A estratégia de Donald Trump para a Gronelândia está a ganhar uma nova dimensão diplomática e poderá assumir a forma de um arrendamento de longo prazo, inspirado no modelo de Porto Rico, numa tentativa de contornar a oposição europeia à anexação do território autónomo dinamarquês. O tema deverá marcar o Fórum Económico Mundial, em Davos, onde o presidente americano pretende apresentar opções concretas aos aliados europeus.
De acordo com o ‘Kyiv Post’, Trump instruiu a sua equipa a preparar vários cenários sobre a Gronelândia para discussão com líderes europeus à margem da cimeira suíça. A iniciativa surge num momento de forte tensão transatlântica, com a União Europeia a ponderar tarifas retaliatórias, sanções e até a ativação do seu instrumento anticoerção, face ao que considera uma tentativa coerciva dos Estados Unidos para assumir o controlo da ilha.
Apesar de ter rejeitado publicamente a hipótese de um arrendamento, fontes próximas do processo indicam que Trump está mais flexível em privado. Uma das soluções em cima da mesa passa por um arrendamento de 99 anos, que permitiria aos Estados Unidos manter um controlo de facto sobre a Gronelândia, atenuando ao mesmo tempo a contestação política na Europa.
Estatuto semelhante a Porto Rico em análise
Outra opção considerada prevê conceder aos habitantes da Gronelândia um estatuto semelhante ao de Porto Rico. Nesse cenário, os cerca de 56 mil residentes da ilha passariam a ter cidadania americana, com acesso pleno ao mercado e a privilégios comerciais bilaterais. Ficariam igualmente isentos do imposto federal sobre o rendimento, exceto no caso de se mudarem para o território continental dos EUA, uma proposta que assessores descrevem como um potencial pacote de prosperidade económica.
Segundo o ‘Kyiv Post’, diplomatas ocidentais encaram esta abordagem como uma tentativa de “adoçar” a proposta, numa altura em que Trump intensificou a pressão sobre a Dinamarca. Nas últimas semanas, o presidente americano ameaçou com tarifas, insinuou o uso da força militar e passou a ligar explicitamente sanções comerciais à disposição de Copenhaga em negociar a soberania da ilha.
No passado sábado, Trump anunciou a imposição de uma tarifa de 10% sobre a Dinamarca e outros países europeus aliados, com início previsto para o próximo mês. Numa mensagem publicada na rede ‘Truth Social’, afirmou que os Estados Unidos têm subsidiado a Europa durante décadas e que chegou o momento de a Dinamarca “retribuir”, acrescentando que as tarifas se manterão “até que se chegue a um acordo para a compra completa e total da Gronelândia”.
Europa reage com ameaça de retaliação económica
A resposta europeia foi imediata e marcada por crescente dureza. Os principais diplomatas da UE reuniram-se de emergência para discutir a reativação de um plano de tarifas sobre 93 mil milhões de euros em produtos americanos, que tinha sido suspenso após o acordo comercial do verão passado. O presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu mesmo o recurso ao instrumento anticoerção da UE, conhecido em Bruxelas como a “grande bazuca”, caso Washington avance com as suas ameaças.
Após as reuniões, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, anunciou a convocação de uma cimeira europeia de emergência, sublinhando que a União está preparada para se defender contra qualquer forma de coerção económica. Numa declaração conjunta, vários países europeus alertaram que as ameaças de tarifas colocam em risco as relações transatlânticas e a própria soberania europeia.
Ainda assim, persistem divisões internas na UE. As tarifas de retaliação permanecem suspensas até 6 de fevereiro e vários responsáveis continuam a privilegiar a via do diálogo, reconhecendo que ninguém quer uma guerra comercial por causa da Gronelândia, mas também que nenhum Estado pode aceitar ser pressionado a vender território.
Impacto na NATO e tensão política nos EUA
A iniciativa de Trump provocou também fortes abalos na NATO. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, rejeitou a ideia de que os Estados Unidos tenham de escolher entre a aliança atlântica e a Gronelândia, mas deixou claro que Washington não pretende “terceirizar” a sua segurança hemisférica.
No plano interno, a estratégia gerou críticas de democratas e republicanos. Várias figuras políticas alertaram para os riscos de uma escalada militar ou comercial e para o impacto das tarifas sobre a economia. Alguns congressistas chegaram a admitir que uma ação militar na Gronelândia equivaleria, na prática, a um conflito com a própria NATO.
Davos como ponto de viragem
Com este enquadramento, Davos surge como o próximo palco decisivo. Trump deverá apresentar diretamente aos líderes europeus as suas propostas, incluindo o arrendamento de longo prazo e o modelo de integração inspirado em Porto Rico.
O que começou como uma ambição aparentemente improvável transformou-se num confronto geopolítico de grande escala, colocando em causa a coesão da aliança ocidental e elevando a Gronelândia a um teste crítico às relações entre os Estados Unidos e a Europa.



















