Durante quase três anos, a tarifa indexada foi vendida em Portugal como a escolha dos consumidores informados. Quem acompanhava o mercado grossista, quem percebia de energia, quem não tinha medo de olhar para a fatura: essa pessoa estava no indexado, e quem estava numa tarifa fixa pagava um prémio pela preguiça. Agosto de 2026 desmontou esse argumento de forma que dificilmente admite leitura ambígua.
Nas simulações de Agosto, uma família típica com um consumo de 400 kWh e uma potência contratada de 6,9 kVA pagaria 98,78 euros na tarifa indexada. A oferta mais cara do mercado livre, entre as tarifas de preço fixo, custaria 97,21 euros. O indexado ficou acima da pior tarifa fixa disponível, e ficou 25,45 euros acima da melhor, que se ficou pelos 73,33 euros. Num único mês, o produto que existia para poupar tornou-se o mais caro do mercado.
Convém dizer o que isto significa e o que não significa. Não significa que a tarifa indexada seja um mau produto, nem que quem a escolheu tenha decidido mal. Significa que o indexado nunca foi uma tarifa: é a ausência de tarifa. Quem adere está a comprar eletricidade ao preço do mercado grossista, com uma margem por cima, e o que recebe no fim do mês é o resultado de decisões que se tomam em Espanha, na Alemanha e nos mercados de gás, não em casa. Nos anos em que o mercado grossista esteve barato, isso foi uma vantagem. Neste verão, com o calor a manter o consumo em máximos e os preços grossistas de novo sob pressão, é o contrário.
O erro de leitura está na palavra risco. Um consumidor doméstico não tem estrutura para gerir risco de mercado. Não pode cobrir posições, não pode adiar consumo de forma significativa, e não tem reserva orçamental para absorver um mês em que a fatura sobe 30%. Quando uma família fica no indexado, não está a gerir risco: está a aceitar um resultado que não controla. A diferença entre estas duas coisas é a mesma que separa investir de apostar, e a linguagem do setor tem sido pouco rigorosa a distingui-las. A comparação entre tarifa indexada e tarifa fixa devia começar por aí e raramente começa.
Há, ainda assim, uma leitura positiva neste episódio, e é a que interessa a quem tem uma fatura para pagar. A dispersão de preços entre comercializadoras está maior do que nunca. Nos consumos mais elevados, a diferença entre a oferta mais cara e a mais barata do mercado aproxima-se dos 700 euros por ano. Uma família típica pode poupar cerca de 287 euros anuais sem alterar um único hábito de consumo, apenas por comparar propostas de eletricidade e mudar de contrato. Num mercado em que os preços convergem, comparar rende pouco. Num mercado disperso como o atual, comparar é a decisão financeira com melhor retorno por minuto investido que uma casa portuguesa tem à mão.
O que agosto ensina não é que se deva fugir do indexado por princípio. É que a escolha entre preço fixo e preço de mercado tem de ser feita com base na capacidade de absorver oscilação, e não com base na sensação de estar do lado certo. Para a maioria das famílias portuguesas, essa capacidade é limitada e a resposta correta é a mais aborrecida: saber quanto se vai pagar, e saber isso com antecedência suficiente para o orçamento do mês não depender do tempo que fez.














