Ex-secretário da Defesa dos EUA avisa Trump: guerra contra o Irão não será ganha apenas com bombardeamentos

O antigo secretário da Defesa dos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Donald Trump considera que a atual estratégia militar norte-americana contra o Irão dificilmente produzirá os resultados pretendidos.

Pedro Zagacho Gonçalves

O antigo secretário da Defesa dos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Donald Trump considera que a atual estratégia militar norte-americana contra o Irão dificilmente produzirá os resultados pretendidos apenas através da intensificação dos ataques aéreos. Mark Esper defende que Washington deverá apostar numa estratégia de pressão económica abrangente sobre Teerão para forçar a reabertura do Estreito de Ormuz e alcançar um acordo duradouro, alertando simultaneamente para os custos militares, económicos e estratégicos que um conflito prolongado poderá acarretar para os Estados Unidos.

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As declarações surgem numa altura em que a administração Trump voltou a intensificar os ataques contra alvos iranianos. Na quarta-feira, as forças norte-americanas realizaram novos bombardeamentos e o presidente dos EUA anunciou que pretende aumentar a pressão militar nas próximas semanas para obrigar a República Islâmica a aceitar um novo entendimento.

Contudo, numa entrevista concedida ao Financial Times durante um encontro de especialistas em segurança nacional realizado em Aspen, Mark Esper mostrou-se cético quanto à eficácia dessa estratégia.

“Não estou confiante de que, se retomássemos os bombardeamentos como fizemos há alguns meses e os mantivéssemos durante um período prolongado, isso provocasse uma grande mudança”, afirmou.

Segundo o antigo responsável do Pentágono, uma campanha aérea prolongada dificilmente alterará a posição iraniana relativamente ao controlo do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do comércio energético mundial.

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Estreito de Ormuz continua no centro da crise
O agravamento do conflito ocorre poucas semanas depois de Donald Trump ter declarado terminado o cessar-fogo temporário com o Irão, acusando Teerão de violar o memorando de entendimento que previa a livre circulação marítima no Estreito de Ormuz enquanto decorriam negociações para um acordo mais abrangente.

Antes do início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão, cerca de 20% de todo o petróleo comercializado mundialmente atravessava esta passagem estratégica entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico.

Após o início da ofensiva militar, o Irão restringiu significativamente o tráfego marítimo naquela zona, situação que ainda hoje permanece longe da normalidade, alimentando receios de perturbações prolongadas no abastecimento energético internacional.

Esper defende pressão económica em vez de escalada militar
Para Mark Esper, Washington dispõe essencialmente de duas opções para pressionar Teerão.

“Como se exerce pressão? Uma opção é recorrer a uma ofensiva militar total. A outra é estrangular economicamente o Irão”, afirmou.

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O antigo secretário da Defesa acredita que uma estratégia baseada em sanções económicas reforçadas e isolamento financeiro poderá revelar-se mais eficaz do que a continuação dos bombardeamentos.

No entanto, reconhece que esse caminho exigiria tempo, disciplina e coordenação internacional.

Durante o painel em Aspen, Esper explicou que essa abordagem necessitaria de “tempo, paciência e disciplina”, bem como do apoio dos aliados dos Estados Unidos para produzir resultados concretos.

Ao mesmo tempo, admitiu que essa estratégia teria custos para os próprios norte-americanos.

“O custo para nós será termos preços dos combustíveis mais elevados durante algum tempo”, reconheceu.

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Petróleo dispara e aumenta receio de nova vaga inflacionista
A instabilidade no Médio Oriente já está a produzir efeitos significativos nos mercados energéticos.

Desde o início de julho, o preço do petróleo Brent, referência internacional, valorizou cerca de 16%, situando-se atualmente próximo dos 85 dólares por barril.

Especialistas do setor petrolífero alertam que os níveis globais de reservas de crude já se encontram particularmente reduzidos e avisam que um bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz poderá provocar uma nova escalada dos preços, eventualmente acima dos 100 dólares por barril, ultrapassando os máximos registados nas fases iniciais da guerra.

A pressão faz-se sentir igualmente nos Estados Unidos.

Dados oficiais divulgados na quarta-feira pelo Governo norte-americano mostram que as reservas estratégicas de petróleo voltaram a diminuir na última semana, atingindo o nível mais baixo desde 1984.

Ao mesmo tempo, os preços da gasolina voltaram a subir devido à redução da oferta disponível, aumentando os receios de uma nova aceleração da inflação, depois de o crescimento dos preços ter abrandado em junho.

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Antigo responsável teme impacto na capacidade militar dos EUA
Mark Esper alertou ainda para outro risco que considera particularmente preocupante: o desgaste das capacidades militares norte-americanas.

O antigo secretário da Defesa, que foi afastado por Donald Trump após as eleições presidenciais de 2020, questiona até que ponto os Estados Unidos poderão sustentar uma guerra prolongada sem comprometer a sua prontidão militar noutras regiões do mundo.

“Qual é o custo para nós em termos de prontidão, munições e reservas?”, questionou durante a entrevista.

Segundo analistas militares norte-americanos, o Departamento da Defesa já consumiu dezenas de milhares de milhões de dólares e quantidades muito significativas de armamento numa guerra que continua sem perspetivas claras de resolução.

Esper sublinha que a sua maior preocupação estratégica permanece a crescente influência da China.

“A minha maior preocupação global é a China”, afirmou.

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Dois objetivos para medir o sucesso da estratégia
Na conferência realizada em Aspen, Mark Esper explicou que avaliaria o sucesso da estratégia norte-americana com base em dois critérios fundamentais.

O primeiro seria o restabelecimento da situação anterior ao conflito no Estreito de Ormuz, permitindo o regresso da livre circulação marítima naquela importante rota comercial.

O segundo passaria pela celebração de um novo acordo nuclear com o Irão.

Segundo Esper, esse entendimento deveria ser “pelo menos tão bom como — mas provavelmente melhor do que” o acordo negociado durante a administração de Barack Obama, posteriormente abandonado por Donald Trump.

Condoleezza Rice também defende mais pressão económica
A antiga secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice, que integrou a administração de George W. Bush durante a guerra do Iraque e participou igualmente no painel de Aspen, manifestou uma posição semelhante à de Mark Esper.

Rice defendeu o reforço da pressão económica sobre Teerão, argumentando que o enfraquecimento interno do regime poderá produzir resultados mais eficazes do que uma escalada militar permanente.

Segundo afirmou, os Estados Unidos deverão aumentar a pressão económica e “deixá-los enfrentar a sua economia debilitada”, recordando que muitos dos principais cientistas nucleares iranianos foram mortos e que acredita existirem profundas divisões dentro do próprio Governo iraniano.

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Para a antiga chefe da diplomacia norte-americana, será precisamente a evolução dessas fragilidades económicas e políticas internas que poderá acabar por determinar o rumo do conflito nos próximos meses.

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