Conheça a nação nativa da internet que está a tentar comprar a Gronelândia para estabelecer um “criptoestado”

Presidente dos Estados Unidos tem manifestado interesse em adquirir a ilha do Ártico, alegando razões de segurança nacional, face à presença crescente da China e da Rússia, e ao vasto potencial de recursos naturais. Há, contudo, um terceiro fator frequentemente apontado por analistas

Francisco Laranjeira

Em outubro de 2024, uma empresa com sede em Nova Iorque anunciou ter assegurado um financiamento de cerca de 483 milhões de euros para um projeto denominado “Network Nation”. A empresa chama-se Praxis e apresenta-se como a primeira “nação conectada” do mundo.

Um mês depois, o fundador viajou para a Gronelândia, uma deslocação que levantou dúvidas e curiosidade. A explicação surge num cruzamento entre ambições tecnológicas, criptomoedas e a estratégia geopolítica defendida por Donald Trump, segundo o ’20 Minutos’.

O presidente dos Estados Unidos tem manifestado interesse em adquirir a ilha do Ártico, alegando razões de segurança nacional, face à presença crescente da China e da Rússia, e ao vasto potencial de recursos naturais, como níquel, platina, tungsténio, titânio, cobre, urânio e terras raras. Há, contudo, um terceiro fator frequentemente apontado por analistas: o interesse estratégico da Gronelândia para projetos ligados às criptomoedas, devido à perspetiva de energia abundante e relativamente barata para a mineração de bitcoin.

Um “criptoestado” no gelo do Ártico

É neste contexto que surge a Praxis Nation. O projeto propõe a criação de uma comunidade autónoma experimental, assente em ideais libertários e em tecnologias como criptomoedas e inteligência artificial, utilizando a Gronelândia como base física. A empresa descreve-se como uma “nação nativa da internet” e uma cidade-estado teórica destinada a “restaurar a civilização ocidental”.

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Fundada por Dryden Brown e Charlie Callinan, a Praxis tinha inicialmente planos para criar uma cidade com 10 mil habitantes na região do Mediterrâneo. No entanto, em novembro de 2024, Brown deslocou-se à Gronelândia, onde se reuniu com responsáveis políticos locais. Dias depois da reeleição de Trump, escreveu nas redes sociais que tinha ido à ilha “para tentar comprá-la”.

Segundo dados divulgados pela própria empresa, a Praxis afirma contar atualmente com mais de 151 mil membros, oriundos de 80 países, e sustenta que as empresas fundadas por membros da sua comunidade têm uma avaliação conjunta superior a um bilião de euros. Estes números constam no site oficial do projeto, onde é também apresentada a “Declaração dos Cidadãos Fundadores do Império Praxis”, aprovada em novembro de 2024.

Uma nova forma de organização política

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O documento fundador defende a superação das estruturas políticas tradicionais, consideradas limitadas pela geografia e incapazes de responder ao potencial humano. A Praxis proclama a intenção de criar um “Império da Rede”, uma civilização assente em valores partilhados, que existe tanto no espaço físico como no digital e que ambiciona estender-se para além da Terra.

O projeto garante que a criação desta nova entidade não implica confrontos com Estados existentes. Pelo contrário, apresenta-se como uma evolução pacífica, aberta a todos os que partilhem a sua visão e dispostos a integrar a comunidade.

Quem financia a Praxis

Apesar do discurso libertário, a Praxis conta com financiamento de peso. Um dos investidores mais destacados é Peter Thiel, figura central da chamada “máfia do PayPal” e um dos primeiros grandes nomes do Vale do Silício a apoiar Trump em 2016. Thiel é também defensor do seasteading, um conceito de cidades-estado flutuantes em águas internacionais.

O financiamento passa pela Pronomos Capital, um fundo de capital de risco associado a Thiel e fundado pelo neto do economista Milton Friedman. A Pronomos apoia projetos de cidades-modelo privadas e favoráveis aos negócios, sobretudo em países em desenvolvimento. No seu portefólio constam iniciativas em Palau, na Nigéria e nas Honduras, onde se destaca a cidade privada de Próspera, na ilha de Roatán.

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Entre os colaboradores da Praxis encontra-se ainda uma empresa de capital de risco fundada por Marc Andreessen, empreendedor do Silicon Valley e antigo conselheiro tecnológico da administração Trump, de acordo com informações citadas pelo ’20 Minutos’.

Outros interesses na Gronelândia

A Praxis não é o único projeto interessado na Gronelândia. Outras empresas procuram explorar os recursos minerais da ilha, considerados cruciais para o desenvolvimento da inteligência artificial. É o caso da KoBold Metals, que utiliza algoritmos de IA para identificar depósitos de terras raras e metais estratégicos. A empresa já detém uma participação maioritária num projeto no sudoeste da Gronelândia, onde procura cobre e outros minerais essenciais.

A combinação de recursos naturais, potencial energético e baixa densidade populacional transforma a Gronelândia num território cada vez mais cobiçado, tanto por Estados como por projetos privados que pretendem redefinir conceitos de soberania e organização política. Andreessen também investiu na KoBold Metals. O mesmo fizeram magnatas da tecnologia como Mark Zuckerberg e Jeff Bezos.

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