O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, admite que o sistema multilateral atravessa uma das fases mais frágeis desde a criação das Nações Unidas e alerta para os riscos crescentes de proliferação nuclear num contexto de tensões geopolíticas, conflitos armados e normalização do uso da força. “As Nações Unidas são hoje as grandes ausentes”, afirma o diplomata argentino, que se apresenta como candidato a secretário-geral da ONU.
Numa entrevista ao El Confidencial, Grossi defende que a perda de credibilidade da organização resulta de bloqueios estruturais, em especial no Conselho de Segurança, mas também de uma falta de iniciativa política. Na sua visão, um secretário-geral deve ser “ativo, presente nos conflitos e aceitável para todas as partes”, sublinhando que a imparcialidade “não é indiferença”, mas sim a capacidade de agir como mediador e aproximar posições mesmo em cenários altamente polarizados.
Com base na sua experiência à frente da AIEA, Grossi aponta o envolvimento direto nas crises da Ucrânia e do programa nuclear iraniano como exemplos de diplomacia pragmática. Recorda que, no caso da central de Zaporíjia, tomou a iniciativa de dialogar com Moscovo e Kiev para evitar um acidente nuclear, sublinhando que esperar consensos formais teria sido demasiado arriscado. “Se me tivesse limitado a aguardar orientações, hoje poderíamos estar a lidar com uma catástrofe”, afirma.
Sobre o Irão, Grossi reconhece que os ataques norte-americanos causaram “danos devastadores” em instalações-chave como Natanz, Fordow e Isfahan, mas alerta que o material nuclear continua a existir. Segundo explica, Teerão perdeu temporariamente a capacidade de enriquecer urânio, mas mantém o conhecimento técnico para reconstruir o programa. Para o responsável da AIEA, o uso da força contra instalações nucleares viola princípios claros do direito internacional e não pode substituir a via diplomática, única capaz de garantir estabilidade duradoura no Médio Oriente.
Grossi manifesta também preocupação com o enfraquecimento do regime de não proliferação, apesar de considerar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) um sucesso histórico. O problema, sustenta, é a erosão do compromisso político. “Há cada vez mais países relevantes a ponderar seriamente desenvolver armas nucleares”, alerta, defendendo que “um mundo com 19 países com armas nucleares, em vez de nove, será um mundo muito mais incerto e muito mais perigoso”.
Paralelamente, o diplomata observa um renovado interesse pela energia nuclear civil, impulsionado pela transição energética e pela explosão do consumo elétrico associado à inteligência artificial. Embora rejeite a ideia de um novo “boom” como o dos anos 1970, reconhece um crescimento sustentado, incluindo o desenvolvimento de pequenos reatores modulares e a entrada direta de grandes empresas tecnológicas no sector, sempre sob as salvaguardas internacionais da AIEA.
Convencido de que a ONU ainda pode recuperar relevância, Grossi conclui que o desafio não está apenas em reformar estruturas, mas em assumir iniciativa política num mundo fragmentado. “Enquanto estes problemas não forem resolvidos, não haverá estabilidade”, afirma, defendendo que o multilateralismo só sobreviverá se demonstrar utilidade concreta num contexto internacional cada vez mais instável.













