Marcelo prestes a igualar recorde de Eanes no uso da “bomba atómica”

Marcelo Rebelo de Sousa completa no domingo nove anos como Presidente da República no meio de uma crise política que o levará à terceira dissolução do parlamento nacional, igualando o recorde de Ramalho Eanes no uso da “bomba atómica”.

Executive Digest com Lusa

Marcelo Rebelo de Sousa completa no domingo nove anos como Presidente da República no meio de uma crise política que o levará à terceira dissolução do parlamento nacional, igualando o recorde de Ramalho Eanes no uso da “bomba atómica”.

A pouco mais de um ano de deixar o Palácio de Belém, e a seis de perder o poder constitucional de dissolução da Assembleia da República, Marcelo deparou-se com uma crise política desencadeada por sucessivas notícias sobre uma empresa familiar do primeiro-ministro, Luís Montenegro, que deverá culminar com o chumbo de uma moção de confiança e consequente demissão do Governo.



Com a anunciada queda do executivo minoritário de Luís Montenegro, ao chefe de Estado não restará alternativa que não a de dissolver a Assembleia da República pela terceira vez, tendo em conta não só a sua prática política passada, mas também a inexistência de uma maioria parlamentar que permita alimentar expectativas quanto à aprovação de um programa de um governo liderado por outra figura da Aliança Democrática, a coligação PSD/CDS-PP que venceu as legislativas de 10 de março de 2024.

No último governo socialista, Marcelo não só acenou várias vezes com o “fantasma” da dissolução, caso António Costa deixasse o executivo para ocupar um cargo europeu, como fechou a porta à nomeação de Mário Centeno sugerida pelo então primeiro-ministro, aquando da sua demissão na sequência de uma investigação do Ministério Público à instalação de um centro de dados em Sines, o denominado processo Influencer.

Apesar de não ter até agora falado expressamente em eleições, o Presidente da República prometeu agir o mais depressa possível, chamando os partidos a Belém e reunindo o Conselho de Estado, para chegar a um “calendário eleitoral” que aponta para meados de maio.

Com a terceira dissolução da Assembleia da República, Marcelo Rebelo de Sousa iguala o recorde de Ramalho Eanes no uso da chamada “bomba atómica”. Desde a revolução de 25 de Abril de 1974, o parlamento nacional vai a caminho da 10.ª dissolução, três de Ramalho Eanes, duas de Marcelo, duas de Jorge Sampaio, uma de Cavaco Silva e outra de Mário Soares.

Marcelo Rebelo de Sousa decretou a primeira dissolução do parlamento em dezembro de 2021, face ao chumbo do Orçamento do Estado, e a segunda em janeiro de 2024, após a demissão de António Costa do cargo de primeiro-ministro, por causa da Operação Influencer, quando chefiava um Governo do PS com maioria absoluta no parlamento.

Nos nove anos em Belém, oito foram de coabitação com António Costa à frente do PS e do executivo, o que o levou a desabafar, já no consulado de Montenegro: “Éramos felizes e não sabíamos”. O anterior primeiro-ministro tornou-se entretanto presidente do Conselho Europeu.

Após dar posse, em 02 de abril do ano passado, ao XXIV Governo Constitucional, ao qual prometeu apoio “solidário e cooperante”, Marcelo Rebelo de Sousa empenhou-se em “criar um clima favorável à passagem do Orçamento” do Estado, sem revelar o que faria se fosse chumbado.

No decurso das negociações orçamentais, em outubro, reuniu o Conselho de Estado para analisar a situação económica e financeira e cancelou idas ao estrangeiro. O Orçamento do Estado para 2025 foi viabilizado na generalidade e em votação final global com a abstenção do PS liderado por Pedro Nuno Santos, e o Presidente da República promulgou-o de imediato.

Sem qualquer problema conhecido na coabitação com Luís Montenegro, Marcelo acabou por ser beliscado por umas polémicas declarações à imprensa estrangeira em Portugal, quando disse que o atual primeiro-ministro “dá muito trabalho” e tem “comportamentos rurais”. “Vem de um país profundo, urbano-rural, com comportamentos rurais”. Para Marcelo, Montenegro “é muito curioso, difícil de entender, precisamente por causa disso”.

Ultimamente, o Presidente da República tem-se mostrado apreensivo com a conjuntura global, designadamente com a postura da nova administração norte-americana de Donald Trump e a sua aproximação à Rússia e distanciamento da Ucrânia, não poupando críticas públicas ao inquilino da Casa Branca.

Após um primeiro mandato em que se revelou um dos presidentes mais populares, o “Presidente dos afetos”, que criou uma empatia grande com os portugueses, tem visto diminuir as apreciações positivas à medida que se aproxima o fim da sua estada em Belém.

Para isso terá contribuído o caso de duas gémeas luso-brasileiras com atrofia muscular espinhal tratadas no Hospital de Santa Maria com um dos medicamentos mais caros do mercado, que continuou na agenda política em 2024 e 2025, através de uma comissão parlamentar de inquérito da iniciativa do partido Chega e que em breve aprovará as conclusões.

Envolvido neste caso por intermédio do seu filho, Nuno Rebelo de Sousa, que foi constituído arguido, o chefe de Estado acabou a criticá-lo em público e a referir que estavam de relações cortadas. Não sendo obrigado a depor na comissão de inquérito, não excluiu voltar a pronunciar-se sobre o assunto, uma vez terminadas todas as audições.

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