“Se entrares, não voltas”: a desinformação que desencadeou a corrida a Ceuta

A entrada em massa de migrantes em Ceuta começou com pequenos grupos, mas rapidamente ganhou uma dimensão sem precedentes depois de vídeos virais, mensagens enganosas e interpretações erradas de uma decisão judicial terem circulado nas redes sociais.

Executive Digest

A entrada em massa de migrantes em Ceuta começou com pequenos grupos, mas rapidamente ganhou uma dimensão sem precedentes depois de vídeos virais, mensagens enganosas e interpretações erradas de uma decisão judicial terem circulado nas redes sociais.

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O movimento, que inicialmente envolvia apenas algumas dezenas de jovens, transformou-se numa travessia em larga escala. Na passada quinta-feira, dezenas de milhares de pessoas tentaram chegar a nado ao enclave espanhol situado no Norte de África.

Segundo a Reuters, mais de 80 pessoas morreram afogadas ou esmagadas durante uma debandada, de acordo com os números oficiais.

Decisão do Supremo foi interpretada de forma errada

Um dos principais fatores que alimentou as tentativas de entrada foi uma decisão publicada pelo Supremo Tribunal de Espanha cerca de três semanas antes.

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O tribunal estabeleceu que os migrantes intercetados no mar não poderiam ser imediatamente devolvidos na fronteira de Ceuta e Melilla.

A decisão, contudo, não impedia que essas pessoas fossem posteriormente sujeitas a um processo de retorno sumário, explicaram especialistas jurídicos citados pela agência.

Nas redes sociais começou, porém, a circular uma versão muito mais ampla e incorreta: a ideia de que qualquer pessoa que conseguisse chegar a Ceuta, por terra ou por mar, já não poderia ser enviada de volta.

Num dos vídeos partilhados, um jovem marroquino gravado numa rua na Alemanha afirmava que quem entrasse em Ceuta não seria devolvido. A publicação original acabou por ser apagada, mas continuou a circular através de outras contas.

Mensagens falsas anunciaram prazo de regularização

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A desinformação não se limitou à decisão do Supremo.

Desde 7 de julho, várias publicações nas plataformas da Meta alegaram falsamente que o programa espanhol de regularização de imigrantes em situação irregular terminaria a 30 de julho. Uma dessas mensagens reuniu mais de 28 mil gostos.

Informações semelhantes voltaram a circular durante as primeiras horas desse dia, aumentando a perceção de que existia uma janela curta para entrar em território espanhol.

Na realidade, o programa abrangia pessoas que já se encontravam em Espanha havia pelo menos cinco meses antes do final de 2025. As candidaturas podiam ser apresentadas entre abril e 30 de junho.

O Governo espanhol recebeu mais do dobro dos 500 mil pedidos inicialmente esperados, mas nunca prolongou o prazo.

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Imagens de chegadas felizes incentivaram novas travessias

Até 23 de julho, cerca de cem pessoas tinham conseguido chegar a Ceuta, segundo o jornal local El Faro de Ceuta.

O meio de comunicação relacionou essas chegadas com a decisão do Supremo, uma interpretação posteriormente repetida por responsáveis espanhóis e marroquinos, que acusaram redes de tráfico de pessoas de explorar a informação falsa difundida online.

As imagens divulgadas pelo jornal tiveram, contudo, um efeito inesperado.

Vídeos de jovens a sorrir, a fazer sinais de vitória e a celebrar a chegada a Ceuta foram vistos por outros potenciais migrantes como uma demonstração de que a travessia era possível e de que seriam bem recebidos.

De acordo com a Reuters, migrantes entrevistados pela agência admitiram que essas imagens contribuíram para a decisão de centenas de pessoas tentarem atravessar a nado.

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Vídeo de duas mulheres ganhou grande circulação em Marrocos

O movimento voltou a ganhar força a 28 de julho, depois de El Faro publicar uma nova reportagem com a mensagem “Ceuta não aguenta mais”.

As imagens mostravam duas jovens encharcadas, mas sorridentes, a caminhar pelas ruas da cidade depois de terem conseguido completar a travessia.

O vídeo foi amplamente visto em Marrocos e teve um impacto significativo entre pessoas que ponderavam fazer o mesmo percurso, segundo três migrantes ouvidos pela Reuters.

No dia seguinte, as redes sociais foram inundadas por novos conteúdos.

Influenciadores filmaram-se a nadar para Ceuta

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Vários influenciadores com dezenas de milhares de seguidores começaram a publicar vídeos das próprias travessias.

Alguns usavam fatos de neoprene, boias e outros equipamentos para nadar até Ceuta.

Mounim Belhaj, tratador de cães e influenciador com 31 mil seguidores no Instagram, afirmou que decidiu avançar depois de ver reportagens sobre migrantes acolhidos no centro de receção da cidade.

Segundo explicou, os meios de comunicação espanhóis mostravam um tratamento positivo dado a quem chegava, o que terá incentivado outras pessoas a partir.

Nem todos os vídeos correspondiam, contudo, à realidade.

Uma das gravações, vista milhões de vezes, mostrava um jovem com um bastão para selfies a nadar em direção a terra. Algumas publicações afirmavam que se dirigia a Ceuta, mas as imagens tinham sido gravadas anteriormente numa cidade da costa atlântica de Marrocos.

Mais de 70 mil pessoas entraram num só dia

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Na manhã seguinte, o número de pessoas a tentar atravessar aumentou de forma abrupta.

As autoridades espanholas indicaram que mais de 70 mil pessoas entraram irregularmente em Ceuta.

Os grupos de mensagens terão igualmente desempenhado um papel importante na mobilização.

Um relatório do analista de segurança espanhol Chema Gil identificou dois grupos públicos de WhatsApp, administrados através de números de telefone argelinos, que reuniam cerca de 3700 membros.

Nesses espaços eram partilhadas informações sobre percursos e conselhos para chegar a Ceuta.

Algumas mensagens pressionavam os participantes a avançar rapidamente, alertando que quem não se deslocasse naquele dia acabaria por se arrepender.

O analista não conseguiu identificar os administradores e a Reuters não confirmou de forma independente a autenticidade dos grupos, que foram entretanto eliminados.

Fome e hostilidade levaram milhares a regressar

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Na noite seguinte à entrada em massa, a maioria das pessoas começou a regressar a Marrocos.

A falta de alimentos e o ambiente hostil em Ceuta contribuíram para essa decisão.

Mounim Belhaj reconheceu posteriormente que a deslocação tinha sido um erro e afirmou que encontrou apenas fome.

Milhares de pessoas permanecem, no entanto, retidas na cidade, sobretudo migrantes provenientes da África subsaariana e menores não acompanhados, que não podem ser deportados de imediato.

A crise mostrou como uma combinação de informação falsa, vídeos descontextualizados, mensagens virais e interpretações erradas de decisões judiciais pode transformar pequenos movimentos migratórios numa mobilização de grande escala.

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