Criado em 2016, o Protechting afirma-se como motor de inovação aberta, ligando startups e tecnologia aos desafios reais dos seguros e da saúde. O programa já lançou dezenas de pilotos e continua a abrir portas à transformação digital.
Nascido da vontade de abrir as portas à inovação e de reforçar o compromisso com o mercado português, o Protechting transformou-se, em menos de uma década, num programa de referência no ecossistema de startups. Lançado em 2016 pela Fidelidade, Fosun e Luz Saúde, este projecto de inovação aberta soma já mais de mil candidaturas de 55 países e tem vindo a integrar soluções tecnológicas que reinventam produtos e serviços tradicionais nas áreas dos seguros e da saúde. Em entrevista à Executive Digest, José Villa de Freitas, Marketing manager da Fidelidade, explica como o programa evoluiu desde a sua génese.
O Protechting nasceu como uma iniciativa conjunta entre a Fidelidade, Fosun e Luz Saúde. Qual foi a motivação estratégica para criar este programa de inovação aberta?
O Protechting surgiu em 2016, quando a Fosun adquiriu a Fidelidade. À época, um dos objectivos da Fosun era mostrar que existia um compromisso com a sociedade e economia portuguesas. Por isso, desafiou a Fidelidade a criar um programa que demonstrasse este compromisso. Surgiu então a ideia de criar um um Programa de Inovação ao qual chamámos Protechting | Startup Accelarator Program. Hoje o Programa chama-se Protechting | Open Innovation Program.
Este programa alinhou-se, desde a sua génese, com o projecto de inovação e transformação digital da Fidelidade. O nosso Grupo tem um papel relevante na área da saúde, e por isso convidámos a Luz Saúde a fazer parte do programa, criando assim um track de health tech a par do insurance track. Foi este o compromisso: procurar startups e trazer inovação de fora para dentro. É um processo muito positivo.
Com mais de mil candidaturas de 55 países, ao longo de sete edições, como evoluiu?
Começámos por procurar startups em early stage, mas depressa percebemos que, para os objectivos da Fidelidade, da Luz Saúde e da Fosun, precisávamos de startups com outra maturidade, que pudessem entrar rapidamente em piloto e trazer inovação incorporável dentro da empresa. Assim, subimos o nível das startups que trazemos para o programa. Hoje em dia, já recebemos mil candidaturas, o que também mostra esse crescimento de maturidade. As startups não são aquelas que andam à procura apenas de investimento. São startups formadas, mas que continuam com a flexibilidade de se ajustarem às necessidades da Fidelidade, da Fosun e da Luz Saúde.
Na 7.ª edição foram seleccionadas 15 startups, das quais quatro participaram no roadshow na China. Quais os critérios que a Fidelidade utiliza para seleccionar as startups?
Os critérios têm a ver com o alinhamento com os nossos desafios estratégicos, o grau de inovação, a maturidade da startup e a capacidade da equipa, dos founders. Andamos sempre à procura de soluções que possam ser integradas o mais rapidamente possível e com impacto tangível. Por exemplo, nesta última edição, recebemos mais de 230 candidaturas e seleccionámos 15 startups. Destas, quatro foram à China: Granter AI, SleepUp, LoopOS e OWLplaces. Três na área dos seguros – Granter, LoopOS e OWLplaces – e uma na área da saúde, a SleepUp. Aqui, o critério foi também a possibilidade de escalar o negócio para o mercado chinês. A Fosun tem um peso importante nessa decisão, porque tem uma noção clara do que pode interessar à internacionalização.
O Roadshow à China é um dos pontos altos do programa?
O Roadshow à China, que é desenhado e implementado de forma exemplar pela Fosun Foundation, funciona nos dois sentidos: as startups vão lá tentar internacionalizar-se, mas nós também trazemos muitos ensinamentos do ecossistema de empreendedorismo chinês. Este ano fomos a Xangai, onde está a sede da Fosun, e à Greater Bay Area, que inclui Shenzhen, Hong Kong e Macau. É nesta zona que está o grande foco de inovação da China.
Tivemos a oportunidade de visitar a Alibaba, a Tencent – que é dona da WeChat –, a Lenovo, estivemos em Hong Kong, sempre com o objectivo de potenciar o negócio das startups. Algumas regiões querem mesmo que as startups lá estabeleçam negócio. É uma aprendizagem constante.
Como é que as soluções desenvolvidas pelas startups do Protechting estão a transformar os produtos e serviços tradicionais da Fidelidade?
De diferentes formas. Por exemplo, a Visor AI participou no Protechting, foi também a um Roadshow à China e desenvolveu soluções de chatbots de atendimento automatizado. Desde então avançou muito nesta área e hoje continua a colaborar com muito sucesso com a Fidelidade. Outro caso é a Bdeo, uma startup espanhola que colabora connosco nas vistorias remotas – não há necessidade de ir ver os danos ao local, seja carro, seja casa. Isto permite uma grande poupança em deslocações, tem um critério de sustentabilidade relevante, acelera processos e melhora a capacidade de resposta. Dou ainda o exemplo da UpHill, que foi participada pela Luz Saúde. A UpHill é fortíssima em know-how e formação de profissionais de saúde, estando hoje integrada na nossa área de inovação.
Como é que a Fidelidade integra os critérios de sustentabilidade na avaliação das startups?
A sustentabilidade faz parte do ADN do Protechting. Aliás, chegámos a equacionar ter um track exclusivo de sustentabilidade, mas percebemos que não faz sentido porque esta é transversal. Aplica-se aos seguros e à saúde. Na saúde é evidente: tudo o que traga inovação contribui para mais qualidade de vida, logo, mais longevidade. No outro campo, um exemplo é a LoopOS, que trabalha em economia circular. Com eles estamos a recuperar salvados – não só carros, mas também salvados de incêndios, como frigoríficos, máquinas de lavar, que voltam a entrar na economia. É uma aposta concreta na economia circular em que todos ganham.
Este programa é a única via de inovação da Fidelidade?
Não. Temos um verdadeiro tríptico de inovação: o Protechting, que é a inovação aberta; a inovação interna, orgânica, gerida dentro da empresa; e a aposta em venture capital. O Protechting até acaba por ligar tudo isto: desenvolve a inovação interna, porque traz mindset e método; potencia a ligação ao venture capital, porque avalia startups; e faz o matching entre problemas concretos e soluções de mercado. A capacidade dos founders é fundamental. O programa cobre todas as fases – da identificação de problemas à criação de pilotos e até ao investimento.
Que papel tem a Fosun na internacionalização destes projectos?
Por um lado, apoia as startups no acesso a investidores, incubadoras, potencia clientes e ajuda na entrada no mercado chinês. Por outro lado, traz know-how para Portugal. Na China – e noutras geografias como Angola ou Moçambique – é essencial ter um parceiro local. É possível vender para a China, mas para lá estar é mesmo preciso um parceiro local. A Europa é diferente.
O programa já resultou em mais de 50 pilotos. Qual é o processo de implementação destes pilotos na Fidelidade e como medem o sucesso na transição para uma implementação comercial efectiva?
Tudo começa com a identificação de necessidades – pedimos às áreas de negócio que nos informem sobre necessidades a que não conseguem dar resposta sozinhas. Depois, procuramos no mercado soluções que acelerem a inovação.
É um processo em que fazemos o matching da startup com a equipa da Fidelidade ou da Luz Saúde que vai trabalhar com ela. É colaborativo, iterativo. Uns pilotos funcionam muito bem, outros percebemos a meio que afinal não faz sentido.
Às vezes é a startup que não está madura, outras vezes somos nós. Mas há muitos casos que resultam – neste momento estamos com nove pilotos em curso, além de muitos que já foram implementados. É um processo de aprendizagem mútua. Quanto mais fazemos, mais ágeis somos, e mais capazes de aproveitar a inovação.
O programa abrange Insurtech, Healthtech e Tech-Enablers. Que tendências tecnológicas emergentes considera mais promissoras para revolucionar o sector segurador?
A inteligência artificial é inquestionável. Está nos seguros, no pricing, nos processos, no atendimento ao cliente – como vimos com a Visor AI – na gestão de risco e na prevenção de fraude. Hoje praticamente nenhuma startup se candidata sem ter inteligência artificial. Depois temos Internet of Things e wearables – que são muito relevantes na saúde. Por exemplo, o programa Multicare Vitality usa wearables para medir performance e incentivar a gamification, que aumenta a utilização.
O Blockchain também tem aplicabilidade nos contratos, sobretudo na saúde, mas também nos seguros. A inovação é também uma call to the market: aprendemos muito com as candidaturas e com as ideias que chegam, sobretudo na saúde. Um exemplo é a SleepUp, uma startup brasileira que trabalha o problema da apneia do sono com um anel inteligente. Não era uma prioridade pré-definida, mas percebemos que todos ganhamos: o paciente, a Luz Saúde, a Multicare. E o mercado chinês achou o projecto tão interessante que a SleepUp ganhou uma competição em Macau. Este wearable até faz mais sentido ser produzido na China. É um caso de sucesso claro.
Como é que o envolvimento no Protechting tem influenciado a cultura de inovação interna da Fidelidade? Há colaboração entre as equipas internas e as startups?
Sem dúvida. Ajuda as empresas a aprender a experimentar, a iterar. Trouxe uma metodologia de agilidade que hoje é fundamental. Esta abertura à inovação externa incentiva a inovação interna. Temos um programa interno que replica este método: desafios, propostas, matching de ideias, prototipagem. É literalmente uma aprendizagem de inovação. Fizemos já 50 pilotos – nem todos ficaram, mas todos ensinaram. Alguns melhoraram a satisfação do cliente, outros a eficiência operacional. E claro, ajudam a posicionar a Fidelidade como uma empresa inovadora – algo essencial para uma seguradora com mais de 200 anos. A liderança só se mantém com inovação. Desde 1808, a Fidelidade tem sabido ajustar o seu processo de inovação. Hoje, Portugal tem um ecossistema robusto: muitas startups, nómadas digitais, aceleradores. A Fidelidade destaca-se neste ecossistema – temos parcerias com a Fábrica de Unicórnios e a FinTech House, trabalhámos com a Beta-i e a Fábrica de Startups. Este reconhecimento facilita o acesso a candidaturas: as startups sentem-se motivadas a concorrer a um programa que tem provas dadas.
Há retorno também para clientes, mediadores, parceiros?
Totalmente. A inovação não é só para dentro. É para o mercado, para os clientes, para os parceiros – corretores, mediadores – que também beneficiam com as novas soluções. É um ciclo virtuoso.
Olhando para o futuro, quais os planos de evolução do Protechting? Há novas áreas tecnológicas ou geografias que pretendem explorar nas próximas edições do programa?
Teremos novidades em Setembro. Vamos manter a expansão geográfica. Não devemos abrir muitas mais áreas porque o sucesso está na nossa capacidade de acompanhar bem as startups. Somos muito fortes na área seguradora, a Luz Saúde é muito forte na saúde. Temos a Multicare, que faz a ponte entre saúde e seguros. A sustentabilidade continua a ser transversal, mas deixamos sempre uma track aberta a tech enablers para surgirem soluções fora da caixa. O importante é manter o espírito de inovação viva – e isso é uma vontade clara da Fosun, da Luz Saúde e do Grupo Fidelidade. E quem ganha, no fim, são todos: colaboradores, clientes, parceiros e a sociedade.
Este artigo faz parte da edição de Julho (n.º 232) da Executive Digest.














