A guerra no Irão está a caminho de se tornar uma nova Ucrânia?

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, muitos analistas anteciparam um conflito breve, terminado por uma vitória rápida de Moscovo ou por um acordo negociado

Francisco Laranjeira

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, muitos analistas anteciparam um conflito breve, terminado por uma vitória rápida de Moscovo ou por um acordo negociado. Mais de quatro anos depois, a guerra tornou-se prolongada, alternando ofensivas militares, sanções e tentativas de diálogo. Agora, o conflito com o Irão começa a levantar uma pergunta semelhante: estará Washington a entrar noutra guerra sem fim à vista?

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Segundo uma análise do ‘El Economista’, a administração de Donald Trump esperava que a pressão militar sobre Teerão produzisse resultados rápidos. No entanto, os ataques, as ameaças e as negociações continuam a suceder-se, num padrão cada vez mais semelhante ao observado na Ucrânia.

A comparação não significa que os dois conflitos sejam idênticos. Mas ambos mostram como uma crise inicialmente apresentada como limitada pode transformar-se num confronto prolongado, no qual nenhuma das partes consegue alcançar uma vitória decisiva nem aceitar facilmente um compromisso.

Mercados aprendem a viver com guerras prolongadas

Paradoxalmente, a duração de um conflito pode reduzir parte da instabilidade inicial nos mercados financeiros. A fase mais aguda tende a provocar quedas nas bolsas, subidas dos preços da energia e receios de ruturas no comércio. Com o tempo, empresas, governos e investidores encontram formas de adaptação.

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Foi isso que aconteceu com a Rússia. Moscovo criou rotas alternativas para contornar as sanções, enquanto o petróleo e outras matérias-primas russas continuaram a chegar aos mercados internacionais. Outros países produtores compensaram parte das falhas de abastecimento e até o gás russo manteve alguma circulação.

O ‘El Economista’ considera que algo semelhante começa a acontecer no Irão. Apesar da troca de mísseis, bombas e drones, as negociações prosseguem, os navios continuam a atravessar o Estreito de Ormuz e a produção de petróleo iraniana não foi interrompida por completo.

Enquanto o barril permanecer entre 70 e 80 dólares — aproximadamente entre 60 e 69 euros — este cenário poderá continuar a ser relativamente suportável para os mercados. A subida da energia é compensada, em parte, pelos resultados financeiros das grandes empresas dos Estados Unidos.

Trump corre contra o calendário eleitoral

A principal diferença está no tempo político disponível. Trump precisa de mostrar resultados antes das eleições intercalares de novembro, sobretudo se o preço dos combustíveis começar a pesar no orçamento dos eleitores americanos.

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Um conflito prolongado pode ser tolerado pela Casa Branca enquanto o petróleo permanecer abaixo dos 80 dólares por barril, cerca de 69 euros. Acima desse nível, o impacto nos preços dos combustíveis e na inflação tornar-se-ia mais difícil de gerir politicamente.

O cenário mais provável poderá, assim, passar pela continuação das negociações, acompanhadas por ameaças e ataques limitados. É a estratégia de pressão máxima frequentemente associada a Trump: manter a força militar como ameaça, sem declarar formalmente uma guerra total.

Uma operação no Estreito de Ormuz seria a aposta mais arriscada

Outra possibilidade seria uma intervenção militar destinada a controlar o Estreito de Ormuz e garantir a passagem dos navios. Uma operação deste tipo poderia provocar uma subida imediata do petróleo, seguida de uma descida acentuada se os Estados Unidos conseguissem assegurar rapidamente a navegação.

O risco, porém, seria muito elevado. Um fracasso militar, sobretudo se envolvesse forças terrestres, poderia transformar o conflito numa crise prolongada e dispendiosa, mais próxima da experiência do Vietname do que da guerra na Ucrânia.

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Também existe a hipótese de Washington manter o atual embargo e aumentar gradualmente a pressão económica. Apesar de Teerão procurar apresentar-se como resistente às sanções, o país necessita de recuperar fundos bloqueados e de aumentar as exportações de petróleo.

Para os mercados, quase todos os cenários que evitem uma interrupção prolongada do fornecimento energético podem ser absorvidos. Um acordo, uma retirada americana ou uma operação militar bem-sucedida tenderiam a fazer baixar os preços do petróleo. O pior resultado seria uma intervenção falhada que comprometesse a navegação em Ormuz.

A questão central já não é, por isso, saber se Trump consegue lançar uma ofensiva rápida, mas se conseguirá impedir que o Irão se transforme num novo conflito crónico. Tal como aconteceu na Ucrânia, a guerra poderá deixar de ser uma emergência temporária e converter-se numa realidade com a qual governos, empresas e mercados aprendem a viver.

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