Encontramos Pedro Plantier e Francisco Leite na esplanada de um café bem próximo da Avenida da Liberdade, em Lisboa. O local é também a nova loja com raquetes, roupa e acessórios de um dos desportos que mais cresce no mundo: o padel. Inaugurada recentemente, a loja é uma espécie de showroom que vende os artigos da marca portuguesa Cork, e que se destaca de outras marcas de raquetes por serem feitas em cortiça. Pedro e Francisco são dois dos quatro sócios da empresa que apostaneste “novo” desporto. E por isso, antes de contar a história da Cork, há que explicar o que é padel.
Parecido mas diferente do ténis, foi criado em 1974 no México. E o que se pensava que seria uma moda passageira – e que ainda hoje alguns torcem o nariz -, já é uma certeza: existem 300 mil jogadores em Portugal, 1200 campos e 420 clubes, segundo dados revelados à Agência Lusa em novembro do ano passado (2024) pelo presidente da Federação Portuguesa de Padel, Ricardo Oliveira. E a tendência é para crescer. Aliás, é sabido que Cristiano Ronaldo gosta de jogar com amigos e está a apostar na modalidade em várias frentes, recentemente comprou o Lisbon Rackett Center, um clube de ténis, padel e squash situado no lisboeta bairro de Alvalade, e investiu, em conjunto com o empresário Filipe de Botton na denominada Cidade do Padel, um espaço que irá nascer perto do Jamor, Oeiras, em 2026, com o apoio da federação portuguesa da modalidade e que irá ter 17 courts de padel e ocupará cerca de 15 mil metros quadrados. Internacionalmente, outro futebolista, Zlatan Ibrahimovic tem investido significativamente em campos de padel na Suécia – um país importante para a portuguesa Cork, como explicamos linhas à frente – e mesmo o ex-tenista Andy Murray está a apostar em courts no Reino Unido. Aqui ao lado, em Espanha, estudos da Deloitte e da app Playtomic (plataforma para reserva de jogos e treinos), indicam que naquele país existem cerca de quatro milhões de praticantes, dos quais 101 mil são federados.

De regresso à esplanada da loja da Cork Padel, Pedro Plantier, professor desta nova modalidade e um dos primeiros campeões nacionais de padel explica à Executive Digest como começou a marca das raquetes de cortiça. «Conheci o Nicolau Silva, que é técnico de próteses dentárias, em jogos de padel. E aconteceu-lhe aquilo que sucede a quem joga: partir raquetes durante os jogos. Mas como é muito habilidoso começou logo a arranjá-las e pouco tempo estava a receber pedidos de vários pontos do país para fazer o mesmo. Com isso começou a perceber o que estava, ou não estava, dentro das raquetes. Um dia, num torneio vi-o com uma raquete estranhíssima, construída por ele e experimentei. Disse-lhe que se ele conseguisse retirar as vibrações que a maioria das raquetes tem, podíamos avançar com um negócio. E assim foi». Mais tarde juntou-se Francisco Leite, que, como explica Executive Digest, «precisava de uma raquete e o Pedro, que me dava aulas de padel, sugeriu-me uma Stork». Sim, Stork (cegonha em inglês), o primeiro nome da Cork. A impossibilidade de registar o nome levou-os a escolher Cork Padel mas mantiveram a cegonha como símbolo. «Como o Francisco é diretor de uma agência de publicidade, pedi-lhe ajuda para contactar marcas para um torneio que estava a organizar no Clube 7, em Lisboa», avança Pedro. E com isso veio o passo seguinte, Nicolau e Pedro pediram a Francisco para trabalhar a marca a nível da comunicação. Mas como não tinham forma de pagar, Francisco entrou na sociedade da empresa. Mais tarde, com a necessidade de tratar de toda a parte jurídica, convidaram o quarto elemento da empresa– também jogador de padel, claro. Fernando Antas é o quarto sócio e chama a si o pelouro jurídico.

Diferente, pela cortiça
Entre as dezenas de modelos de outro tanto número de marcas de raquetes de padel no mercado as Cork destacam-se. São as únicas a utilizar a cortiça, uma decisão do artesão da equipa. Nicolau Silva estava no aeroporto de Lisboa e viu uma loja só com produtos feitos em cortiça e teve a ideia de lançar a primeira raquete neste material carregado de portugalidade, mas muito difícil de trabalhar, «nem ele [Nicolau] sabia o quanto», elucida Pedro Plantier. Todas as raquetes da Cork são construídas com 40% em cortiça, com «uma folha de cortiça que tem uma grande aderência, o que ajuda o desempenho em jogo», explica.
Meses mais tarde desenvolveram a tecnologia anti vibração. Para tentar contrariar o que todas as raquetas fazem: vibrar, «a saída da bola é fruto da vibração da raqueta, só que isso pode levar a lesões. Assim, na construção da raquete o Nicolau conseguiu encontrar um equilíbrio através de qualidade de matérias-primas, e percebeu, por exemplo, que dentro das raquetas não pode haver espaços vazios», acrescenta Pedro.
Assim, a primeira raquete nasceu em 2016, depois disso foram testando os protótipos e fazendo a “evangelização” da marca nos locais onde Pedro dava aulas. «Foi o melhor estudo de mercado, qualitativo e quantitativo, e isso fez-nos ir melhorando muito a produção», acrescenta Francisco Leite.
Mas nem tudo foi fácil, sobretudo porque a um nível mais exigente, para jogadores profissionais, as raquetes eram demasiado moles. Mais testes e alguns protótipos depois conseguiram contornar o problema e passaram a ser usadas por atletas profissionais conhecidos no meio, como Miguel Oliveira e Vasco Pascoal (campeão nacional) e estão hoje nas mãos da dupla de jogadores mais bem posicionados num ranking mundial: Nuno e Miguel Deus. Jogadores do Sporting Clube de Portugal que ocupam o 60º e 70º do ranking da modalidade, respetivamente. Além disso, a Cork veste hoje a seleção nacional de padel, equipa que no último mundial ficou em terceiro lugar no segmento masculino e na quarta posição nas mulheres. «Somos a marca oficial da seleção que é equipada por nós. em todos os escalões. Foi um investimento enorme que fizemos», indica Francisco Leite.

Feitas à mão e sustentáveis
«Consideramo-nos o Rolex das raquetes de padel», avança o publicitário. Francisco reforça a ideia: «o processo de produção é incrível…o nível de pormenor, a atenção…todas as raquetes têm sete horas de trabalho manual». No total, o processo de fabrico demora uma semana a serem construídas numa nave industrial em Fátima – o espaço que alberga os atuais 25 funcionários da Cork, divididos entre produção, logística, marketing, comercial e pós-venda.
Um dos próximos desafios é ter a raquete “mais sustentável do mercado”, e para tal estão a testar o uso de uma goma biológica feita a partir da cana-de-açúcar.
Durante a conversa nota-se que há muito paixão pelo que construíram, mas a pergunta impõe-se, a Cork é negócio? «Agora é!», diz Francisco perentório, acrescentando, «embora estejamos muito focados no crescimento da própria marca, do negócio, grande parte dos lucros a reinvestido». 2024 foi o melhor ano da Cork, venderam 9888 raquetes, para 2025 esperam duplicar esse número.
O crescimento do padel
Regressando ao desporto que sustenta a Cork, Francisco tem uma resposta para o crescimento exponencial, e aponta ao fato de ser um desporto que de início é fácil para toda a gente e tem uma grande vertente social. «Começa na combinação da partida, no jogo em si e termina com os jogadores e jogadoras a beberem uns copos de cerveja. E todos os fins de semana há torneios no país inteiro, para além que continuam a inaugurar novos campos de norte a sul». Pedro Plantier acrescenta: «é um desporto que pode ser jogado dos dez aos oitenta anos».
O crescimento de praticantes de padel é um fenómeno internacional. Por isso mesmo, a marca portuguesa está presente em 52 países com uma rede de revendedores. Essa exportação das raquetes de cortiça fá-los recordar de um dos períodos mais difíceis da empresa: a pandemia do covid-19. «Estávamos a começar a trabalhar na fábrica e o mundo parou. Foi duríssimo. Mas trouxe-nos a oportunidade do mercado sueco, eles foram o único país da União Europeia que não fechou durante a pandemia e compraram-nos toda produção», explicam. Quanto ao futuro, têm por certo que não querer massificar a produção. Aliás, esse é o grande desafio no futuro gerir a necessidade versus a capacidade de entrega. Francisco que, para já, não querem abrir o capital da empresa, exemplifica «costumo dizer que isto é como uma viagem de Lisboa ao Porto e ainda só chegámos a Aveiras, ainda nos faltam muitos quilómetros pela frente». E, claro, o crescimento da Cork será feito à boleia do padel, que para além de desporto é um negócio em ascensão.




