros. No entanto, documentos internos divulgados pela comunicação social finlandesa revelaram que os técnicos do ministério classificaram o investimento como arriscado, alertando para possíveis derrapagens financeiras, atrasos na execução da obra e para a existência de outros projetos semelhantes nas proximidades que poderiam comprometer a viabilidade económica do empreendimento.

Apesar dessas reservas técnicas, o Governo acabou por aprovar um apoio estatal condicionado de 35 milhões de euros, decisão que está agora no centro da controvérsia política.

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Ligações políticas alimentam suspeitas
Grande parte das críticas incide sobre o papel desempenhado por Jan Vapaavuori, responsável pelo projeto Helsinki Garden.

Vapaavuori foi presidente da Câmara de Helsínquia, ministro da Economia e vice-presidente do Banco Europeu de Investimento, sendo igualmente membro do Partido da Coligação Nacional, a mesma força política liderada por Petteri Orpo.

Segundo notícias divulgadas pela imprensa finlandesa, Jan Vapaavuori terá continuado a contactar membros do Governo e altos responsáveis políticos, incluindo o próprio primeiro-ministro, depois de os serviços técnicos terem considerado o projeto demasiado arriscado para beneficiar do apoio inicialmente solicitado.

Acresce que Vapaavuori não registou esses contactos no registo oficial de transparência sobre atividades de lobbying, obrigação prevista para este tipo de interações. O responsável admitiu posteriormente que irá atualizar essa informação.

Petteri Orpo rejeita qualquer favorecimento e garante que nem as ligações partidárias nem relações pessoais influenciaram a decisão de conceder os 35 milhões de euros.

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Ainda assim, na Finlândia, país que ocupa habitualmente os primeiros lugares dos índices internacionais de perceção da corrupção — surgindo atualmente na segunda posição do índice da Transparency International — até a simples aparência de falta de imparcialidade é suficiente para desencadear um intenso escrutínio político e mediático.

Oposição exige explicações ao primeiro-ministro
Os sociais-democratas lideram as críticas ao Governo.

A vice-presidente do partido, Niina Malm, defende que Petteri Orpo tem a obrigação de esclarecer todas as dúvidas existentes perante o Parlamento.

“O primeiro-ministro tem a responsabilidade de garantir que a responsabilização parlamentar é respeitada e estas questões sem resposta são particularmente graves, tendo em conta a difícil situação orçamental da Finlândia, sobretudo quando o país está atualmente sujeito ao procedimento por défice excessivo da Comissão Europeia”, afirmou.

Segundo a dirigente social-democrata, compete ao chefe do Governo “apresentar os factos e dissipar quaisquer suspeitas de conduta antiética”.

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“Enquanto esta questão não ficar resolvida e Orpo não responder a estas perguntas, uma nuvem de suspeição continuará a pairar sobre todo o projeto”, acrescentou.

Críticas multiplicam-se entre os partidos
As críticas não se limitam ao Partido Social-Democrata.

O Partido do Centro questiona como foi possível a ministra das Finanças, Riikka Purra, líder do Partido dos Finlandeses, aprovar um apoio de 35 milhões de euros para o Helsinki Garden ao mesmo tempo que promove cortes no financiamento de infraestruturas desportivas noutras regiões do país.

Já a Aliança de Esquerda acusa Petteri Orpo de ter prestado informações falsas ou deliberadamente enganadoras ao Parlamento relativamente ao processo de financiamento, considerando que essa situação poderá justificar a sua demissão.

Também a comunicação social tem alimentado a controvérsia.

Uma investigação conduzida pelo jornal Helsingin Sanomat concluiu que Petteri Orpo prestou “informações falsas” sobre o projeto em declarações públicas e que “os cálculos apresentados pelos promotores não foram verificados antes de o Governo tomar a decisão relativa ao apoio financeiro condicionado”.

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Estas conclusões aumentaram a pressão sobre o executivo numa altura particularmente sensível do ponto de vista político.

Parlamento pode não realizar sessão extraordinária
Apesar dos apelos da oposição para uma convocação extraordinária do Parlamento finlandês, essa decisão depende exclusivamente do presidente do Parlamento, Jussi Halla-aho.

Contudo, Halla-aho pertence precisamente ao Partido dos Finlandeses, parceiro de coligação do Governo liderado por Petteri Orpo, pelo que não é expectável que convoque uma sessão extraordinária do Eduskunta, o Parlamento unicameral composto por 200 deputados.

Ainda assim, Petteri Orpo enfrenta esta terça-feira uma forte pressão política para esclarecer todas as circunstâncias que envolveram o financiamento do Helsinki Garden, numa polémica que ameaça marcar a reta final da legislatura e que poderá assumir um peso significativo no debate político até às eleições parlamentares do próximo ano.

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