Do patriotismo ao salário: por que razão os jovens franceses estão a regressar aos quartéis?

França avançou com o restabelecimento do serviço militar voluntário e iniciou há duas semanas a primeira fase do processo de seleção

Francisco Laranjeira

Os anúncios regressaram à televisão, aos jornais e às paragens de autocarro, com mensagens diretas dirigidas aos mais jovens: compromisso, coragem e serviço ao país. Em paralelo, os telefones do centro de recrutamento militar de Paris não param de tocar, num contexto marcado pelo agravamento das tensões internacionais e por um renovado debate sobre o papel das Forças Armadas na sociedade francesa.

Segundo o ‘El País’, França avançou com o restabelecimento do serviço militar voluntário e iniciou há duas semanas a primeira fase do processo de seleção. A retórica do presidente Emmanuel Macron intensificou-se, multiplicaram-se as suas visitas a bases militares e o ambiente pré-guerra contribuiu para um aumento significativo do interesse pelo alistamento.

Esse apoio é hoje amplamente maioritário. Se em 1996 apenas 41% dos franceses defendiam a manutenção do serviço militar obrigatório, atualmente oito em cada dez apoiam o seu restabelecimento, de acordo com um estudo recente citado pelo ‘El País’. O serviço obrigatório tinha sido abolido nesse mesmo ano por Jacques Chirac, mas o debate nunca desapareceu do espaço político francês.

Um debate antigo que ganhou nova força

Ao longo das últimas décadas, várias figuras políticas questionaram a decisão de 1996. Em 2007, Ségolène Royal classificou a abolição como um erro. Marine Le Pen defendeu o regresso do serviço militar, ainda que por um período reduzido. Já em 2019, Emmanuel Macron lançou o Serviço Nacional Universal, de natureza civil, com o objetivo de reforçar a coesão social, mas o projeto acabou por fracassar devido à falta de financiamento.

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Hoje, o relançamento do serviço militar voluntário surge num contexto europeu marcado pelo reforço das capacidades de defesa. O Exército francês, com cerca de 185 mil militares, pretende recrutar 3.000 jovens no primeiro ano, aumentando gradualmente para 10.000 até 2030 e 42.500 até 2035. Países como a Alemanha e a Bélgica avançaram com iniciativas semelhantes, com Berlim a preparar um sistema que entrará em vigor este ano.

Recrutamento em marcha antes da entrada em vigor

Embora o novo sistema só entre oficialmente em vigor em Setembro, o recrutamento já arrancou. O Centro de Informação e Recrutamento das Forças Armadas (CIRFA), em Paris, recebeu cerca de 50 chamadas logo na primeira semana. As vagas disponíveis são limitadas e tudo indica que serão rapidamente preenchidas, sobretudo por jovens que já concluíram os estudos e procuram uma experiência de um ano.

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A Força Aérea e a Força Espacial registam particular pressão, com 600 vagas disponíveis e mais de 900 candidaturas submetidas. Os candidatos devem ter entre 18 e 25 anos e apresentar a candidatura até abril, estando o início previsto entre setembro e novembro, após um mês de formação inicial.

O programa garante alojamento, refeições, uma ajuda de custo mensal de 800 euros e um desconto de 75% nas viagens ferroviárias nacionais, condições pensadas sobretudo para estudantes ou jovens sem percurso universitário definido. O custo total do novo serviço militar está estimado em 2,3 mil milhões de euros nos primeiros quatro anos.

Motivação patriótica, vocação e razões económicas

No terreno, os responsáveis pelo recrutamento identificam perfis distintos entre os candidatos. Há os que sempre tiveram vocação militar, os que chegam com uma visão idealizada da vida nas forças armadas e um número crescente de jovens motivados por razões económicas, incluindo situações de desemprego.

O salário base de um soldado ronda os 1.910 euros brutos, com habitação e alimentação asseguradas, podendo esse valor aumentar significativamente em missões no estrangeiro. Para os responsáveis militares, o Exército continua a ser visto como uma via de acesso a uma profissão, estabilidade financeira e um conjunto de valores associados ao mérito e à disciplina.

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As candidaturas às vias convencionais de recrutamento aumentaram 13% em 2025, um crescimento que os militares associam tanto ao contexto geopolítico como ao reforço do sentido de comunidade entre as gerações mais jovens.

Um movimento alinhado com o rearmamento europeu

A tendência francesa insere-se num movimento mais amplo de rearmamento europeu. Países nórdicos e bálticos mantêm ou reforçaram o serviço militar obrigatório, tal como a Áustria, Grécia, Chipre e Suíça. Outros, como a Lituânia, a Suécia e a Letónia, reintroduziram o recrutamento após a anexação da Crimeia e a invasão russa da Ucrânia.

No final de uma entrevista com um aspirante a oficial, um comandante recorda que a formação militar não se limita ao treino físico. A leitura e a reflexão continuam a ser vistas como parte essencial da preparação. “Um soldado que é apenas um soldado nunca será um bom soldado”, sublinha, evocando uma máxima atribuída a Charles de Gaulle.

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