O maior desafio já não é atrair investimento. É conseguir construir

Opinião de David Carreira, Direção Geral da Thomas & Piron Portugal

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David Carreira
David CarreiraDireção Geral da Thomas & Piron PortugalAgosto 21, 2026 8:42

Durante muitos anos, o debate sobre a habitação em Portugal centrou-se na necessidade de atrair investimento e criar condições para dinamizar a promoção imobiliária. Hoje, essa realidade evoluiu. Apesar das dificuldades que persistem, existe procura, há investidores interessados e têm sido adotadas medidas fiscais e legislativas para estimular o setor. O verdadeiro desafio passou a ser outro: conseguir transformar projetos em obra num prazo compatível com as necessidades do país.

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A promoção imobiliária continua a enfrentar processos de licenciamento excessivamente longos, interpretações regulamentares distintas entre municípios e uma complexidade administrativa que reduz a previsibilidade dos investimentos. Em muitos casos, o desafio já não resulta apenas da duração dos procedimentos, mas da crescente densidade legislativa e regulamentar que se foi acumulando ao longo dos anos. O que deveria constituir um quadro de regras claro e estável transformou-se frequentemente num sistema difícil de interpretar, aumentando a incerteza para promotores, projetistas, construtores e para a própria Administração Pública. Para projetos de maior dimensão, que exigem elevados níveis de capital e horizontes temporais necessariamente longos, o fator tempo tornou-se uma das principais variáveis de risco.

Num contexto em que a falta de oferta habitacional é amplamente reconhecida como um dos maiores desafios nacionais, a rapidez com que os projetos chegam ao mercado é decisiva. Cada ano de atraso representa não apenas um aumento dos custos de construção, mas também um agravamento significativo dos encargos financeiros suportados pelos projetos. O custo do capital é hoje uma das componentes menos visíveis, mas mais relevantes, no preço final da habitação. Quanto maior for o tempo necessário para licenciar e executar uma operação, maior tende a ser o impacto desses custos sobre os compradores finais.

É importante reconhecer que têm sido desenvolvidos esforços para simplificar procedimentos e criar um enquadramento mais favorável ao investimento. No entanto, para que essas medidas produzam resultados efetivos, importa garantir maior previsibilidade nos processos de decisão e uma articulação mais eficiente entre promotores, autarquias e Administração Pública.

Projetos de reabilitação urbana de grande escala demonstram bem este potencial. Para além de aumentarem a oferta habitacional, contribuem para regenerar áreas urbanas, criar novas centralidades, qualificar o espaço público e reforçar a atratividade dos territórios. Mas evidenciam igualmente a complexidade técnica, administrativa e financeira inerente a intervenções desta dimensão, cujo sucesso depende de uma visão partilhada entre os diferentes intervenientes.

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O desenvolvimento das cidades exige, por isso, uma abordagem integrada. Habitação, mobilidade, infraestruturas, equipamentos públicos e sustentabilidade não podem ser planeados de forma isolada. A qualidade dos projetos mede-se também pela sua capacidade de gerar valor para as comunidades e de responder às exigências das próximas décadas.

Portugal reúne condições muito competitivas para continuar a atrair investimento e promover um desenvolvimento urbano mais sustentável. O passo seguinte passa por assegurar que a capacidade de executar acompanha essa ambição. Porque, mais do que criar novos incentivos, é essencial garantir que os projetos conseguem avançar com previsibilidade, contribuindo para aumentar a oferta de habitação, acelerar a regeneração urbana e responder, em tempo útil, às necessidades do país.

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