A introdução da nova classe Optimum Plus nos comboios de alta velocidade da SNCF está a gerar uma forte controvérsia em França, após se tornar público que este serviço premium restringe o acesso a crianças com menos de 12 anos. A oferta, em vigor desde 8 de janeiro, substituiu a anterior Business Première e promete aos passageiros maior conforto, tranquilidade e serviços exclusivos, incluindo acesso a lounges premium antes do embarque, uma refeição servida no lugar e um “espaço tranquilo a bordo” com um número limitado de lugares.
Segundo o jornal francês Le Monde, a medida desencadeou críticas imediatas nas redes sociais, sobretudo por parte de organizações e vozes ligadas à defesa dos direitos das crianças. O podcast dedicado à infância “Les Adultes de demain” denunciou publicamente a opção da SNCF, acusando a empresa pública de transportes de ceder à lógica “sem crianças”. “A principal empresa de transporte público da França está a ceder à política ‘no kids’, em vez de criar vagões para crianças”, escreveu o grupo na sua conta de Instagram, sublinhando que “os adultos têm direito à tranquilidade, ao conforto e ao descanso”, mas não “à custa da exclusão dos outros”. Para o colectivo, “o problema não é a criança, o problema é o sistema que não foi pensado para ela”.
As críticas estenderam-se ao debate político e institucional. A Alta Comissária para as Crianças em França, Sarah El Hairy, considerou a mensagem transmitida pela nova classe “chocante”, afirmando em entrevista à BFM-TV que “quando se dá a impressão de que o conforto dos adultos depende da ausência de crianças, isso é chocante”. Embora reconheça diferenças entre viagens de lazer e deslocações profissionais, defendeu que a evolução de serviços premium deve ser acompanhada por soluções pensadas para as famílias, lamentando que “algumas ofertas estejam a progredir mais rapidamente do que outras”.
Perante a polémica, a SNCF reagiu, rejeitando a ideia de exclusão generalizada. “As crianças não estão excluídas dos nossos TGV”, garantiu a empresa. Num vídeo divulgado nas redes sociais, Gaëlle Babault, directora da oferta TGV InOui da SNCF Voyageurs, esclareceu que a classe Optimum Plus está acessível a todos os passageiros “a partir dos 12 anos”, tal como já acontecia com o antigo serviço Business Première. “Estes lugares Optimum representam apenas 8% dos lugares disponíveis nos nossos comboios durante a semana, o que significa que 92% permanecem acessíveis a todos, e 100% aos fins de semana”, explicou.
A responsável acrescentou ainda que a empresa tem resistido, há vários anos, a pressões para proibir a presença de crianças em determinadas zonas dos comboios. “Há anos que somos pressionados para interditar o acesso de crianças a alguns espaços das composições, algo que sempre recusámos. As nossas ofertas são pensadas para todos e isso é um princípio a que nos mantemos fiéis”, afirmou.
Os TGV da SNCF podem transportar entre 500 e mil passageiros por viagem, mas apenas 39 lugares por comboio estão reservados à classe Optimum Plus nos 39 serviços diários que ligam Paris a Lyon. De acordo com o Le Monde, a escolha desta ligação não é casual: cerca de 40% dos passageiros desta rota viajam em contexto profissional, uma percentagem significativamente superior à registada noutras linhas de alta velocidade. O debate relançou, assim, uma discussão mais ampla sobre o lugar das crianças no espaço público francês, tema que tem ganho visibilidade nos últimos anos.














