A Embaixada da China em Washington divulgou um vídeo criado com recurso a inteligência artificial no qual satiriza aquilo que classifica como um duplo critério dos Estados Unidos em relação ao comércio internacional e aos avanços tecnológicos chineses. A publicação surge num contexto de tensão persistente entre as duas maiores potências económicas mundiais, em confronto aberto em matérias como comércio, tecnologia e segurança.
O vídeo, com cerca de um minuto de duração e intitulado “Breaking News: Another China Shock”, foi partilhado nas redes sociais da missão diplomática chinesa na terça-feira e apresenta uma narrativa musical em tom irónico, recorrendo a personagens simbólicas para ilustrar a disputa geopolítica e económica entre Pequim e Washington.
📢 Breaking news: Another "#China shock" pic.twitter.com/5uMWrStZgn
— Chinese Embassy in US (@ChineseEmbinUS) January 7, 2026
A divulgação do vídeo acontece num momento em que os Estados Unidos e a China permanecem em desacordo sobre um vasto leque de dossiês, desde as trocas comerciais até à situação em Taiwan. Washington tem criticado de forma reiterada a exportação em massa, por parte da China, de produtos fortemente subsidiados, como os veículos elétricos, alertando para um excesso de oferta global resultante da diminuição da procura interna chinesa.
Paralelamente, os Estados Unidos mantêm restrições rigorosas à exportação de semicondutores avançados para a China, justificando a decisão com preocupações de segurança nacional e com o potencial uso militar dessas tecnologias.
Pequim, por seu lado, enquadra estas medidas como uma tentativa deliberada de travar a sua ascensão enquanto potência económica e tecnológica, acusando Washington de práticas de intimidação. Em resposta, a China tem procurado explorar as suas próprias vantagens estratégicas, incluindo o controlo de uma parte significativa da cadeia global de fornecimento de minerais de terras raras.
Um vídeo musical satírico com símbolos nacionais
No vídeo divulgado pela embaixada chinesa, os Estados Unidos são retratados como uma águia-careca — símbolo nacional norte-americano — vestida com fato e apresentada como uma figura que canta em estilo hip-hop. A personagem lamenta, de forma ansiosa, os progressos tecnológicos da China.
“Oh não, está a acontecer outra vez. A China construiu algo fantástico, meu amigo!”, canta a águia ao microfone. Noutra passagem, a letra sublinha o alegado duplo padrão: “Quando lideramos, é ‘progresso, uau’. Quando a China lidera, é ‘excesso de capacidade agora’”.
A China surge representada por um panda gigante, símbolo frequentemente associado ao país, retratado como trabalhador e inovador. O animal aparece em várias cenas que ilustram sectores estratégicos da economia chinesa, incluindo programação informática, linhas de montagem de veículos elétricos, instalação de painéis solares, robótica humanoide e o lançamento de um foguetão de grande capacidade.
A canção termina com a frase: “O verdadeiro choque da China? Não conseguem suportar que ela cresça”, num tom claramente provocatório.
O conceito de “China shock” e o receio de uma nova vaga
A expressão “China shock” foi originalmente utilizada para descrever o impacto da entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, quando a rápida expansão das exportações chinesas de bens a baixo custo inundou os mercados globais, pressionando indústrias e empregos em várias economias desenvolvidas.
Nos últimos anos, a forte aposta chinesa na manufatura avançada e a sua posição dominante em sectores como as energias renováveis, as baterias, os veículos elétricos e outras indústrias de alta tecnologia reacenderam os receios em Washington de um “China shock 2.0”.
Alertas nos Estados Unidos sobre estratégia industrial chinesa
Estas preocupações têm sido ecoadas por responsáveis norte-americanos. Em junho, numa audição, Livia Shmavonian, comissária da Comissão de Revisão Económica e de Segurança Estados Unidos–China, um organismo independente criado pelo Congresso, afirmou que “o Governo chinês não está a perseguir o domínio da produção industrial por acaso — está a fazê-lo de forma deliberada”.
Segundo Shmavonian, “o excedente comercial da China duplicou em cinco anos e está agora a ser utilizado para corroer a competitividade industrial dos Estados Unidos e dos seus aliados”, sublinhando a dimensão estratégica da política económica chinesa.
A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China intensificou-se pouco depois de o Presidente Donald Trump ter iniciado o seu segundo mandato, no ano passado. Desde então, registou-se algum abrandamento das tensões, sobretudo após o encontro entre Trump e o Presidente chinês Xi Jinping, à margem da cimeira da Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), realizada em outubro, em Busan, na Coreia do Sul.
Ainda assim, permanece a incerteza quanto à possibilidade de um acordo abrangente entre as duas potências, capaz de resolver diferenças estruturais profundas que continuam a marcar as relações bilaterais em múltiplas frentes, desde o comércio à tecnologia e à segurança internacional.














