“A confiança terá de ser construída”: portugueses confiam na IA para escolher um carro, mas estarão preparados para a deixar conduzir?

Pedro Soares, Head of Sales do Standvirtual, considera que a abertura dos portugueses à inteligência artificial na compra de automóveis não significa que estejam já preparados para lhe entregar o volante

Automonitor

Quase sete em cada dez portugueses estão disponíveis para utilizar inteligência artificial na compra do próximo automóvel. Mas uma coisa é confiar num algoritmo para recomendar um modelo, comparar preços ou ajudar a escolher uma motorização. Outra, bastante diferente, é aceitar que a tecnologia assuma o volante.

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“São níveis de confiança diferentes”, explica à ‘Executive Digest’ Pedro Soares, Head of Sales do Standvirtual. Quando a inteligência artificial intervém na compra de um automóvel, funciona sobretudo como uma ferramenta de recomendação e apoio à decisão. Na condução autónoma, porém, entram diretamente em causa a segurança dos ocupantes, o comportamento na estrada e a entrega de parte do controlo do veículo a um sistema automático.

“A confiança terá de ser construída de forma gradual, através de testes, legislação e experiências positivas”, sublinha o responsável.

A questão ganha atualidade com a criação, em Portugal, de um regime específico para testar sistemas automáticos de condução em vias públicas. O diploma abre caminho a ensaios com diferentes níveis de automação, mediante autorização do Instituto da Mobilidade e dos Transportes, e introduz exigências reforçadas de segurança, supervisão, seguro e registo de dados.

Os testes estarão sujeitos a condições mais restritivas do que a circulação comum. Os limites de velocidade serão reduzidos em 20 quilómetros por hora, os condutores e operadores terão de possuir carta há pelo menos seis anos e não poderão exercer estas funções durante mais de três horas por dia.

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Os veículos deverão ainda dispor de sistemas capazes de registar a velocidade, a localização, os momentos em que a condução automática é ativada ou desligada e quem detém o controlo em cada instante. Os operadores terão de apresentar planos de segurança e cibersegurança e comunicar ao IMT acidentes, incidentes, intervenções inesperadas e queixas de outros utilizadores da estrada.

Recomendar um carro não é o mesmo que assumir o volante

Para Pedro Soares, a disponibilidade dos portugueses para recorrer à IA na compra automóvel não deve ser confundida com uma aceitação imediata da condução autónoma.

“O automóvel continua a ser um bem de valor elevado e existem muitas dúvidas durante o processo de compra: qual é o preço certo, qual a motorização mais adequada, que combustível escolher ou que tipo de veículo responde melhor à utilização de cada pessoa”, explica.

Foi neste contexto que 69% dos portugueses disseram estar abertos a utilizar inteligência artificial. A tecnologia pode reduzir a complexidade da escolha e ajudar o consumidor a filtrar um mercado com milhares de modelos, versões, motorizações e níveis de equipamento.

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“Quando passamos para a condução autónoma, há naturalmente mais reticências, porque já estamos a falar de segurança e de entregar à tecnologia parte do controlo do veículo”, acrescenta.

O novo regime de testes poderá ajudar a reduzir essa distância, mas a mudança não deverá acontecer de forma imediata. O responsável compara esta transição com a adoção dos automóveis elétricos, que exigiu tempo, contacto com os veículos, evolução das infraestruturas e alterações na perceção dos consumidores.

“Não acontece de um dia para o outro: é uma questão de confiança, de testes, de enquadramento legal e de contacto progressivo com a tecnologia”, afirma.

“Existe curiosidade, mas ainda com algumas reticências”

O consumidor português não rejeita a inovação automóvel, mas tende a ser mais prudente quando a tecnologia interfere diretamente com hábitos de condução ou com a segurança.

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“Diria que existe curiosidade, mas ainda com algumas reticências. E isso é perfeitamente natural”, considera Pedro Soares.

A experiência internacional poderá ser determinante para mudar essa perceção. Em várias cidades dos Estados Unidos, serviços de transporte sem condutor já circulam em ambiente urbano, permitindo que os passageiros utilizem veículos totalmente autónomos em deslocações quotidianas.

“O caso da Waymo, nos Estados Unidos, é um bom exemplo. Muitos portugueses que visitam estes mercados acabam por experimentar este tipo de solução e regressam com relatos de uma experiência muito positiva e diferenciadora”, refere.

O contacto direto poderá tornar a tecnologia menos abstrata. Enquanto a condução autónoma for vista apenas através de notícias, demonstrações ou promessas dos fabricantes, parte dos consumidores continuará a encará-la como uma ideia distante ou arriscada.

“Quando os consumidores experimentam estas soluções em outros mercados, muitas vezes percebem que a experiência é bastante mais natural e segura do que imaginavam”, sustenta.

A adoção deverá começar pelos chamados primeiros utilizadores, mais disponíveis para experimentar novas soluções e aceitar algum grau de incerteza. O público mais cauteloso deverá esperar pelos resultados dos testes, pela demonstração de segurança e pela consolidação das regras.

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“Como acontece com todos os produtos tecnológicos, existirão sempre os chamados early adopters, que estarão disponíveis para experimentar primeiro, e outros consumidores que precisarão de mais tempo e de mais provas. Acredito que os portugueses não serão diferentes.”

Testes, legislação e experiência

Pedro Soares identifica três fatores essenciais para transformar a curiosidade numa confiança real: testes, legislação e experiência.

“Primeiro, será necessário testar a tecnologia de forma consistente e em condições reais, demonstrando que funciona em segurança”, explica.

Os ensaios em estrada são particularmente relevantes porque expõem os sistemas a situações difíceis de reproduzir integralmente em ambientes controlados: obras, peões, ciclistas, condições meteorológicas adversas, sinalização temporária, comportamentos imprevisíveis de outros condutores e características específicas das vias portuguesas.

“Os testes em vias públicas são essenciais para que os consumidores percebam que não estamos apenas a falar de uma ideia de futuro, mas de uma tecnologia que já está a ser desenvolvida e utilizada em outros mercados”, afirma.

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O segundo elemento é a existência de regras claras. Para o responsável, a legislação terá de definir responsabilidades, limites operacionais e formas de atuação quando o sistema falha ou ocorre um acidente.

“Será fundamental existir um enquadramento legal claro, que defina responsabilidades e dê confiança tanto aos consumidores como às empresas.”

A atribuição de responsabilidades é uma das questões centrais da condução autónoma. Num veículo convencional, a responsabilidade recai geralmente sobre o condutor. Quando parte ou a totalidade da condução é assumida por um sistema, torna-se necessário determinar em que circunstâncias respondem o utilizador, o fabricante, o programador ou o operador responsável pelo ensaio.

O terceiro fator é a experiência. Quanto maior for o contacto da população com a tecnologia e mais conhecidos forem os resultados dos testes, mais fácil será avaliar os riscos sem depender apenas de receios ou expectativas.

“É uma adoção que acontecerá de forma progressiva. Primeiro através dos consumidores mais disponíveis para experimentar novas tecnologias e, depois, à medida que os resultados forem conhecidos e a confiança aumentar, junto de um público mais alargado.”

A tecnologia convence quando o benefício é claro

A experiência do Standvirtual sugere que os consumidores portugueses estão disponíveis para utilizar novas ferramentas quando percebem de forma concreta a vantagem que estas oferecem.

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“O consumidor português está disponível para aderir à tecnologia quando percebe claramente qual é o benefício”, afirma Pedro Soares. “Mas, quando essa inovação interfere diretamente com a segurança e com os hábitos de condução, é natural que seja mais cauteloso.”

A plataforma já utiliza inteligência artificial em diferentes fases da compra e venda de automóveis. Entre as ferramentas desenvolvidas estão a geração automática de descrições, a criação de anúncios a partir de fotografias ou vídeos e a transformação de anúncios tradicionais em conteúdos audiovisuais.

A tecnologia pode também ajudar os profissionais a responder aos contactos de potenciais compradores e permitir pesquisas mais conversacionais, ajustadas às necessidades de cada utilizador.

“O objetivo não é substituir a decisão das pessoas. É utilizar a IA para esclarecer dúvidas, reduzir a complexidade do processo e tornar a compra e a venda de um automóvel mais simples, rápida e informada”, esclarece.

Esta distinção será também importante na condução autónoma. A aceitação poderá crescer mais rapidamente se os consumidores sentirem que os sistemas complementam a sua capacidade e aumentam a segurança, em vez de lhes retirarem abruptamente o controlo.

Portugal quer ficar na linha da frente

O Governo vê os testes de condução autónoma não apenas como uma transformação no setor da mobilidade, mas também como uma oportunidade económica.

O novo enquadramento poderá criar condições para que fabricantes, empresas tecnológicas, universidades e centros de investigação testem soluções em território português. O objetivo passa por atrair investimento estrangeiro, desenvolver conhecimento e avaliar tecnologias em condições reais.

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“É importante que Portugal se mantenha na vanguarda e crie condições para que estes testes possam acontecer de forma segura e controlada”, defende Pedro Soares.

O responsável considera que o país deve acompanhar a evolução internacional, mesmo que a utilização quotidiana de veículos totalmente autónomos ainda não esteja próxima para a maioria dos consumidores.

“Ainda estamos numa fase inicial”, reconhece. Mas ficar de fora dos ensaios poderá significar perder investimento, conhecimento técnico e capacidade para influenciar as regras que irão moldar o setor.

O Standvirtual espera acompanhar essa evolução, embora Pedro Soares insista que a adoção deverá ocorrer ao ritmo dos consumidores.

“O Standvirtual estará naturalmente presente quando os consumidores estiverem confortáveis e preparados para adotar este tipo de tecnologia.”

A abertura à inteligência artificial já existe quando a tecnologia ajuda a escolher. Para passar da recomendação ao volante, porém, os portugueses exigirão mais do que inovação: terão de ver os sistemas funcionar, perceber quem responde por eventuais falhas e sentir que o controlo é entregue de forma segura.

Como resume Pedro Soares, a condução autónoma não será adotada apenas porque ficou tecnicamente disponível. “A confiança terá de ser construída.”

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