
“Perguntei ao presidente de uma grande empresa tecnológica: o que ensinaria aos seus filhos? Respondeu-me que não os ensinaria a usar inteligência artificial, porque isso não os prepararia para nada. Ensinaria humanidades. Quem somos, quem fomos, o que podemos fazer.”
A frase é de Katherine Rundell, num artigo publicado no The Guardian em agosto. No mesmo texto, cita Gillian Tett, do Financial Times: uma empresa financeira de Nova Iorque procura estudantes de humanidades porque alguns jovens formados em áreas STEM, já “nativos de IA”, chegam ao mercado de trabalho com ideias “assustadoramente superficiais”.
A inteligência artificial chegou envolvida numa promessa democrática. Nunca tantos tiveram ao seu alcance uma ferramenta capaz de escrever, traduzir, programar, explicar um conceito difícil ou resolver um problema complexo. Basta perguntar-lhe.
Porém, o acesso é apenas uma parte da história.
Um professor dizia-me recentemente que observa, entre os seus alunos na faculdade, uma diferença importante. Os melhores utilizam a IA para ir mais longe. Fazem perguntas mais exigentes, confrontam respostas, procuram alternativas, detetam erros. O conhecimento que já possuem permite-lhes explorar melhor a ferramenta e, através dela, aprender mais. Nos alunos com maiores dificuldades, observa outra utilização. Recorrem à IA para fazer aquilo que não sabem fazer e nem sempre possuem conhecimentos suficientes para avaliar o que recebem. Uma resposta convincente pode ser tomada por certa simplesmente porque lhes faltam conhecimentos para perceber a diferença.
Para quem sabe, a IA multiplica; para quem não sabe, substitui.
A mesma tecnologia que coloca capacidades extraordinárias ao alcance de todos pode, assim, aumentar a vantagem de quem já chega até ela com mais conhecimento. Ao mesmo tempo, pode oferecer uma resposta pronta a quem ainda não adquiriu os instrumentos necessários para a compreender, questionar e avaliar.
Esta diferença encontra já algum apoio empírico. O estudo AI Meets the Classroom: When Do Large Language Models Harm Learning? encontrou resultados distintos consoante o modo de utilização da IA e indícios de um aumento da distância entre estudantes com maior e menor conhecimento prévio.
Durante anos, a divisão digital separou quem tinha acesso à tecnologia de quem não tinha. Com a inteligência artificial, a questão é outra. Dois estudantes podem dispor da mesma ferramenta e permanecer profundamente desiguais na capacidade de a utilizar. Podem até apresentar trabalhos de qualidade semelhante sem terem aprendido a mesma coisa. No papel, a distância diminuiu.
Se a qualidade do resultado já não permite perceber com segurança aquilo que o estudante sabe, importa fazer uma pergunta elementar: o que deve o aluno continuar a saber fazer sem inteligência artificial?
Não para limitar o seu uso, mas porque só quem sabe pode verdadeiramente questionar uma resposta, relacioná-la com aquilo que conhece e perceber quando a máquina está errada.
Percebe-se melhor, assim, a escolha daquele empresário para os filhos. A inteligência artificial pode colocar a mesma ferramenta ao alcance de todos. Mas não pode dar a todos aquilo que é preciso saber para a usar.




