Portugal registou 29 casos de infeção por mpox desde agosto, um aumento que está a despertar atenção entre as autoridades de saúde. Segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), o país atravessa um “perfil oscilatório” de infeções, com dez casos registados em agosto, três em setembro e 16 em outubro. O número de outubro representa um acréscimo face à média mensal de 11 casos registada em 2025, o que poderá indicar uma “possível intensificação da transmissão” do vírus.
De acordo com informação avançada pela DGS e pelo INSA à Antena 1, o aumento recente está a ser analisado com cautela, uma vez que ainda “não há evidência de um novo pico epidémico”. As entidades confirmam, contudo, que foi detetado o primeiro caso em Portugal da variante clade Ib — considerada mais preocupante — identificado a 17 de outubro num indivíduo sem histórico de viagem, um padrão semelhante ao verificado em Itália, Espanha e nos Países Baixos.
A mpox, anteriormente conhecida como varíola dos macacos, foi detetada pela primeira vez em humanos em 1970, na República Democrática do Congo. O contágio ocorre por contacto próximo com pessoas infetadas, incluindo por via sexual, e manifesta-se através de lesões na pele e mucosas, frequentemente na região genital. Portugal foi um dos primeiros países europeus a registar infeções, tendo contabilizado 953 casos entre maio de 2022 e março de 2023, seguidos de surtos menores nos anos seguintes. Desde junho de 2024, as autoridades têm reportado um número “reduzido, mas contínuo” de casos semanais.
A maior parte das infeções recentes foi registada na região de Lisboa. O Grupo de Ativistas em Tratamento (GAT) contabilizou 11 dos 16 casos detetados em outubro nos seus centros da Grande Lisboa. “No mês de outubro tivemos 11 casos nos nossos três centros, quando nos meses anteriores praticamente não tínhamos registos”, afirmou Ricardo Fernandes, diretor-geral adjunto do GAT, acrescentando que considera estar em curso “um surto”, embora a DGS e o INSA prefiram falar apenas numa “possível intensificação da transmissão”.
Nos hospitais também se nota um ligeiro aumento. No Hospital dos Capuchos, em Lisboa, têm sido observados mais casos desde agosto, embora em número reduzido e todos considerados ligeiros. A médica infecciologista Margarida Tavares, do Hospital São João e investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, sublinha que é preciso cautela na leitura dos números. “Pode tratar-se apenas de uma oscilação ocasional, mas devemos estar atentos, porque este aumento pode significar uma maior transmissão”, alertou, acrescentando que, caso se confirme a tendência, “poderão ser necessárias medidas adicionais para travar o crescimento”.
De acordo com os dados enviados à rádio pública, 86% dos casos registados desde agosto referem-se a homens que têm sexo com homens, com idades entre os 25 e os 57 anos. A infecciologista Margarida Tavares salienta que o perfil dos casos “mantém-se idêntico ao dos surtos anteriores”, durante os quais Lisboa e Vale do Tejo concentraram 75% das 1202 infeções registadas até fevereiro de 2025.
A identificação da variante clade Ib em Portugal levou as autoridades a reforçar o apelo à vacinação. O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (CEPCD) considera que a vacina continua eficaz contra formas graves da doença, com uma eficácia de 82% para duas doses. “A vacinação foi uma ferramenta fundamental para controlar o primeiro surto”, recordou Margarida Tavares, defendendo que, mesmo sem dados completos sobre a nova variante, “é provável que continue a oferecer proteção elevada e reduza a gravidade e a duração da infeção”. O GAT confirma disponibilidade para vacinar, mas alerta para a baixa cobertura vacinal. “Apesar dos esforços, a cobertura ainda não é suficiente”, advertiu Ricardo Fernandes, cujo grupo assegurou 80% das vacinações contra a mpox em Portugal.
As autoridades de saúde mantêm a vigilância apertada e reforçam as recomendações para vacinação preventiva da população com maior risco de infeção, numa altura em que o aparecimento da nova variante e o aumento de casos exigem monitorização constante para evitar um novo surto.














