Como explicar o que é a poupança às crianças?

Rui Bairrada, CEO do Doutor Finanças, acredita que o tema da poupança deve ser introduzido no dia-a-dia das crianças o mais cedo possível. Primeiro, basta falar sobre o assunto e explicar que o dinheiro não cresce nas árvores. Mais tarde, quando entram para a escola, poderá ser boa ideia incentivá-los a fazer alguns pagamentos e a receber o troco.

Sugestões como estas são apresentadas no livro “Doutor Finanças e a Bata Mágica”, cujo lançamento serviu de ponto de partida para uma conversa sobre a poupança e os mais novos. O livro é um projecto totalmente português, desde a história à ilustração e tem como objectivo promover a literacia financeira junto do público mais jovem, nomeadamente entre os seis e os 10 anos.

Como explicar o que é a poupança às crianças?

No Doutor Finanças defendemos que a literacia financeira deve ser introduzida na vida das crianças o mais cedo possível. Foi essa ideia que nos levou a criar o livro “Doutor Finanças e a Bata Mágica”, no qual nos apoiamos no método internacional “Spend, Save, Share”, ainda pouco conhecido em Portugal.

A base desta metodologia está na divisão do dinheiro em três mealheiros que representam três diferentes fins a dar ao dinheiro. Explorando em português as ideias de “Gastar, Poupar e Ajudar”, vamos introduzindo as noções de controlo e gestão do dinheiro. “Gastar” corresponde ao dinheiro a alocar para as despesas que já existem e que pretendemos realizar no imediato. “Poupar” leva-nos para a noção de que temos de deixar algum montante de parte, até para poder fazer algum investimento maior no futuro. Com o mealheiro do “Ajudar”, estamos também a introduzir uma noção de solidariedade e de partilha com os outros, aumentando a consciência social das crianças.

Este livro, além de uma história de aventuras de dois irmãos, tem também um conjunto de exercícios de aplicação prática que ajudam as crianças a absorverem os conceitos base para uma vida financeira mais saudável.

O método “Gastar, Poupar e Ajudar” pode ser aplicado em diversas proporções que vão evoluindo com as necessidades específicas de cada faixa etária, mesmo na idade adulta. Nas crianças podemos aplicá-lo prevendo que 50% das suas receitas sejam usadas para gastar nas despesas essenciais, 40% para poupar e aplicar no futuro em algo que queiram ou precisem e 10% para ajudar alguém ou uma causa em que acreditem.

É uma regra simples e fácil de seguir e pode ser o começo da educação financeira das crianças. Desta forma, os mais pequenos não vão ter a ideia de gastar um euro inteiro, conseguindo assim ter a percepção de que esse dinheiro pode ser rentabilizado em várias frentes. Além disso, vão também perceber que existem várias fontes de despesas e que uma boa maneira de as gerir é ter mais fontes de receitas.

Em termos práticos, de que forma as crianças podem começar a poupar? E com que idade devem começar?

A partir dos 3/4 anos, que é quando elas começam a fazer pedidos. É também a altura em que começam a fazer muitas perguntas. Logo aí, é fundamental explicar-lhes que o dinheiro não nasce nas árvores, nem cai do céu e que este não é um recurso ilimitado. Aqui, podemos estar a falar de conceitos como o “valor” do dinheiro e também uma noção de que existe uma relação entre o dinheiro e a capacidade de adquirir coisas, por exemplo brinquedos. Estamos a falar de conceitos como despesas e rendimentos.

Mais tarde, a partir dos 6 anos, altura em que as crianças entram para a escola, poderão ser introduzidos novos conhecimentos, uma vez que é a partir desta idade que as crianças começam a ficar familiarizadas com números e contas e que já podem começar a aplicar esses ensinamentos na gestão do seu próprio dinheiro. Uma vez que começam a ganhar mais noção das coisas, deverá ser nesta altura que as devemos introduzir aos princípios da poupança. Temos de lhes dar a noção de que se deve gerir o dinheiro. Para isso, temos de estar familiarizados com as várias alternativas de pagamento e devemos incentivar as crianças a fazer pequenas compras e a receber o respectivo troco, até para as podermos ajudar a confirmar se está tudo bem com as contas. Também temos de começar a introduzir alguns princípios de controlo do dinheiro.

Por volta dos 10/12 anos, e com a entrada dos mais novos no 2.º ciclo de ensino, é normal que surja a necessidade de existir uma semanada/mesada, para que possam assim fazer face às pequenas necessidades diárias como, por exemplo, os lanches, os almoços ou até mesmo as famosas folhas de teste. Embora não seja aconselhável dar valores muito altos às crianças para evitar compras desnecessárias, é fundamental que, por pouco que seja o dinheiro, saibam geri-lo da melhor maneira e que consigam, já nesta idade, perceber as prioridades e no que devem, ou não, gastá-lo.

É aqui que devemos começar a introduzir algumas noções relacionadas com o orçamento. Compreender o nível de despesas e as suas prioridades e depois orçamentar para podermos ter a noção de como teremos de gerir o dinheiro que vamos recebendo. Fazer um orçamento implica depois também o seu acompanhamento e controlo. No futuro, podemos até vir a aumentar o valor da mesada/semana como forma de ir fazendo face às necessidades crescentes, mas também como forma de recompensa da criança por uma boa gestão do dinheiro.

Finalmente, na adolescência, já quando os filhos vão para o liceu, os gastos começam a ser superiores, uma vez que a vida social começa a ter um certo peso nas suas vidas e nas suas economias. Para os adolescentes que fizerem uma boa introdução à literacia financeira no início da sua vida, vai ser mais fácil perceber como gerir o seu dinheiro, no que gastar e como poupar e ajudar. Para os adolescentes que não têm estes conhecimentos, nunca é tarde. Nesta idade aconselhamos mais a mesada, para que possa estimular a gestão do dinheiro ao longo do mês.

Na definição do valor da mesada devem ser pensados que encargos passarão a ficar a cargo dessa mesada e passá-los de forma clara aos mais novos. Deve também depois existir margem para incentivar a poupança e a ajuda. Neste momento deve pôr-se em prática o orçamento, sendo uma boa oportunidade para reforçar a diferença entre desejo e necessidade, entre essencial e supérfluo. A mesada deve ser sempre gerida de acordo com estes conceitos, dando a ideia de que há compromissos mensais que têm de se sobrepor aos desejos imediatos que possam ter e também estimulando a consciência de poupança para o futuro.

O Natal é uma boa altura para falar sobre poupança?

Sim, o Natal é uma excelente altura para falar sobre a poupança e a importância de gerir bem o dinheiro, uma vez que esta é uma altura de grande consumo, em que devemos medir bem os gastos de maneira a não comprometermos o nosso orçamento familiar. Por outro lado, muitas famílias portuguesas poupam dinheiro ao longo do ano para conseguirem ter o dinheiro necessário para fazer frente às despesas extra que surgem nesta altura do ano, sem precisar de recorrer nem a créditos nem mesmo ao seu ordenado, sendo este um óptimo exemplo para os mais pequenos. No fundo, esta é também uma excelente altura para pormos em prática o método “Gastar, Poupar, Ajudar”.

No caso das crianças que têm as suas próprias poupanças e querem comprar uns presentes para quem gostam ou até mesmo para si próprios, é importante que os adultos reforcem que devem gastar apenas dentro das suas possibilidades – no sentido que não devem gastar as suas poupanças todas, isto porque se precisarem mais à frente não terá. Para além de poupar, e segundo o método, é importante, e principalmente nesta altura do ano, mostrar a importância que o “Ajudar” tem. Incentivar as crianças a colocar uma pequena parte do seu dinheiro de lado para contribuírem para alguma causa que acreditem ou para ajudarem alguém directamente.

Por outro lado, no Natal pode existir um outro momento em que os adultos podem aproveitar para falar de poupança. Esse momento é quando as crianças recebem dinheiro como presente. Uma vez mais, é importante ensiná-las a gerir esse dinheiro. Ensinar que parte dele deve ser para gastar nas suas despesas básicas do dia-a-dia, outra parte para poupar para algo que gostassem de comprar mais à frente e que outra parte deve ser destinada para ajudar. Por exemplo, se juntarem parte do dinheiro deste Natal podem ajudar alguém no próximo Natal.

Para colocarmos em prática alguns dos ensinamentos podemos ainda levar os mais pequenos às compras neste Natal, mostrar-lhes como fazemos as nossas opções baseadas no nosso orçamento e ainda deixar que façam alguns pagamentos sobre nossa supervisão. As crianças nesta altura podem ainda aproveitar para fazer as suas pequenas compras com a ajuda e os conselhos dos graúdos.

De que forma começar a poupar logo desde criança pode afectar/influenciar o futuro enquanto adultos?

As crianças são o futuro e serão a próxima geração a lidar com a economia, o emprego, os créditos e as dívidas. É muito importante que percebam desde cedo a importância de ter um orçamento e de saber poupar. Explicar-lhes que as decisões que tomarem hoje irão reflectir-se na sua situação financeira do amanhã.

Se tivesse de dar três dicas de poupança nas compras natalícias para os adultos, quais seriam?

São muitas as dicas que podemos dar para que os portugueses façam as suas compras sem comprometer o seu orçamento familiar, no entanto consideramos importante: planear as compras, aproveitar as promoções e comparar preços.

Ao planearmos as compras com antecedência e o respectivo orçamento que temos para elas, estamos a ajustar os presentes às nossas capacidades financeiras. Além de termos mais poder de escolha, é provável que façamos escolhas mais ponderadas e até encontremos uma solução mais barata do que a que inicialmente tínhamos pensado.

Se, por outro lado, aproveitarmos as promoções, principalmente o dia da Black Friday ou da Cyber Monday, poderemos poupar muito, mas muito dinheiro. A maioria das famílias portuguesas continua ainda a deixar estas compras para Dezembro, mas desafiamo-las a que para o ano antecipem essas compras para Novembro e vejam quanto podem poupar.

Por último, mas não menos importante, é comparar preços. Esta questão, mais uma vez, necessita de algum planeamento, precisamos de algum tempo para procurar a opção mais barata de um mesmo produto.

Para os mais pequenos, mas também para os graúdos, as dicas vão no sentido de planear com antecedência, fazer os seus próprios presentes de Natal e, no caso de terem irmãos, fazer compras em conjunto. Esta é uma boa alternativa para economizar e, ao mesmo tempo, oferecer um presente que, se fosse apenas uma só pessoa a pagar, seria inviável.

Para concluir, e porque não poderíamos deixar de referir, os riscos do crédito ligado ao consumo são mais elevados na época natalícia. Por isso, é preciso acautelar este consumo, já que é uma época onde tradicionalmente se gasta mais. Daí ser importante definir um orçamento para as férias de Natal e utilizar as poupanças para comprar as prendas a pronto, em vez de recorrer ao cartão de crédito ou a um crédito pessoal, uma vez que a dívida destas compras vai ter de ser paga nos próximos meses.

Texto de Filipa Almeida

Ler Mais
pub

Comentários
Loading...