A maratona COVID

Por Nuno España, Gestor na Lusíadas Saúde

Uma maratona, com os seus 42,195kms, é a clássica prova de resistência e, como tal, pressupõe dedicação, preparação e resiliência. Qualquer preparação séria tem um conjunto de implicações, nomeadamente ciclos de treino, alimentação e sono saudáveis e uma fase de tapering (redução da carga de treino nos dias que antecedem as provas). Sempre que cumpri com estes requisitos, de forma geral, as maratonas correram bem, sem isto significar que as mesmas não tenham sido todas elas duras e intensas.

Se encararmos a pandemia que nos assombra desde março de 2020 como uma maratona, todos nós sabemos que a preparação não foi a certa. Fomos “à campeão”, mesmo apesar dos avisos de todos aqueles que já tinham arrancado primeiro do que nós. Não tivemos a humildade e maturidade suficientes para descansar, repor energias e preparar estratégias de prova, para vários cenários. Como bons portugueses que somos, sempre na fé do desenrasca e com muita sorte à mistura, arrancámos na velocidade máxima, cheios de confiança e força. Fomos capazes de entrar no confinamento total, à custa de muito, mas na certeza de que ganharíamos muitos kms de avanço. As marcas ficaram e apesar dos primeiros 10kms terem sido feitos fora da nossa zona de conforto, conseguimos ultrapassar o desafio. Apelidados de milagre português, todos nos reconheceram mérito.

Ao ritmo adequado e avançando serenamente pelos kms amenos do Verão, fomos perdendo o foco, o respeito pela prova e o medo do sofrimento que esta ainda acarretaria. Sim, já tínhamos ultrapassado algumas dificuldades, nomeadamente uma segunda vaga, mas sempre sem grandes mazelas. Estávamos cansados e todos nos falavam do tão conhecido “muro” que chegaria com o Inverno. Mais uma vez, não soubemos gerir a energia que nos restava. Arriscámos e encarámos o Natal e o Ano Novo como mais um sprint para o qual não estávamos obviamente preparados. Agora com menos reservas e já massacrados pelos kms feitos, as coisas começaram a complicar-se. Podemos culpar o treinador por não nos ter impedido, a meteorologia por ter ficado mais agressiva e até a falta de apoio dos que assistiam, mas a verdade é que fomos nós que não nos soubemos resguardar.

O muro chegou – intenso, doloroso, penoso. Com as pernas cheias de ácido láctico e o corpo dorido, já nem a água e as barras energéticas ajudaram. Perdemos o corpo e a cabeça e demos palco ao coração. Tropeçámos, tivemos de abrandar e caminhar e chegámos mesmo a ter de ser assistidos pela equipa operacional e médica. Sabendo que não tínhamos outra opção senão sermos fortes, continuamos em frente, como podíamos e com o que tínhamos …

Depois da sensação de termos “morrido” e da vontade de desistir, voltámos a renascer. Recomeçámos, de forma suave, a correr. Um passo à frente do outro.

Estamos agora no km 35. Apesar de já não irmos para records, está nas nossas mãos decidir a forma como queremos terminar esta maratona. Temos de colocar o coração do lado de lá da meta e pedir à cabeça um último esforço.

Nunca desisti de uma prova e não tenciono desistir desta. Quero deixar tudo no campo de batalha, com a sensação de dever cumprido. Quem corre sabe perfeitamente que a corrida não se faz sozinho. Nunca se fez. Esta maratona, como todas as outras, temos de a terminar juntos, os que correm e os que estão prontos para dar suporte e ânimo. No final, apesar das dores e sofrimento, cortaremos a tão desejada meta e todos juntos festejaremos. Na certeza de que muitos erros foram feitos no processo e que fomos buscar forças onde não havia, aprendemos a lição. Mais maratonas como esta virão e, mais do que nunca, queremos estar preparados.

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