A Alemanha vai reunir esta quarta-feira, com ministros de seis dos principais Estados-membros da União Europeia numa videoconferência destinada a discutir o avanço de uma “Europa a duas velocidades”, numa tentativa de acelerar a tomada de decisões num contexto de crescente instabilidade geopolítica e bloqueios internos no bloco comunitário. A reunião está marcada para as 14h00 (hora de Lisboa), segundo informação divulgada por Berlim e citadas pela Reuters.
A iniciativa surge numa altura em que o modelo de decisão por unanimidade entre os 27 Estados-membros é cada vez mais questionado, debate que ganhou mais força após críticas da administração de Donald trump à lentidão dos processos de decisão europeus.
Para além da Alemanha, foram convidados a participar França, polónia, Espanha, Itália e Países Baixos. A videoconferência vai reunir os respetivos ministros das Finanças e pretende funcionar como ponto de partida para uma coordenação mais estreita entre países dispostos a avançar em determinadas políticas, sem necessidade de um consenso total no seio da união Europeia.
A ideia de formar coligações ‘ad hoc’ dentro da UE não é nova e já foi aplicada em projetos estruturantes, como a criação da moeda única. No entanto, ganha agora novo impulso face a desafios como o abrandamento económico, o agravamento das tensões de segurança e profundas divergências políticas entre Estados-membros.
“Agora é o momento de uma Europa a duas velocidades”
Na véspera da reunião, o ministro das Finanças alemão, Lars Klingbeil, afirmou em Berlim que “agora é o momento de uma Europa a duas velocidades”, defendendo uma mudança clara de abordagem face ao atual contexto internacional.
Segundo uma carta enviada aos seus homólogos, datada de segunda-feira e consultada pela Reuters, Klingbeil pretende que o grupo defina uma agenda concreta para reforçar a soberania, a resiliência e a competitividade da Europa. Na mesma missiva, sublinha que “para sobreviver numa situação geopolítica cada vez mais imprevisível, a Europa tem de se tornar mais forte e mais resiliente”, acrescentando que “continuar como até agora não pode ser uma opção”.
O encontro é descrito como um “arranque” do processo, estando já prevista uma reunião presencial à margem do próximo Eurogrupo.
Analistas consideram que a iniciativa reflete uma inflexão clara da política alemã. Nicolai von Ondarza, especialista europeu do Instituto Alemão para os Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), afirmou que “devido à situação geopolítica, a UE simplesmente já não se pode dar ao luxo de esperar pelos 27 membros”.
O especialista apontou ainda para uma postura mais assertiva do chanceler alemão, Friedrich Merz, que tem demonstrado maior disponibilidade para avançar sem unanimidade em dossiers como o acordo comercial com o Mercosul ou o apoio à Ucrânia.
Abordagem flexível para evitar exclusões
Apesar de a reunião inicial envolver apenas seis países, responsáveis alemães rejeitam a ideia de exclusão permanente de outros Estados-membros. Segundo Berlim, o modelo de grupo avançado será flexível e adaptável, variando consoante os temas e os países interessados em participar.
França, que há muito defende que os Estados dispostos devem avançar sem esperar pelos restantes, deverá participar ativamente na discussão. Também a Itália confirmou presença, com o ministro da Economia, Giancarlo Giorgetti, incluído na chamada. Uma fonte italiana afirmou que está em curso “um esforço para encontrar um enquadramento de discussão que permita procurar soluções para situações mais complexas num formato restrito”.
Quais os pontos de partida?
A carta enviada por Klingbeil inclui um plano de quatro pontos centrado na economia europeia. Entre as prioridades estão o avanço da União dos Mercados de Capitais, o reforço do euro e uma coordenação mais eficaz do investimento em defesa e no acesso a matérias-primas estratégicas.
O ministro alemão defendeu igualmente progressos mais rápidos na criação de uma União da Poupança e do Investimento, com o objetivo de melhorar as condições de financiamento das empresas europeias.
Relativamente ao euro, Klingbeil apelou à redução da burocracia e ao reforço da soberania no setor dos pagamentos, de forma a sublinhar o papel da moeda única como ativo de refúgio, assente na previsibilidade e no Estado de direito.
No domínio da defesa, o responsável alemão considerou essencial uma cooperação mais estreita, defendendo que esta área deve estar firmemente integrada como prioridade no próximo orçamento plurianual da União Europeia, “transformando a defesa num motor de crescimento”.
A resiliência das cadeias de abastecimento de minerais críticos é outro dos pontos destacados, com Klingbeil a defender um maior envolvimento estratégico da UE com parceiros internacionais para garantir o acesso seguro a matérias-primas essenciais.













