Do retalho ao imobiliário. O que podem as empresas esperar de 2021?

Fechamos a porta a um ano duro, marcado por uma pandemia inesperada, tão surpreendente quanto devastadora em termos económicos e sociais. As empresas enfrentam desde março dos piores períodos das suas histórias e, de olhos postos no novo ano, tentam já ir para além da resiliência e chegar à consolidação dos seus planos de recuperação.

A Executive Digest pediu a antevisão possível, atendendo a que uma das principais lições de 2020 é a volatilidade de tudo aquilo que damos por garantido, aos líderes das principais organizações de empresas e setores chave para a economia nacional.

Apesar da consciência e lucidez sobre as dificuldades que 2021 ainda trará, e partilhando de igual expectativa sobre os resultados da vacinação contra a Covid-19 já em curso, ‘os senhores que se seguem’, têm também em comum uma visão de construção de soluções e respostas que possam conduzir à tão desejada recuperação económica de cada um dos setores que representam, a par da progressão do país, em todas as suas dimensões.

 

António Saraiva, presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal: “No centro da recuperação económica têm de estar as empresas”

“O próximo ano vai continuar a ser de grandes desafios para o conjunto da sociedade, mesmo depois de iniciado o processo de vacinação contra a covid-19, que assinalará o começo do fim da crise pandémica. Para as empresas, o grande desafio é garantir que, quando começarmos finalmente a vencer a crise pandémica, terão capacidade para cumprir o seu papel fundamental na recuperação da economia. Mais do que a resiliência que têm demonstrado, é necessário que as empresas portuguesas consigam mostrar solidez e capacidade para impulsionarem o crescimento económico e para concretizarem o processo de recuperação.

Não nos podemos esquecer de que todos os grandes desafios que as empresas enfrentavam antes desta crise se mantêm, que tenderão a reaparecer e que, em diversos casos, se manifestarão de uma forma mais gravosa.

O endividamento das empresas portuguesas, decorrente da superação da profunda crise anterior, era já um forte constrangimento a um relançamento do investimento, mas o seu agravamento, em resultado de um quadro de apoios, na atual crise, em que se insistiu em privilegiar o crédito, deixará as empresas numa situação ainda mais fragilizada. Por isso, defendemos a necessidade de medidas que favoreçam o reforço de capitais das empresas.

O desafio da inovação e da transformação digital e tecnológica impunha já a necessidade de requalificação, antes da pandemia, notando-se a escassez de recursos em diversas posições, em muitos sectores, mas este período de exceção que atravessamos veio acelerar um processo que estava já a desenrolar-se, alterando formas de produção e de trabalho. Temos de atalhar caminho e investir, para nos tornarmos competitivos.

Depois, vai ser necessário que não se perca o foco nos imperativos do desenvolvimento sustentável, designadamente os da transição energética e da economia circular. São necessários novos equilíbrios, para conciliarmos sustentabilidade ambiental e competitividade empresarial.

O desafio dos mercados globais também se mantém e ter-se-á, mesmo, agravado e alterado. Por um lado, a pandemia alertou-nos para excessivas dependências de clientes ou fornecedores criadas pela globalização, o que poderá levar a mudanças e a gerar oportunidades; por outro lado, sabemos que a recuperação económica precisa de mercados externos abertos e dinâmicos, onde as empresas possam provar o seu dinamismo e que as empresas necessitam e condições para poderem aproveitar as oportunidades com que se deparam.

Para fazer face a todos estes desafios, é necessário que os recursos de que vamos dispor sejam utilizados para robustecer as empresas e a economia, com instrumentos dirigidos à capitalização, com estímulos a processos de concentração, com uma aposta na formação para qualificar e requalificar o capital humano. É necessário, também, que tenhamos a perceção de que no centro da recuperação económica têm de estar as empresas”.

Gonçalo Lobo Xavier, diretor geral da APED – Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição: “2021 será seguramente um ano em que as empresas estarão a corrigir desequilíbrios”

“Perante um ano tão complexo e inesperado como foi e está a ser o de 2020, fazer um ‘exercício de perspetiva’ sobre 2021, mais do que correr o risco de não se acertar em nenhum item, definir o grau de incerteza que vamos enfrentar será o grande desafio.

O combate à Covid-19 provocou profundos desequilíbrios nas estruturas dos países e que vão perdurar por muitos anos. Assim, 2021 será seguramente um ano em que as empresas estarão a corrigir estes desequilíbrios, que se sentirão em áreas tão diversas como as relações laborais, a utilização da tecnologia, as alterações comportamentais e os problemas financeiros decorrentes da luta contra a propagação do vírus.

As empresas, sejam de que área estejamos a falar, precisam de uma sociedade equilibrada e saudável, seja para trabalhar e desenvolver projetos, seja para consumir. E tudo o que não temos agora são cidadãos plenos de confiança e com perspetivas de investimento. Devolver a confiança aos cidadãos, em primeiro lugar, à sua saúde e segurança, é primordial e será decisivo para todo o ecossistema.

Perante estes factos reconhecidos por todos, o que as empresas podem esperar é, nos primeiros meses de 2021, incerteza. E esta só poderá ser mitigada com paciência e com os primeiros resultados – que se esperam animadores – da vacinação da população. Até se atingir um patamar satisfatório de estabilização da saúde pública, dificilmente as empresas poderão planear convenientemente as suas estratégias e, mesmo, aplicá-las.

Não quero com isto provocar desânimo. Pelo contrário. As empresas, estou certo – e em particular no retalho – estão motivadas para lutar contra as adversidades e têm a resiliência para esperar por melhores dias. Mas o que esperam também é que não se lhes complique mais a vida. Diria que as empresas têm 3 níveis de expetativas para 2021.

Por um lado, maior capacidade dos decisores políticos para tomarem decisões corajosas no sentido de equilibrarem mais rapidamente e com melhor comunicação a economia e a saúde pública.

Por outro lado, coragem para os grandes blocos económicos – com a União Europeia à cabeça – devolverem liquidez às famílias e às empresas, sem pôr em causa a competitividade e a sustentabilidade dos mercados financeiros.

Finalmente, as empresas esperam que o mercado laboral se ajuste e adapte às novas formas de trabalho e às reais necessidades de formação e skills para fazer face a uma realidade diferente. Este, pasme-se, poderá ser o maior problema pois a juntar ao desconforto da incerteza, está seguramente alguma aversão à mudança, mesmo sabendo que ela é constante…

Há aqui claramente uma gestão de expectativas, mas, ao mesmo tempo, um assumir de responsabilidades por parte das empresas que querem estar claramente do lado das soluções, procurando recursos criativos, incentivando a formação constante dos colaboradores e procurando dar resposta aos anseios das famílias que já perceberam que “nada será como dantes”.

Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal: “O início do plano de vacinação irá trazer alguma confiança, mas a pandemia está longe de terminar”

“Neste momento, as empresas enfrentam uma enorme dificuldade de tesouraria e estão a tentar sobreviver. Não podemos esquecer que a pandemia dura há mais de 10 meses. As empresas estão a operar estão com a atividade reduzida.

O início do plano de vacinação irá trazer alguma confiança, mas a pandemia está longe de terminar, pelo que esperamos que em 2021 com a vacinação e com o restabelecimento dessa confiança junto dos nossos mercados possamos dar início à retoma.

É também urgente que as medidas de capitalização, financiamento e a fundo perdido anunciadas sejam rapidamente legisladas e colocadas em prática.

Os empresários do Turismo resistem bem às adversidades e têm uma enorme capacidade de gestão e de resiliência, mas é difícil encontrar empresas que possam subsistir meses consecutivos sem negócio. 2021 continuará a ser, pois, de grande exigência para as empresas”.

 Luís Lima, presidente da APEMIP – Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal: “Aumentar a oferta acessível, ao invés de travar a procura é, e será sempre a única solução”

“A transição para um novo ano é sempre sinónimo antevisões para o que se aproxima. Creio que, depois da experiência que tivemos em 2020, se comprovou que nunca a expressão “num instante tudo muda” fez tanto sentido, deitando por terra todos os cenários e expetativas que se haviam traçado para aquele ano, em que se previa um abrandamento do crescimento, mas nunca uma quebra como a que se verificou.

O ano ainda não terminou, o como tal ainda não são conhecidos os números oficiais das transações, mas os dados dos primeiros nove meses confirmam uma quebra na ordem dos 7,7% na venda de alojamentos familiares.

Apesar da quebra, o imobiliário conseguiu revelar resiliência. Ainda assim, é expectável que os números do quarto trimestre não sejam animadores, pois estarão espelhadas as incertezas decorrentes da segunda vaga da pandemia, que terão impacto no número de negócios efetuados.

Deste de setembro que o setor nos tem dado nota de que se começa a sentir um arrefecimento do mercado, motivado por um novo ciclo de incerteza que afetou a confiança de potenciais compradores. Infelizmente, é expectável que este arrefecimento permaneça, futuro da instabilidade económica e laboral que se refletirá também num decréscimo da procura.

Como tal, é muito difícil antecipar expetativas: tudo dependerá da celeridade e da evolução da situação pandémica e da vacinação, bem como do impacto que o fim das moratórias de crédito poderá ter no mercado imobiliário e do desafio que temos pela frente, decorrente daquelas que são as consequências da pandemia no tecido empresarial nacional e no mercado laboral, bem como nos segmentos comercial e de escritórios, que decerto assistirão a medidas que decorrem dos novos hábitos ora adquiridos.

Manter-se-á no entanto o desafio da resolução dos problemas habitacionais para a classe média e média baixa, que continuam sem conseguir encontrar no mercado oferta à medida das suas necessidades e possibilidades.

Felizmente, nos últimos anos, o Estado, quer por via do poder central quer através do poder local, passou a assumir este assunto como um desígnio que não pode ser descurado. Foi aprovada uma Lei de Bases da Habitação que fazia falta, tal como existe para outras áreas centrais como a Educação ou a Saúde, foram implementados instrumentos como o programa 1º Direito ou o programa de Arrendamento Acessível, e marcou-se assim uma nova era em termos de política pública habitacional e na articulação entre administração central e local, com as próprias autarquias a terem um papel central na promoção da habitação acessível aos seus munícipes.

Autarquias como a de Lisboa, Porto ou Matosinhos, desenvolveram projetos que visam o aumento da oferta habitacional dirigida à classe média, e souberam envolver o mercado para que também este fizesse parte da solução.

Aumentar a oferta acessível, ao invés de travar a procura é, e será sempre a única solução disponível para inverter um eventual cenário de crise habitacional, e terá particular relevância neste momento em que a instabilidade laboral e o expectável decréscimo do rendimento dos cidadãos realçarão ainda mais o desequilíbrio entre a oferta e procura existentes.

Nesta conjuntura, será fundamental continuar a desenvolver uma estratégia concertada entre o sector público e o privado, que permita pelo menos atenuar os custos de contexto e a fiscalidade, e trabalhar em parceria para que todos possam integrar a resolução para este problema”.

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