Quem é Mikhail Fedorov, o ministro que Zelensky afastou e levou milhares de ucranianos para a rua em protesto?

Figuras militares, representantes da sociedade civil e antigos diplomatas manifestaram publicamente o seu descontentamento com a decisão do presidente Volodymyr Zelensky

Francisco Laranjeira

A demissão de Mikhail Fedorov do cargo de ministro da Defesa da Ucrânia desencadeou uma reação inédita desde o início da invasão russa.

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Milhares de pessoas saíram às ruas de Kiev e de outras cidades para exigir o seu regresso, enquanto figuras militares, representantes da sociedade civil e antigos diplomatas manifestaram publicamente o seu descontentamento com a decisão do presidente Volodymyr Zelensky, frisou o ‘El Español’.

Mas quem é, afinal, o homem cuja saída provocou uma das maiores ondas de contestação ao Governo ucraniano desde o início da guerra?

Do marketing político ao “Estado no telemóvel”

Aos 35 anos, Fedorov já era uma das figuras mais influentes da política ucraniana.

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Entrou para a equipa de Zelensky em 2019, depois de coordenar a estratégia digital da campanha presidencial que levou o antigo ator e humorista ao poder.

Como recompensa, assumiu o recém-criado Ministério da Transformação Digital, onde lançou o Diia, uma aplicação que ficou conhecida como o “Estado no telemóvel”.

A plataforma permite aos cidadãos tratar de dezenas de serviços públicos através do smartphone, desde documentos de identificação ao registo de veículos ou processos administrativos, sendo hoje utilizada por cerca de 23 milhões de ucranianos.

O homem que transformou drones numa arma decisiva

A invasão russa, em fevereiro de 2022, mudou por completo a missão de Fedorov.

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Foi ele quem apelou publicamente a Elon Musk para disponibilizar a rede Starlink à Ucrânia, garantindo comunicações essenciais para as forças armadas.

Também liderou a aposta massiva nos drones, promovendo um programa que acelerou a produção nacional e transformou estes equipamentos num dos principais trunfos militares de Kiev.

Quando assumiu o Ministério da Defesa, no início deste ano, a Ucrânia já tinha passado de apenas sete fabricantes de drones para mais de 500.

Durante os poucos meses em que liderou a pasta, acelerou as compras de equipamento militar, reformou o sistema de aquisições, reforçou a produção de armamento e anunciou o teste bem-sucedido de um míssil balístico significativamente mais barato do que os modelos existentes.

Porque é que Zelensky o afastou?

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O Governo não apresentou qualquer explicação oficial para a demissão.

No entanto, vários analistas ucranianos admitem que a decisão poderá ter tido mais motivações políticas do que propriamente militares.

Fedorov era o único ministro que permanecia no Executivo desde a chegada de Zelensky ao poder, em 2019, e o seu prestígio junto da opinião pública foi crescendo ao ponto de ser apontado como potencial candidato a primeiro-ministro.

Ao mesmo tempo, mantinha divergências com o comandante das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi, sobre a reforma do setor da Defesa e, segundo a imprensa ucraniana, também entrou em conflito com membros do Governo devido à gestão das despesas militares e à alegada recusa em aceitar práticas consideradas pouco transparentes.

Nenhuma destas alegações foi confirmada oficialmente.

Protestos inéditos em plena guerra

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A reação à sua saída surpreendeu até os observadores mais experientes.

No dia seguinte ao anúncio da demissão, milhares de pessoas concentraram-se no centro de Kiev para pedir o seu regresso, numa manifestação rara num país sob lei marcial.

Os protestos estenderam-se a outras cidades e motivaram mesmo a demissão, em sinal de solidariedade, do vice-comandante da Força Aérea ucraniana, Pavlo Yelizarov, que alertou para as consequências da saída de Fedorov para o esforço de guerra.

Um possível rival de Zelensky?

Apesar de nunca ter dado sinais de querer desafiar o presidente, a popularidade de Fedorov alimenta especulações sobre o seu futuro político.

Analistas em Kiev recordam que Zelensky já afastou anteriormente figuras muito populares, como o antigo comandante das Forças Armadas, Valerii Zaluzhnyi, nomeado embaixador em Londres depois de deixar o cargo.

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Sem eleições enquanto vigorar a lei marcial, o futuro de Fedorov permanece em aberto.

Mas a forma como deixou o Governo poderá ter produzido o efeito inverso ao desejado: transformar um ministro discreto num símbolo de competência, modernização e combate à corrupção, atributos que muitos ucranianos poderão valorizar quando o país voltar às urnas.

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