Durante anos, o debate sobre saúde mental no trabalho foi dominado por uma palavra: burnout. O trabalhador exausto, sobrecarregado, sempre disponível, incapaz de desligar. Mas há outra realidade a ganhar espaço nos locais de trabalho e que nasce precisamente do extremo oposto: o ‘bore-out’, uma síndrome associada ao tédio crónico, à falta de tarefas relevantes e à sensação persistente de inutilidade profissional.
O ‘HuffPost’ escreve que, apesar de menos conhecido do que o burnout, o ‘bore-out’ pode ter consequências igualmente graves. O Observatório de Riscos Psicossociais da UGT descreve os dois fenómenos como “duas faces da mesma moeda”, porque ambos podem conduzir ao desinteresse pelo trabalho e, nos casos mais graves, à depressão.
A diferença está na origem do problema. No burnout, o trabalhador é esmagado pelo excesso de trabalho, pela pressão e pela incapacidade de recuperar. No ‘bore-out’, acontece o contrário: há falta crónica de tarefas, funções demasiado pobres para as competências da pessoa, ausência de desafios, rotinas repetitivas ou uma inatividade forçada que se prolonga no tempo.
A especialista espanhola em Direito do Trabalho e Mercado de Trabalho, Rosa Dichas, explica que não se trata apenas de “estar aborrecido por um dia”. O problema surge quando as tarefas são insuficientes ou irrelevantes, quando o trabalhador deixa de usar as suas capacidades, quando se instala um sentimento de inutilidade profissional e quando a desmotivação começa a transformar-se em deterioração psicológica.
O tema tem também uma dimensão laboral. Em Espanha, o Estatuto dos Trabalhadores reconhece o direito a uma ocupação efetiva, o que significa que uma empresa não pode manter um funcionário numa situação de inatividade forçada. Nos casos mais graves, quando essa obrigação é reiteradamente ignorada, o trabalhador pode mesmo pedir a rescisão do contrato com direito a indemnização por despedimento injusto, desde que estejam reunidos os requisitos legais.
Mas antes da dimensão jurídica há sinais que podem ser detetados no dia a dia. O ‘bore-out’ pode manifestar-se através de fadiga mental constante, irritabilidade, dificuldade de concentração, apatia, perda de motivação, isolamento social, alterações no sono, dores musculares, dores de cabeça ou uma sensação de frustração permanente. O trabalhador continua presente, cumpre o mínimo necessário, mas sente-se desligado da função e da própria empresa.
O sindicato USO identifica três elementos centrais nesta síndrome: a falta de exigência no trabalho, o tédio e o desinteresse. As tarefas repetitivas, monótonas ou sem sentido fazem com que a pessoa sinta que não está a atingir o seu potencial. A isso junta-se a dúvida sobre o que fazer durante o dia e, depois, uma perda progressiva de identificação com o trabalho.
O ‘HuffPost’ sublinha ainda um ponto especialmente sensível: em alguns casos, a redução de tarefas, a atribuição de funções abaixo das competências do trabalhador ou a falta deliberada de reconhecimento podem aproximar-se da chamada ‘demissão silenciosa’ promovida pela empresa. Ou seja, uma estratégia para tornar o ambiente profissional desconfortável e levar o trabalhador a sair por iniciativa própria, evitando custos associados a uma saída imposta.
O ‘bore-out’ mostra que o mal-estar no trabalho nem sempre nasce do excesso. Também pode nascer do vazio. De dias demasiado longos, de tarefas que não chegam, de competências desperdiçadas e da sensação de que se está no lugar certo, mas sem qualquer papel real a desempenhar.













