A Tesla, durante mais de uma década líder incontestada do mercado europeu de veículos elétricos, atravessa agora uma das fases mais difíceis da sua história no Velho Continente. O envolvimento político de Elon Musk nos primeiros meses da presidência de Donald Trump, bem como o apoio público a partidos de extrema-direita europeus, desencadeou uma reação negativa que está a penalizar seriamente as vendas da marca, segundo o jornal ‘POLITICO’.
Depois de anos a dominar o segmento dos veículos totalmente elétricos, a Tesla registou uma quebra significativa em 2025. O recuo é explicado por uma combinação de fatores, entre os quais o desgaste da imagem de Musk junto dos consumidores europeus, a crescente pressão de construtores chineses e uma gama de modelos considerada desatualizada.
Os resultados financeiros confirmam a dimensão da queda. No quarto trimestre de 2025, os lucros da empresa diminuíram cerca de 1,18 mil milhões de euros, o que representa uma descida de 61% face ao mesmo período do ano anterior. Em toda a Europa, incluindo o Reino Unido, as vendas da Tesla caíram 26%, para pouco mais de 238 mil unidades, de acordo com dados da associação europeia da indústria automóvel citados pelo ‘POLITICO’.
Alemanha e Países Baixos lideram a quebra
A análise por mercados nacionais revela um cenário ainda mais preocupante. Na Alemanha, as vendas da Tesla afundaram 48% em 2025, apesar de o mercado de veículos elétricos no país ter crescido cerca de 50% no mesmo período. Nos Países Baixos, a previsão aponta para uma quebra de 44%.
A dimensão do revés contrasta com o investimento feito pela própria Tesla na Europa. O forte crescimento do mercado levou Musk a investir cerca de cinco mil milhões de euros na construção de uma gigafábrica nos arredores de Berlim, inaugurada em 2022. Atualmente, surgem relatos de despedimentos nessa unidade, num sinal de que a retração já tem efeitos operacionais.
A queda no mercado europeu contribuiu para uma redução de 3% na receita global da Tesla em 2025, a primeira descida anual da história da empresa.
Marca tornou-se “politicamente tóxica”
A confiança de muitos investidores começou a deteriorar-se quando Musk se tornou conselheiro-chave de Trump e assumiu a liderança do projeto DOGE, criado com o objetivo declarado de cortar custos da administração federal americana. O afastamento posterior de Musk da Casa Branca, após o agravamento da relação com Trump, não foi suficiente para travar o impacto negativo na imagem da marca, sobretudo na Europa.
Enquanto a Tesla perde terreno, os concorrentes avançam. A Volkswagen registou um crescimento de 66% nas vendas de veículos elétricos no último ano, depois de anos de investimento para se tornar competitiva no segmento. As marcas chinesas estão também a ganhar espaço, com a BYD a aumentar as vendas na Europa em 268% em 2025, aproximando-se rapidamente dos números da Tesla.
Polémicas e boicotes agravam a crise
A contestação intensificou-se após Musk ter discursado num comício do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha, onde afirmou que o país deveria “superar” a sua culpa histórica. Na sequência dessas declarações, o ministro dos Transportes da Polónia apelou a um boicote à marca.
Em França, um grupo de proprietários de veículos Tesla avançou com uma ação judicial contra a empresa, alegando que o vandalismo sofrido pelos carros e a associação pública à marca violavam o princípio legal do “uso pacífico” dos bens adquiridos.
O impacto foi particularmente duro para empresários como Mark Schreurs, que apostou exclusivamente na Tesla ao criar uma empresa de leasing de veículos elétricos nos Países Baixos. Em 2025, acabou por encerrar o negócio. “Foi a tempestade perfeita”, resumiu.
Gama envelhecida e promessas por cumprir
Para além da política, a Tesla enfrenta críticas pela falta de inovação. O último modelo convencional lançado foi o Model Y, em 2019. Desde então, a marca limitou-se a atualizações do Model 3 e do Model Y e ao lançamento da Cybertruck, alvo de críticas e troça.
As promessas de um modelo acessível e de veículos totalmente autónomos continuam por concretizar. A tecnologia de “Condução Autónoma Total”, como é designada pela empresa, está envolvida em processos judiciais e investigações regulatórias, incluindo nos Estados Unidos, onde as autoridades analisam dezenas de denúncias de infrações rodoviárias.
Apesar disso, Musk anunciou recentemente a suspensão da produção de dois modelos para redirecionar investimentos para robôs-táxi e robôs autónomos, defendendo que os proprietários poderão lucrar ao integrar os seus carros numa futura frota autónoma.
Especialistas mantêm-se céticos quanto à chegada dessa tecnologia à Europa no curto prazo, devido às exigências regulatórias. Ainda assim, os investidores continuam confiantes e as ações da Tesla subiram cerca de 2,5% nas negociações pré-mercado após a divulgação dos resultados.






