“O Dubai é um centro económico brutal”

Há dez anos a trabalhar no Médio Oriente, Cristina Ramos tem a seu cargo a gestão financeira do escritório da empresa portuguesa de eventos, Multilem.

Filipe Gil

Os primeiros anos de profissão de Cristina Ramos marcaram-na para sempre. É assim que qualifica os dez anos que trabalhou na consultora Cunha Vaz e Associados, em Lisboa. Entrou como estagiária e (poucos) anos mais tarde, como diretora de contas, teve à sua responsabilidade clientes como a UEFA, Renova, Delta entre outros. Recorda ainda quando o seu diretor de então, António Cunha Vaz, lhe disse que tinha um mês trazer o antigo primeiro-ministro espanhol, José María Aznar, a uma conferência a Lisboa. E levo-a a estar igualmente envolvida na organização de outras conferências de cariz internacional que trouxeram a Portugal nomes como Tony Blair, Bill Clinton e Colin Powell. «Foi um percurso fascinante». sublinha. Entretanto, a família levou-a de Lisboa para Londres, para acompanhar o marido. E foi a família, mais uma vez, e experiência de gestão contabilística dos anos de empresária que a levaram, quase sem querer, à posição atual: diretora financeira na Multilem Middle East no Dubai – uma empresa portuguesa de eventos. 

O que diz Cristina…
À Executive Digest explica como é trabalhar numa economia em que tudo acontece a grande velocidade.



Como surgiu o convite para ir trabalhar para o Dubai?
Depois de dez anos na empresa de comunicação Cunha Vaz acompanhei o Diogo, o meu marido que foi trabalhar para Londres. Ao mesmo tempo tinha um atelier de vestidos e fardas em Portugal, com a minha sócia, Margarida Uva, e recordo-me que entrámos num programa de mentoring, onde grandes empresas ajudaram os pequenos negócios. Fomos selecionadas pelo Grupo Delta, mais concretamente a Rita Nabeiro, que nos ajudou a fazer o business plan da empresa. Desenvolvemos o negócio e abrimos uma loja em Campo de Ourique. Entretanto, o Diogo, abriu uma empresa de consultoria e advisory de software em Espaço e Defesa no Dubai. E fomos! Já com uma filha e eu grávida. Quando estava para ir para o Médio Oriente, o Francisco Mello e Castro, que éum dos acionistas da Multilem Middle East, perguntou-me se queria trabalhar como administrativa no escritório da empresa no Dubai. O trabalho implicava fazer de tudo um pouco, desde cafés a entrevistas. E foi assim que começou a minha maior aventura profissional.

É a maior por ser no Médio Oriente?
O Dubai que é um centro económico brutal, e aqui temos acesso a todos os países e a uma economia muito desafiante com uma multiplicidade de negócios a acontecer e a uma grande velocidade. E o mercado é muito interessante, os orçamentos para os projetos também. Quando cheguei era administrativa e comecei a desenvolver a parte financeira da empresa, como se podia reduzir custos, como se podia crescer, etc., estive muito focada na parte financeira. E passado dois anos, os acionistas da Multilem, José e Pedro Castro, que é empresa portuguesa que está no Dubai desde 2014, convidaram-me para ser diretora financeira.

E passou pelos tempos da pandemia, como foi essa época?
A indústria dos eventos sofreu um grande impacto na altura da pandemia, mas, mais uma vez, o Dubai e os Emiratos Árabes Unidos mostraram que têm uma grande visão. Fechámos de março a setembro, em setembro as escolas voltaram a funcionar. E os eventos regressaram cedo, em janeiro de 2022. Quando comparamos este mercado com o resto do mundo, vemos que esta é uma economia muito interessante, forte e sustentável, e por isso a economia, e as indústrias não param. As empresas têm de ser sustentáveis, têm de ter estrutura financeira suficiente para conseguirem subsistir. Não tivemos incentivos e durante o covid não houve qualquer apoio do País, esse foi um dos maiores e mais enriquecedores desafios profissionais que tive. Aprendi tanto! Recordo que tive de desenhar 25 cenários diferentes para que a empresa ultrapassasse esse período, porque ou tínhamos uma estrutura que dava para ter suporte a longo e médio prazo ou então deixávamos de existir. Isto para dizer que essa foi uma das fases mais desafiantes profissionalmente em que tive que aprender e estudar. É outra máxima que tenho aprendido: nunca podemos parar de aprender. Atualmente, a empresa cresce a três dígitos e tem um grande impacto no grupo. Embora não venha de um percurso financeiro tradicional, consigo aplicar uma perspetiva mais criativa para enfrentar os desafios do dia a dia, e encontrar soluções inovadoras e práticas.

O Dubai um mercado muito diversificado com gente de várias origens.
Na empresa temos 25 nacionalidades diferentes. O Dubai é um melting pot, ainda mais diversificado do que encontrei no Reino Unido. A isso somam-se oportunidades de negócio, não só no Dubai como no resto dos Emirados, na Arábia Saudita e GCC. E nos últimos anos, por exemplo, temos crescido muito nos mercados da China e da Índia.

E trabalham esses mercados a partir do Dubai?
Viajo três, quatro vezes por mês. Para dar um exemplo, ainda recentemente estive numa segunda-feira na Índia, na terça estava em Londres, na quarta em Portugal, e regressei domingo ao Dubai. E é isto que me dá energia todos os dias. Muita gente acha que as reuniões via Teams são eficazes, eu acredito mais no cara a cara. Esta é uma parte do trabalho que gosto muito. É um mercado completamente diferente do resto do mundo. Como existe capacidade financeira, as necessidades dos clientes são outras, e aplica-se a máxima: “it’s kind of fun to do the impossible”.  

Como é a filosofia de trabalho no Dubai?
É uma filosofia muito diferente de Portugal. Quando comecei a trabalhar em Portugal, o António Cunha Vaz deu-me uma visão muito «out of the box». E talvez se não tivesse sido tão puxada por ele, não estava tão bem preparada para querer sempre mais e melhor. Foi em Portugal que tive essas bases muito importantes e que foram um ensinamento para o que faço aqui no Dubai. Aqui na empresa temos uma filosofia em que se transmite às pessoas a responsabilidade, objetivos e respeito que tem de existir quer pela empresa quer pela equipa, quer pelos próprios horários. Somos três mulheres no management da empresa, a Dorothee Anjos, General Manager, a Marta Paniagua como Head of Creativity e eu com a parte financeira, e temos muito essa filosofia de trabalho. Aliás, no início a empresa no Dubai era composta só por mulheres, o que por si é um componente muito interessante por estarmos num mercado árabe, onde as mulheres eram vistas para estar em casa sem terem carreiras – antigamente, porque hoje já não é assim. E as três somos mulheres que vieram para o Dubai, não por causa da sua carreira profissional, mas por causa dos nossos maridos. É uma empresa com uma cultura muito dedicada às pessoas.

Essa filosofia faz parte do mercado no Dubai?
Não posso lhe dizer concretamente porque nunca trabalhei noutra empresa.

 E como é o seu dia a dia?
Não tenho dia a dia. Já me aconteceu estar em casa às três da tarde e ligarem-me do escritório e dizer que tinha de apanhar um avião para a África do Sul no espaço de duas horas…tem a ver com a maneira como vivemos esta empresa, é mesmo estar sempre “on”. Mas é preciso perceber que tenho suporte para poder ter esta vida de viagens e de estar sempre disponível. Tenho uma empregada interna, portanto as minhas filhas podem ficar ou com o pai e com a empregada. Sim, tenho um suporte e sem ele não poderia ter esta vida. Nunca viajamos os dois ao mesmo tempo!

E fora do trabalho, como é a vida no Dubai?
É um local muito pensado para a família. Aos fins-de-semana podemos ir fazer surf, ir para o deserto, e fazer desporto. Temos um bom grupo de amigos e não são todos portugueses.  

E regressa a Portugal com regularidade?
Sim, claro. Vou no Natal de vez em quando na Páscoa. Mas é preciso ver que, é verdade, eu adoro trabalhar aqui, adoro viver aqui, acho que o Dubai tem umas condições familiares, umas condições profissionais fora de série, mas preciso ainda muito da parte familiar e das amigas. Tenho uma vertente em que consigo trabalhar dois meses remotamente a partir de Portugal. Assim, no final de junho vou para Portugal e trabalho de lá enquanto estou com a minha família e amigos. Essa temporada dá uma espécie de energia para o resto do ano no Dubai.

Qual foi o evento que mais a entusiasmou até ao momento?
O nosso maior cliente é o Saudi Tourism Authority. E viajamos com eles para todo o mundo. Portanto, o ano passado, acho que devo ter ido a umas 30 cidades diferentes para promover um país completamente diferente e ainda pouco conhecido como destino turistico, mas com um potencial gigante!  

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