O Irão enfrenta um apagão nacional da internet e das comunicações telefónicas num momento de forte agitação social, depois de manifestantes terem aderido a protestos convocados pelo príncipe herdeiro iraniano no exílio. A interrupção do acesso digital ocorre num contexto de contestação crescente à deterioração das condições económicas e à resposta repressiva das autoridades.
O grupo internacional de monitorização NetBlocks confirmou esta quinta-feira que o país está a atravessar um bloqueio generalizado da internet, sublinhando que o apagão surge após “uma série de medidas crescentes de censura digital dirigidas aos protestos em todo o país”, o que, segundo a organização, “prejudica o direito do público a comunicar num momento crítico”.
As manifestações intensificaram-se desde o final de dezembro, com milhares de pessoas a saírem às ruas em várias cidades iranianas para protestar contra o aumento acentuado do custo de vida e a forte desvalorização da moeda nacional. A mobilização popular ocorre num cenário de crise económica profunda, agravada por sanções internacionais e dificuldades estruturais internas.
Imagens divulgadas nas redes sociais antes do apagão digital mostram forças de segurança iranianas a recorrer ao gás lacrimogéneo para dispersar manifestantes no histórico bazar de Teerão. As imagens, datadas de 6 de janeiro, revelam confrontos diretos entre manifestantes e forças de segurança em zonas centrais da capital.
Pelo menos 21 mortos desde o início das manifestações
Desde o início dos protestos, pelo menos 21 pessoas morreram, incluindo membros das forças de segurança, de acordo com uma contagem da agência AFP baseada em informações dos meios de comunicação locais e em declarações oficiais. O número de vítimas reflete a crescente violência associada à repressão das manifestações.
As autoridades iranianas têm transmitido mensagens contraditórias quanto à forma de lidar com a contestação. O presidente Masoud Pezeshkian apelou à aplicação da “máxima contenção” na resposta às manifestações, sinalizando uma abordagem mais cautelosa por parte do Governo.
Líder supremo e poder judicial adotam discurso de linha dura
Em contraste, o líder supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei, assumiu um tom mais duro, afirmando que os manifestantes envolvidos em distúrbios devem ser “postos no seu lugar”. A retórica repressiva foi reforçada pelo chefe do poder judicial, que acusou os manifestantes de agirem “em alinhamento” com os Estados Unidos e Israel.
O presidente do Supremo Tribunal, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, garantiu que não haverá tolerância para quem, segundo as autoridades, contribua para a instabilidade. “Se alguém sair à rua para provocar motins, criar insegurança ou apoiar essas ações, então não resta qualquer desculpa”, afirmou. “A questão tornou-se muito clara e transparente. Estão agora a operar em linha com os inimigos da República Islâmica do Irão.”
Preocupação internacional com a repressão e as vítimas
A escalada da repressão e o número crescente de vítimas levaram a uma reação da comunidade internacional. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, sublinhou esta semana a necessidade de evitar novas mortes relacionadas com os protestos.
Segundo o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, Guterres apelou às autoridades iranianas para que respeitem os direitos fundamentais. “Ele também apela às autoridades para que salvaguardem o direito à liberdade de expressão, de associação e de reunião pacífica”, afirmou Dujarric, acrescentando que “todas as pessoas devem poder manifestar-se pacificamente e expressar as suas queixas”.
O apagão da internet, ao limitar drasticamente a comunicação interna e externa, surge assim como mais um elemento de controlo num contexto de contestação social que continua a testar a estabilidade do regime iraniano.













