A nossa sociedade tem-se adaptado a um “ritmo frenético”, onde as evoluções nos desafiam diariamente. Adaptação é a palavra-chave de todo o contexto evolutivo, e desde as tecnologias à economia, a mudança está a acontecer.
«O ritmo da transição digital está a aumentar. A maioria dos Estados-membros está a avançar na construção de sociedades e economias digitais resilientes. Desde o início da pandemia, envidámos esforços significativos para apoiar os Estados-membros nesta transição… Isto porque precisamos de tirar o máximo partido dos investimentos e das reformas necessários para cumprir as metas da Década Digital em 2030.» Estas são as palavras de Margrethe Vestager, vice-presidente executiva da Comissão Europeia.
Portugal estará preparado para esta transição? De acordo com o Índice de Digitalidade da Economia e da Sociedade de 2022 da Comissão Europeia, a percentagem de empresas portuguesas com pelo menos um nível básico de intensidade digital é de 52%, valor abaixo da média da União Europeia, que se encontra nos 55%.
Por outro lado, a percentagem de utilização de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) para a sustentabilidade ambiental de pequenas e médias empresas que vendem online, e de Inteligência Artificial, é superior à média da UE.
Portugal também se encontra na vanguarda no que respeita a serviços públicos digitais, e tem uma pontuação superior à média da UE, relativamente à integração das tecnologias digitais nas actividades empresariais.
No ano de 2020, Portugal aprovou o seu plano de acção para a transição digital, que atribui prioridade à capacitação e inclusão digitais das pessoas, à transformação digital do tecido empresarial e da Administração Pública e à digitalização da educação, no âmbito do PRR.
«Muita coisa já se faz em Portugal através de serviços digitais. No entanto, ainda existe caminho a percorrer e é, sem dúvida, um sector que pode e deve investir mais. Diria que se considerarmos a adopção da economia digital na União Europeia, estaremos na média», considera David Brito, director-geral da Ebury.
A economia digital está num processo de transição. Mas em que consiste? Quais as diferenças entre esta e a economia tradicional? Quais os principais desafios?
O que é a economia digital?
A economia digital refere-se à actividade económica que resulta de biliões de conexões online diárias entre pessoas, empresas, dispositivos, dados e processos. Abrange a compra e venda de bens e serviços, a partilha de informações e o fornecimento de vários serviços digitais, como mecanismos de pesquisa, plataformas de social media e armazenamento em nuvem.
Algumas das principais características da economia digital incluem:
- Maior conectividade: a internet e outras tecnologias digitais possibilitaram que pessoas e empresas se conectassem e interagissem de novas formas;
- Tomada de decisão baseada em dados: as tecnologias digitais geram grandes quantidades de dados, que podem ser analisados para informar a tomada de decisões e melhorar a eficiência;
- A ascensão das plataformas digitais: muitas actividades da economia digital ocorrem em plataformas como Amazon, Uber e Airbnb, que conectam compradores e vendedores, prestadores de serviços e clientes;
- O crescimento da economia gig: a economia digital facilitou o crescimento da economia gig, na qual as pessoas trabalham num projecto ou tarefa, em vez de serem empregadas a tempo inteiro;
- A crescente importância das habilidades digitais: à medida que a economia digital continua a evoluir, as habilidades digitais estão a tornar-se cada vez mais importantes para indivíduos e empresas.
Para Miguel Fernandes, consulting partner da PwC Portugal, a melhor definição para a economia digital é talvez a mais simples e resumida: economia que faz uso da tecnologia digital.
«Embora pareça ser um conceito recente, a economia digital já está presente no nosso quotidiano há várias décadas, apresentando, no entanto, uma expressão cada vez mais relevante nos últimos anos. O objectivo da economia digital passa por potenciar o valor das actividades económicas através do uso da tecnologia, incluindo a compra e venda de produtos e serviços, a criação de conteúdos digitais e a publicidade através da internet, maximizando desta forma a produtividade e a eficiência operacional das organizações», explica.
A definição de economia digital tem vários pontos de vista para diversas entidades. Para a União Internacional de Telecomunicações (ITU), por exemplo, a economia digital consiste na produção, distribuição, marketing, venda e entrega de bens e serviços, onde a maioria dos processos de informação e comunicação ocorre de forma digital.
Já do ponto de vista da Comissão Europeia, esta é uma economia onde as tecnologias digitais e a internet têm um papel significativo na criação, produção, distribuição e consumo de bens e serviços.
«Se analisarmos ambas as definições, podemos encontrar algumas diferenças entre elas, mas o denominador é comum: a tecnologia digital», destaca.
A economia digital está a impulsionar o crescimento económico e a criar novas oportunidades para empresas e indivíduos. No entanto, também levanta importantes questões políticas relacionadas com a privacidade, segurança e inclusão.
Tradicional vs digital: conceitos estão distantes?
A principal diferença entre a economia digital e a tradicional é a medida em que as tecnologias digitais e a internet estão integradas à actividade económica. Na economia tradicional, a maior parte da actividade económica é conduzida no mundo físico, através de interacções face a face e troca de bens físicos. Em contraste, a economia digital é caracterizada pelo aumento do uso de tecnologias digitais, como internet, dispositivos móveis e software, para facilitar a actividade económica.
O director-geral da Ebury explica que «enquanto na economia digital se busca processos mais automatizados, rápidos e escaláveis, na economia tradicional, os processos são mais personalizados e o contacto pessoal é mais evidente e necessário».
Já para Miguel Fernandes, as diferenças entre economia digital e tradicional são mais evidentes e relevantes nos seguintes pontos: escala global, velocidade e agilidade, acesso à informação, penetração nos mercados e personalização.
«A economia digital é global e permite conectar de forma mais fácil as pessoas com vários negócios e mercados, enquanto a economia tradicional está associada a limites geográficos mais rígidos», destaca.
Para o especialista, a velocidade e agilidade das empresas na economia digital permitem uma interacção constante entre as organizações e consumidores, assim como o processamento de transacções económicas em tempo real, possibilitando a tomada de decisões mais rápidas e eficazes.
Acrescenta ainda que, em contraste com a tradicional, a economia digital tem a capacidade de se adaptar rapidamente às mudanças do mercado. «Enquanto a economia tradicional é baseada em relações comerciais e na confiança, a economia digital é baseada na informação digital e na capacidade de processamento e análise de grandes quantidades de dados, permitindo obter mais informação acerca dos potenciais clientes e apresentar uma oferta mais personalizada», explica.
Já no que respeita à entrada em novos mercados, a economia digital deverá apresentar menos entraves às empresas que pretendem expandir as suas actividades para mercados globais, abrindo portas a pequenas e médias empresas para se diferenciarem em novos mercados. Por outro lado, na economia tradicional as barreiras são maiores, sendo que pode haver a necessidade de as empresas despenderem mais recursos e de necessitarem de uma estratégia mais orientada, de modo a penetrarem nos mercados pretendidos.
Por último, Miguel Fernandes sublinha que a economia digital permite a personalização de produtos e serviços baseados nos comportamentos e preferências dos consumidores, enquanto a economia tradicional aposta, geralmente, em produtos e serviços standard.

Tecnologia no centro de tudo
As novas tecnologias têm um papel fundamental na economia digital, pois estas impulsionam a inovação e disrupção entre indústrias. A integração da tecnologia na economia potencia possíveis ganhos com novos modelos de negócio,
ou a redução de custos associada a melhorias operacionais.
«Existem alguns exemplos de novas tecnologias que se destacam e estou convicto que irão ter um grande impacto para as organizações, como é o caso da Inteligência Artificial e Machine Learning, Internet of Things, Blockchain, rede 5G, Cloud Computing, Realidade Virtual e Realidade Aumentada», diz Miguel Fernandes.
Mas como se pode tirar proveito dessas novas tecnologias e extrair um maior valor da economia digital? Para se alcançar este objectivo, é necessário que as organizações invistam em I&D e associem os seus resultados a novos modelos de negócio. Para além disso, devem procurar sinergias com outras empresas, startups e instituições académicas, com o intuito de obterem acesso a tecnologias e conhecimento de ponta.
As ameaças ao digital
A economia digital está a transformar a forma como as organizações realizam transacções entre si, o que gera uma necessidade crescente de entender as potenciais ameaças associadas à mesma.
Com o crescimento desta economia digital, os riscos associados também aumentam, com destaque para os ciberataques, violação de dados, roubo de identidade, entre outros. Face a estas ameaças, é de uma grande importância as organizações estarem preparadas para enfrentar as diversas adversidades e desafios colocados à economia digital.
«Existem algumas questões relacionadas com a cibersegurança e ciberataques. Além disso, outras relacionadas com a grande quantidade de data que os processos relacionados com a economia digital conseguem recolher e as formas como toda essa informação pode ser protegida, de acordo com as regras de protecção de dados», considera o director-geral da Ebury.
O executivo sublinha ainda que as demasiadas ou insuficientes regulações, nomeadamente nos processos digitais financeiros, podem revelar-se um entrave a processos de economia digital eficientes.
O consulting partner da PwC Portugal também concorda que os ciberataques são uma das ameaças mais comuns à economia digital. Estes podem resultar de simples golpes de phishing, a ataques mais sofisticados que podem, no limite, dar origem à violação de dados, com um impacto significativo nas organizações.
Nas empresas, a violação de dados pode dar acesso a informações acerca de fornecedores, clientes, ou até mesmo informações financeiras, comerciais ou patentes.
«A violação de dados pode ter sérias consequências, incluindo perdas financeiras, danos à reputação da organização e até mesmo dar lugar a acções legais, que desta forma podem causar prejuízos significativos na performance da empresa», explica Miguel Fernandes.
De acordo com o Cyber Survey 2021 da PwC Portugal, 50% das empresas portuguesas não realiza testes de cibersegurança e 32% não prevê acções de consciencialização. Com base nestes dados, Miguel Fernandes alerta para a importância de as organizações estarem mais cientes das ameaças e adoptarem medidas para se proteger. «Isso inclui a implementação de medidas robustas de segurança e a capacitação das equipas sobre como reconhecer e responder a possíveis ameaças e monitorizar regularmente os seus sistemas, com o objectivo de detectar qualquer actividade suspeita», sublinha.
A adopção destas medidas permite que as organizações se protejam de ciberataques, violação de dados e outras ameaças, garantindo que permanecerão mais seguras e competitivas para abraçar a economia digital.
Como aproveitar o “ritmo frenético” da evolução
A economia digital está a evoluir a um “ritmo frenético”, como diz Miguel Fernandes, e as empresas que desejam ter sucesso neste novo cenário devem ser ágeis, de modo a acompanhar as tecnologias e tendências mais recentes.
«Uma das estratégias mais importantes para maximizar o potencial de um negócio é a aposta no comércio digital. Isso significa desenvolver uma presença online e facilitar as transacções com os clientes, independentemente de se tratar de venda de bens físicos ou serviços digitais. Associado a uma forte presença no mercado digital tem de existir uma aposta consolidada no marketing digital», sugere o consulting partner da PwC Portugal.
Já para o director-geral da Ebury, o primeiro passo deve ser continuar a investir na educação de forma a capacitar as pessoas para a economia digital. Para além disso, sublinha a necessidade de criar mecanismos regulatórios e legais que potenciem o bom funcionamento da economia digital.
Do ponto de vista interno das empresas, é necessário que as estruturas organizacionais, os processos e as competências das pessoas acompanhem esta evolução, correndo o risco de ficarem para trás nesta corrida, perderem a eficiência e limitarem o sucesso desta estratégia.
Miguel Fernandes considera que não é ainda possível avançar para uma estratégia digital sem existir um suporte em analytics e Big Data. Torna-se necessário as organizações orientarem as suas estratégias para irem ao encontro das necessidades dos clientes e isso só é possível com recurso à análise de dados dos mesmos, que se apresentam cada vez mais dispostos a partilhar as suas informações em troca de uma experiência customizada às suas necessidades. Neste novo cenário, é essencial fazer uso das novas plataformas e tecnologias que estão ao dispor das organizações para fazer crescer a marca, cativar o interesse dos clientes e gerar uma relação de proximidade e confiança.
«Não deixa de ser importante entender bem as potencialidades dos processos de economia digital e investir quando estas podem realmente trazer resultados. Em grande parte dos sectores a economia digital será uma inevitabilidade, mas, para a aproveitar ao máximo, será necessário entender bem o resultado desse investimento», sublinha David Brito.




