Mais de mil crianças sozinhas e centros 3.000% acima da capacidade: o drama que Ceuta enfrenta agora

Governo de Ceuta estima que cerca de mil crianças e adolescentes já estejam integrados no sistema de proteção de menores

Francisco Laranjeira

Depois da entrada em massa de dezenas de milhares de migrantes em Ceuta, as autoridades espanholas enfrentam agora um dos maiores desafios da crise: proteger mais de mil menores que chegaram sozinhos à cidade e garantir-lhes abrigo, alimentação e acompanhamento.

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Segundo o jornal espanhol ’20 Minutos’, o Governo de Ceuta estima que cerca de mil crianças e adolescentes já estejam integrados no sistema de proteção de menores. No entanto, admite que muitos outros continuam por localizar e poderão estar escondidos em bairros ou zonas rurais da cidade.

“Ainda há muitos menores espalhados por diferentes bairros e nas ruas de Ceuta”, reconheceu o porta-voz do governo local, Alejandro Ramírez, citado pelo jornal.

A situação levou várias organizações humanitárias a lançar um alerta. A Save the Children considera prioritário identificar rapidamente todas as crianças e encaminhá-las para locais seguros, onde possam receber cuidados especializados e apoio psicológico.

Ao contrário dos adultos, estes menores beneficiam de um regime jurídico específico. Não podem ser devolvidos automaticamente a Marrocos e cada caso tem de ser analisado individualmente, tendo sempre como princípio o superior interesse da criança.

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O maior problema é a falta de capacidade para os acolher. Os centros de proteção de Ceuta foram concebidos para receber apenas 29 menores, mas albergam atualmente cerca de mil, o que representa uma taxa de ocupação próxima dos 3.000%.

As autoridades locais admitem que o sistema entrou em colapso. Além do centro de acolhimento La Esperanza, foram abertos espaços provisórios em Tarajal Nueva Esperanza e Piniers, estando prevista a adaptação de mais duas escolas para receber até 500 pessoas adicionais.

Perante a dimensão da crise, o Governo espanhol anunciou uma verba extraordinária de 25 milhões de euros para apoiar o acolhimento destes menores, montante que se soma aos 5,5 milhões já atribuídos anteriormente à cidade.

O futuro destas crianças continua, contudo, por definir. A legislação espanhola prevê que possam ser distribuídas por outras comunidades autónomas no prazo máximo de 15 dias, mas essa hipótese enfrenta forte oposição de várias regiões governadas pelo Partido Popular, que acusam o executivo de Pedro Sánchez de tentar repartir as consequências da crise migratória.

Em paralelo, cresce o desespero do outro lado da fronteira. Segundo fontes policiais citadas pelo 20 Minutos, pelo menos 44 cidadãos marroquinos continuam desaparecidos, a maioria menores de idade ou jovens.

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Nos últimos dias, dezenas de famílias deslocaram-se até à fronteira de Ceuta para tentar encontrar filhos, irmãos ou netos desaparecidos desde a entrada em massa de migrantes. Nas redes sociais multiplicam-se fotografias e pedidos de ajuda, enquanto a Guarda Civil abriu um gabinete específico para receber participações de desaparecimentos e acelerar a identificação das crianças.

É precisamente esse lado humano que começa agora a marcar a pior crise migratória da história de Ceuta: milhares de pessoas conseguiram atravessar a fronteira, mas centenas de crianças continuam sem saber quando — ou se — poderão voltar a reunir-se com as suas famílias.

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