A perceção na Europa de que os Estados Unidos já não garantem proteção sólida aos seus aliados está a ganhar força, num momento em que líderes mundiais se reúnem na Alemanha para a Conferência de Segurança de Munique. Novos dados de uma sondagem internacional indicam que a confiança na capacidade americana de dissuadir ameaças externas caiu de forma significativa entre aliados-chave da NATO.
De acordo com o jornal ‘POLITICO’, em todos os países analisados mais inquiridos classificaram os Estados Unidos como um aliado pouco fiável do que como um parceiro confiável. Metade dos adultos na Alemanha e 57% no Canadá consideram Washington pouco confiável. Em França, a percentagem dos que veem os EUA como pouco fiáveis é mais do dobro dos que os consideram um aliado seguro.
A perceção de que o poder militar americano já não constitui uma garantia de proteção é particularmente evidente. Em França e na Alemanha afirmam não acreditar que potenciais inimigos seriam dissuadidos de atacar devido à relação com os Estados Unidos. No Reino Unido, registou-se uma queda de 10% num ano na proporção de adultos que ainda veem os EUA como fator de dissuasão eficaz.
A sondagem — conduzida pela empresa independente ‘Public First’ — mostra que, no Reino Unido, França e Alemanha, as perceções negativas superam as positivas em áreas centrais como a defesa da democracia, a partilha de valores e a fiabilidade enquanto aliado. Na Alemanha, apenas 18% consideram que Washington protege a democracia, enquanto 50% afirmam que os EUA não partilham os seus valores. Em França, só 17% concordam que os Estados Unidos partilham os valores franceses, face a 49% que discordam.
O abalo na confiança transatlântica intensificou-se após uma série de disputas políticas e comerciais, incluindo pressões de Washington sobre aliados europeus e declarações consideradas hostis por vários líderes da União Europeia. O vice-presidente americano, JD Vance, foi mesmo recebido com vaias durante a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em Milão, num episódio interpretado como reflexo do mal-estar crescente.
Seb Wride, responsável pelas pesquisas da ‘Public First’, citado pelo ‘POLITICO’, sublinha que anteriormente os europeus viam os Estados Unidos como um aliado imprevisível mas fundamental para afastar ameaças externas. Agora, essa perceção mudou substancialmente: muitos já não assumem como garantida a dissuasão oferecida pela aliança da NATO e questionam se essa segurança pode ser mantida sem o envolvimento americano.
Apesar do cenário de desconfiança, há sinais de esperança quanto ao futuro. Na Alemanha, França e Reino Unido, consideram que a atual liderança americana enfraqueceu as relações bilaterais, mas acreditam que estas poderão recuperar após uma mudança política em Washington.
Ainda assim, a principal conclusão da sondagem é clara: cresce na Europa a sensação de que os Estados Unidos deixaram de ser o garante automático da segurança do continente, colocando pressão acrescida sobre os líderes europeus para repensarem a arquitetura de defesa e a autonomia estratégica do bloco.







