A crescente pressão sobre o mercado habitacional europeu está a aprofundar o fosso entre salários e rendas, com as cidades do sul da Europa a destacarem-se pelos níveis mais elevados de esforço financeiro exigido aos arrendatários. Um novo estudo divulgado pela Tradingpedia e representado num mapa elaborado pelo El Economista revela que Lisboa é atualmente a cidade europeia onde o arrendamento absorve a maior percentagem do rendimento dos trabalhadores, colocando a capital portuguesa no topo de um ranking que evidencia o agravamento da crise da acessibilidade à habitação.
A análise compara o valor médio da renda de um apartamento com um quarto localizado nos centros urbanos com o salário líquido médio disponível em 127 cidades europeias. Para isso, foram utilizados dados sobre custo de vida da plataforma Numbeo e históricos de preços de arrendamento recolhidos através da Wayback Machine. O resultado mostra uma realidade preocupante: em várias cidades europeias, a habitação está a consumir uma parcela cada vez maior dos rendimentos das famílias, mas é no sul do continente que o problema assume proporções mais severas.
Lisboa destaca-se como o caso mais extremo da Europa
Segundo o estudo, Lisboa ocupa o primeiro lugar entre as cidades menos acessíveis da Europa em termos de relação entre salários e rendas. O salário líquido médio na capital portuguesa ronda os 1.343 euros mensais, enquanto a renda média de um apartamento com um quarto situado numa zona central atinge os 1.331 euros.
Na prática, isto significa que cerca de 99,15% do rendimento mensal é absorvido pelo pagamento da habitação, restando apenas 11 euros disponíveis para todas as restantes despesas, incluindo alimentação, transportes, energia, saúde ou lazer.
O estudo identifica Lisboa como o exemplo mais extremo de uma tendência que se tem vindo a agravar desde a pandemia, período durante o qual a inflação persistente e o aumento generalizado do custo de vida pressionaram significativamente os orçamentos familiares em toda a Europa.
Porto também surge entre os mercados mais pressionados
A situação portuguesa não se limita à capital. O Porto surge igualmente entre os mercados de arrendamento mais sobrecarregados do continente.
De acordo com os dados analisados, os inquilinos da cidade do Porto destinam mais de 85% dos seus rendimentos ao pagamento da renda, colocando a segunda maior cidade portuguesa entre os exemplos mais significativos de perda de acessibilidade habitacional na Europa.
O relatório refere que os problemas deixaram de estar concentrados apenas nas tradicionais capitais financeiras europeias, atingindo também cidades médias e importantes destinos turísticos. Os autores associam este fenómeno à forte procura turística, à expansão do alojamento temporário e à escassez de oferta habitacional, fatores que continuam a impulsionar os preços e a reduzir a capacidade financeira dos residentes locais.
Tirana, Kiev, Milão e Málaga entre as cidades mais afetadas
Depois de Lisboa, a capital da Albânia, Tirana, surge como a segunda cidade europeia menos acessível para quem procura arrendar habitação. Nesse caso, as rendas absorvem mais de 93% dos salários médios.
Kiev aparece na terceira posição. Apesar de os valores absolutos das rendas serem significativamente mais baixos do que noutras cidades europeias, os rendimentos locais são igualmente reduzidos, levando os residentes a gastar quase 88% dos seus salários em habitação.
Entre os casos mais preocupantes encontram-se ainda Milão e Málaga. Nas duas cidades, os arrendatários necessitam de aproximadamente três quartos dos seus rendimentos mensais para suportar o custo de uma habitação localizada em zonas centrais.
Norte e centro da Europa apresentam cenário oposto
O contraste torna-se evidente quando se observam os mercados do centro e norte da Europa. Embora as rendas sejam frequentemente elevadas em termos absolutos, os salários mais altos permitem preservar uma maior capacidade financeira após o pagamento da habitação.
A Alemanha destaca-se particularmente neste indicador. Cidades como Essen, Mannheim, Nuremberga e Dresden permitem aos residentes conservar entre 76% e 81% do salário depois de paga a renda.
Entre as dez cidades mais acessíveis da Europa predominam centros urbanos alemães, suíços, austríacos, britânicos e suecos. Nenhuma cidade do sul da Europa integra este grupo.
O exemplo mais favorável é Essen, considerada a cidade com o mercado de arrendamento mais acessível do continente. Nessa cidade alemã, a renda média de um apartamento no centro representa apenas 18,9% do salário mensal dos residentes.
Rendas continuam a subir em grande parte da Europa
Apesar de algumas exceções, a tendência geral continua a apontar para uma subida dos preços do arrendamento.
O estudo conclui que Odessa, na Ucrânia, registou o maior aumento anual entre todas as cidades analisadas, com uma valorização média das rendas de 26,8% face ao ano anterior.
Entre as cidades espanholas, destacam-se os aumentos observados em Valência, Málaga e Bilbau, que também figuram entre os mercados com maior crescimento dos preços.
Lisboa regista descida moderada, mas continua sob forte pressão
Curiosamente, Lisboa surge entre as cidades que registaram uma redução dos preços das rendas durante o último ano. Segundo o estudo, a capital portuguesa verificou uma descida de 5,7%, enquanto Sevilha apresentou uma redução de 6,2%.
Ainda assim, essa correção não foi suficiente para alterar significativamente a posição de Lisboa no ranking europeu da acessibilidade habitacional. A discrepância entre rendimentos e custos de habitação continua a ser tão elevada que a cidade permanece como o exemplo mais extremo da dificuldade de acesso ao arrendamento no continente.
Os autores do estudo consideram que estes ajustamentos poderão refletir uma desaceleração da procura após vários anos de crescimento acelerado dos preços, mas sublinham que o problema estrutural da acessibilidade permanece particularmente grave no sul da Europa.
















