A Ryanair vai reduzir de forma significativa a sua operação em vários países europeus ao longo de 2026, numa decisão que terá impacto direto em milhões de passageiros e que inclui destinos em Espanha, França, Alemanha, Bélgica, Portugal, bem como na Bósnia e Sérvia. A companhia aérea de baixo custo justifica os cortes com o aumento de impostos sobre a aviação, taxas aeroportuárias e custos operacionais, alertando para a perda de competitividade de vários mercados regionais.
Depois de um ano de 2025 marcado por expansões em mercados como o Reino Unido, Finlândia e Itália, e pelo lançamento de novas rotas — como Londres-Múrcia ou ligações entre o Reino Unido e Rovaniemi —, a transportadora anunciou que vai suprimir cerca de três milhões de lugares em 2026. Esta redução deverá afetar sobretudo cidades de menor dimensão, com impacto na conectividade aérea e na conveniência para os passageiros.
Alemanha perde dezenas de ligações e quase 800 mil lugares
Na Alemanha, a Ryanair revelou em outubro de 2025 que iria eliminar 24 rotas de e para o país, o que representa uma redução de quase 800 mil lugares no horário de inverno de 2025/2026. Nove aeroportos já foram afetados, incluindo Hamburgo, Berlim, Colónia, Memmingen, Frankfurt-Hahn, Dresden, Dortmund e Leipzig. Nos aeroportos de Leipzig, Dresden e Dortmund, as operações continuarão suspensas ao longo de 2026.
A companhia aponta como principais motivos os elevados custos de controlo de tráfego aéreo e segurança, bem como os impostos sobre a aviação e múltiplas taxas aeroportuárias, criticando o Governo alemão por prejudicar a competitividade do sector. Num comunicado divulgado em outubro, a Ryanair afirmou que “os elevados custos de acesso na Alemanha contrastam fortemente com países como a Irlanda, Espanha e Polónia, que não aplicam impostos sobre a aviação”, acrescentando que outros Estados, como a Suécia, Hungria ou regiões de Itália, estão a eliminar taxas para estimular o tráfego, o turismo e o emprego.
Espanha perde mais de um milhão de lugares e várias bases regionais
Em Espanha, a companhia vai aprofundar os cortes em 2026, depois de já ter reduzido cerca de um milhão de lugares no inverno de 2025. Para o horário de verão, a Ryanair prevê retirar cerca de 1,2 milhões de lugares em aeroportos regionais, encerrando todas as ligações a Astúrias e Vigo, além de fechar a sua base em Santiago de Compostela.
Serão também reduzidas as operações em Santander e Saragoça, cortadas várias ligações às Canárias e mantida a suspensão total de voos para Tenerife Norte durante o inverno. A base de Jerez, encerrada esta época, continuará fechada em 2026, enquanto Valladolid permanece sem voos da Ryanair desde o inverno de 2024.
A transportadora atribui estas decisões aos aumentos de taxas impostos pela Aena, gestora aeroportuária espanhola, e ao que classifica como “multas ilegais sobre bagagem”, numa referência à limitação das taxas cobradas por malas de cabine. Num comunicado, a empresa acusou a Aena de aplicar uma política monopolista que “obriga pequenos aeroportos regionais a cobrar tarifas semelhantes às de grandes hubs como Madrid, Barcelona, Palma ou Málaga”.
França enfrenta novas suspensões apesar de alguns recuos
França também figura entre os países mais afetados. Após ter eliminado 750 mil lugares e 25 rotas no inverno de 2025, suspendendo voos para Bergerac, Brive e Estrasburgo, a Ryanair anunciou em dezembro que iria retomar as ligações a Bergerac no verão de 2026, na sequência de negociações com as autoridades francesas.
Ainda assim, a companhia advertiu para novos cancelamentos. “A Ryanair vai abandonar os aeroportos regionais franceses no verão de 2026”, afirmou o diretor comercial da empresa, Jason McGuinness, à revista Challenges. Pouco depois, em janeiro de 2026, foi anunciado o encerramento das operações no aeroporto de Clermont-Ferrand Auvergne a partir de 27 de março, devido aos impostos ambientais. Atualmente, a Ryanair voa deste aeroporto para Londres, Porto e Fez.
Bélgica perde 22% da capacidade da Ryanair
Na Bélgica, a Ryanair vai retirar 20 rotas e cerca de um milhão de lugares dos aeroportos de Bruxelas e Charleroi no horário de inverno de 2026/27. A decisão está ligada à introdução de um novo imposto sobre a aviação, que duplicará a taxa para 10 euros por passageiro, podendo ainda ser agravada por impostos locais em Charleroi.
As ligações afetadas incluem destinos como Milão-Bérgamo, Barcelona, Lisboa, Roma-Ciampino, Cracóvia e Maiorca. No total, a empresa vai reduzir cerca de 22% da sua capacidade no país e retirar cinco aeronaves das bases de Zaventem e Charleroi. A companhia apelou ao Governo belga para abolir o imposto, alertando que, caso contrário, “o tráfego belga entrará em colapso e as tarifas irão disparar”.
Portugal entre os países mais penalizados com cortes nas ligações aos Açores
Portugal surge entre os países mais afetados pelos cortes da Ryanair em 2026. A companhia vai eliminar todas as seis rotas de e para os Açores a partir do final de março, uma decisão que deverá afetar cerca de 400 mil passageiros por ano. Esta redução representa cerca de 22% da capacidade total da Ryanair em Portugal e terá impacto também em cidades como Lisboa e Porto.
A empresa justifica os cortes com o aumento das taxas de controlo de tráfego aéreo cobradas pela ANA (Vinci), bem como com impostos europeus como o Sistema de Comércio de Licenças de Emissão da União Europeia (ETS), que incide sobretudo sobre voos de curta distância para destinos como os Açores e a Madeira. A introdução de uma nova taxa turística de dois euros em Portugal é igualmente apontada como um fator negativo.
Num comunicado divulgado em novembro, a Ryanair afirmou que “o monopólio da ANA não tem qualquer plano para aumentar a conectividade de baixo custo para os Açores”, defendendo que o Governo português deve intervir para garantir que os aeroportos “beneficiem os cidadãos portugueses, e não um monopólio aeroportuário francês”. A ANA rejeitou estas acusações, garantindo que mantém diálogo aberto e que as taxas nos Açores são reduzidas.
Fora da União Europeia, a Ryanair vai também reduzir a sua operação na Bósnia e na Sérvia durante o verão de 2026, de forma a redirecionar capacidade para mercados com maior procura sazonal, como a Croácia. Em Banja Luka, serão cortados seis voos semanais, mantendo-se apenas duas rotações semanais para Viena, Memmingen e Baden-Baden. Em Niš, serão eliminadas duas ligações semanais, incluindo voos para Viena e Malta.






