O efeito borboleta do coronavírus

O mundo pode em breve ter ultrapassado o “pico do vírus”. Mas a recuperação levará anos – e as ondas de choque serão sísmicas. Parag Khanna e Karan Khemka prevêem as réplicas deste terramoto.

Executive Digest

Na teoria do caos, o efeito borboleta descreve uma pequena mudança que pode ter consequências enormes e imprevisíveis. Um insecto bate as asas e, semanas mais tarde, causa um tornado. O coronavírus assemelha-se mais a um terramoto, com réplicas que reconfigurarão permanentemente o mundo.

Se tivermos sorte, o mundo passará o “pico do vírus” nos próximos seis meses. Mas a economia, os governos e as instituições sociais demorarão anos a recuperar nos cenários mais optimistas. De facto, em vez de se falar sequer em “recuperação”, que implica um regresso à nossa vida anterior, seria mais adequado projectar a nova direcção que a civilização irá seguir. E isso também será uma viagem acidentada. Os próximos três a cinco anos lembrar-nos-ão de que o COVID- 19 foi o relâmpago antes do trovão.



Claro que é difícil fazer uma ligação directa entre causa e efeito. Com o benefício da retrospectiva, podemos ver agora como o Tratado de Versalhes e a Grande Depressão permitiram a ascensão de Hitler. Mas no mundo hiperligado de hoje, as densas redes globais fazem com que os efeitos borboleta se amplifiquem com muito mais rapidez.

Seremos capazes de perspectivar os cenários possíveis que nascerão das consequências da pandemia actual? Tendo em conta a pressão sobre as nossas instituições para lidarem com a crise actual, poucas tarefas poderiam ser mais urgentes a ajudar-nos a preparar para o futuro. É fácil prever uma tragédia após um fenómeno devastador como o corona- A realidade acabará provavelmente por ser diferente – e será mesmo.

A longa emergência

O cenário mais óbvio a considerar é que as inúmeras estirpes de COVID-19 espalhadas pelo mundo continuarão a atacar as sociedades e a procura por uma vacina tornar-se-á mais difícil, indo para lá dos previstos 12-18 meses. Os países que aceitaram os ritmos das políticas de distanciamento social e aproveitaram tecnologias para estabelecer contactos podem continuar a isolar pequenas bolsas de exposição durante quarentenas estritas, mas os países mais pobres e com população densa continuarão pouco preparados e vulneráveis. O número de mortos agregado passará dos mais de 100 mil para quase um milhão de pessoas ou mais. Neste momento, todos os países estão em isolamento, mas nesta trajectória, alguns deles estarão indefinidamente afastados de trocas físicas com outros. Internamente, enfrentam a escolha dolorosa de reabrir as suas economias e expor as suas populações a um maior número de infectados. Devemos por isso ser cautelosos nas previsões que sugerem que iremos enfrentar uma simples recessão em forma de U ou V. Vários factores indicam o contrário. Mais importante, as cadeias de abastecimento e os mercados estão mais integrados do que as pessoas pensam, e ter a produção mais perto é mais difícil do que parece. O desastre actual norte-americano com as máscaras cirúrgicas e ventiladores é um bom exemplo. Os mercados emergentes e os países em desenvolvimento são essenciais como fornecedores e como mercados. A sua queda enfraquece a economia mundial como um todo.

Além disso, o desemprego doméstico está a atingir níveis da era da Depressão, e os pacotes actuais de apoio ainda não oferecem o estímulo de que muitos públicos ocidentais precisarão nos próximos anos. As poupanças por precaução e o consumo discreto ditarão o consumo, e o investimento empresarial irá diminuir. Um longo W será por isso o cenário económico mais provável para os próximos anos.

Ao nível humano, a queda económica actual é tão íngreme que os números do PIB são a última coisa em que as pessoas pensam. Para governos e empresas, porém, a dívida crescente é uma enorme preocupação. Assim que as linhas de crédito se esgotarem, inúmeras empresas acabarão por ruir ou por se consolidar. Indústrias – da imobiliária comercial à aviação – sofrerão enormes diminuições em escritórios e centros comerciais, companhias aéreas e aeroportos. Enquanto as políticas sociais europeias mantêm os lares mais protegidos do que a escassa segurança social norte-americana, o mercado único dos EUA é muito mais eficiente do que a Zona Euro, onde os líderes não chegam a acordo sobre um acordo comum partilhado. À medida que os grandes empregadores (e os estados e províncias que dependem dos seus impostos) caem por terra, o mesmo pode acontecer a governos.

O “cenário suez”

O colapso total do estado não é um cenário impossível para estados petrolíferos como o Equador e o Irão. Os últimos anos de hiperinflação e fome da Venezuela serão intensificados pela falta de ajuda e pela queda do preço do crude. Tal como o petróleo dos anos 80 acelerou a desintegração da União Soviética, a queda do preço do crude e a probabilidade de cancelamento da peregrinação a Meca cortará as duas maiores fontes de receitas da Arábia Saudita. A alta taxa de infecção no Irão agravou-se com o estrangulamento das sanções norte-americanas. Os países petrolíferos e os países em desenvolvimento acorreram ao FMI para acesso aos seus créditos e também levantaram as suas reservas em dólares para reforçar as suas finanças e impedir a fuga de capitais. Os estados do Golfo terão de abrir mão das suas ligações ao dólar norte-americano.

Seria demasiado simplista sugerir que a China irá preencher essa lacuna. Tendo em conta as suas próprias dificuldades com empresas fantasma, dívidas municipais altas e défices, Pequim conteve-se de estender créditos generosos como o Irão e o Paquistão. Contudo, um “cenário Suez” permanece plausível, remetendo ao episódio de 1956 em que a administração Eisenhower ameaçou suspender o apoio à libra inglesa se a Grã-Bretanha não retirasse as suas tropas do Canal de Suez. Com os acordos comerciais entre os EUA e a China a complicarem-se drasticamente e com a China a tentar mudar o preço do crude para o renminbi (a divisa chinesa), a fragmentação da ordem monetária global é uma possibilidade para a qual todos os países se devem preparar.

Outra crise de migrantes

A fragmentação económica global e a diminuição das linhas de salvamento internacionais significarão que as pessoas continuarão a fugir de estados. A Turquia tornou claro que não quer albergar quatro milhões de refugiados sírios para sempre e que não irá tolerar um surto massivo do vírus. A quebra no apoio do Golfo ao Egito e ao Sudão pode dar origem a um êxodo desses estados. Assim, devemos esperar uma nova crise migratória da América Central para o México e do Médio Oriente para a Europa.

Numa perspectiva mais ampla, se e quando as restrições da pandemia sobre a mobilidade forem levantadas, milhões de outras pessoas procurarão escapar às geografias das “zonas vermelhas” com cuidados médicos desadequados para irem para “zonas verdes”. Hoje, quase todos os países que oferecem cuidados médicos universais encontram-se na Europa. Os que têm competências e “passaportes de imunidade” podem ganhar entrada à medida que alguns países mais abastados procuram migrantes que contribuam para a recuperação do consumo e para satisfazerem a falta de mão-de-obra. Dentro dos países, a fuga de cidades mais dispendiosas para áreas regionais irá provavelmente acelerar. Nos EUA, isto pode beneficiar cidades como Denver e Charlotte; na Europa, Lisboa e Atenas.

Aumento do nacionalismo

Antes de muitos países pensarem em aproveitar a migração devem analisar o seu abastecimento de alimentos e produtos médicos e talvez seguir o tipo de armazenamento ou “nacionalismo alimentar” que a Rússia fez ao limitar a exportações de cereais e o Vietname com a restrição na exportação de arroz. Há uma década, a volatilidade nos preços dos produtos agrícolas exacerbado pela proibição da exportação de trigo ajudou a que o Egito e a Tunísia ficassem em dificuldades. Não deveremos ficar surpreendidos se esta história recente se repetir em diversos países.

Seria muito optimismo prever que as instituições multilaterais serão apoiadas por poderes superiores de forma a lidarem melhor com choques futuros. A recente manipulação da OMS pela China e a sua admissão no Concelho dos Direitos Humanos, assim como o seu menosprezo total pelo Concelho de Segurança da ONU, sugere que as Nações Unidas continuarão a sua degradação. Enquanto o FMI restaurou temporariamente a sua relevância, a supervisão macroprudencial será abandonada. O Banco Mundial é lento e tem poucos recursos.

O cenário mais optimista é o renascer das organizações regionais. A UE tem a oportunidade de criar a união fiscal de que precisa mais do que nunca, mas continua a ser pouco claro se o irá fazer. Os países asiáticos assinaram uma Parceria Económica Abrangente Regional e terão de aprofundar o seu comércio interno para lidarem com o choque na procura global. Três estados norte-americanos já comercializam mais uns com os outros do que com a China ou a Europa. A regionalização será a nova globalização.

Tecnologia vs curva de custos

Quais os investimentos que podemos fazer ou aprofundar hoje para amortecer o impacto da pandemia do coronavírus e guiar o futuro numa direcção mais estável e sustentável? Um maior investimento na biotecnologia e nos cuidados médicos é um ponto de partida óbvio – mas não no formato actual. Os cuidados médicos estão a ser definidos como um bem social em todo o mundo, mas o seu custo está a ser escrutinado. A oferta de cuidados médicos universais de forma economicamente viável só pode ser atingida com um modelo que dê ênfase à telemedicina e a clínicas localizadas e centros de tratamento. A pressão feita, mesmo em países pobres como a Índia e a Indonésia, pode ser esclarecedora para muitos. A fragmentação das regras das ciências da vida deve ser ultrapassada se queremos manter a “diplomacia científica” que nasceu no meio desta pandemia e inverter a tendência que se arrasta há décadas em que o custo de produzir um medicamento novo duplica a cada década.

De forma semelhante, a educação privada irá receber mais investimento tendo em conta o seu forte desempenho durante a crise, mas com um enfoque na oferta digital. Isto por sua vez deve demonstrar como a inovação generalizada na educação pública pode ser igualmente atingida com um custo acessível. A digitalização dos serviços financeiros, que já estava em franco crescimento antes da pandemia, deve servir toda a gente no rescaldo da epidemia. Sem isso, não veremos o fim da desigualdade e do consumo anémico.

Ameaças civilizacionais

Quanto mais olhamos para o futuro, mais podemos imaginar como a sociedade global pode estar a ser reinventada pela pandemia do coronavírus. A Peste Negra do séc. XIV causou milhões de mortes na Eurásia, dividindo o maior império territorial alguma vez conhecido, forçando o crescimento de salários na Europa e promovendo uma maior exploração marítima que levou ao colonialismo europeu. Estes fenómenos estão ligados à Peste, mesmo que tenham ocorrido ao longo de séculos. As consequências da pandemia de hoje emergirão muito mais rapidamente, e com o benefício das previsões podemos tentar mitigá-las, lucrar com elas e desenvolver um sistema global mais resistente no processo.

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