O submarino nuclear que devia durar para sempre está a desfazer-se no fundo do oceano — e já voltou a libertar radiação

Submarino foi descrito em 1993 por ambientalistas como uma “bomba-relógio” no fundo do Mar da Noruega

Francisco Laranjeira

A quase 1.700 metros de profundidade, ao largo da Noruega, repousa um submarino nuclear soviético que nunca deixou verdadeiramente de ser uma ameaça. O ‘Komsomolets’ afundou-se em 1989 com um reator nuclear e dois torpedos com ogivas de plutónio a bordo. Décadas depois, continua a libertar material radioativo para o mar.

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A ‘BBC’ recuperou agora a história deste submarino, que em 1993 já era descrito por ambientalistas como uma “bomba-relógio” no fundo do Mar da Noruega. Na altura, o receio era que a corrosão acabasse por libertar cerca de quatro quilos de plutónio altamente tóxico.

O ‘Komsomolets’ foi uma das máquinas mais ambiciosas produzidas pela União Soviética. Construído com um casco de pressão em titânio, conseguia operar a profundidades muito superiores às dos submarinos ocidentais e lançar mísseis a cerca de mil metros abaixo da superfície.

Mas o projeto que deveria simbolizar a superioridade tecnológica soviética acabou transformado num desastre. A 7 de abril de 1989, um incêndio deflagrou a bordo. A tripulação conseguiu levar o submarino até à superfície, onde permaneceu durante cinco horas antes de se afundar.

Dos 69 homens que seguiam no ‘Komsomolets’, 42 morreram. Quando o submarino atingiu o fundo, uma explosão abriu o casco de titânio e permitiu que a água salgada entrasse em contacto com os torpedos nucleares.

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As primeiras missões científicas encontraram partes da estrutura partidas e desfeitas. Segundo a descrição citada pela ‘BBC’, o casco tinha rebentado “como vidro”, aumentando o receio de que os materiais radioativos acabassem dispersos pelas correntes marítimas.

Durante anos, os cientistas dividiram-se sobre o risco real. Alguns alertavam para a possibilidade de contaminação das zonas de pesca, enquanto uma equipa internacional concluiu, em 1993, que era improvável que o naufrágio viesse a afetar significativamente os recursos pesqueiros.

Entre 1995 e 1996, equipas de engenharia em águas profundas selaram fissuras no casco e fecharam os tubos dos torpedos para conter os materiais radioativos. A operação foi concluída há 30 anos, em julho de 1996, mas o selante tinha precisamente uma duração estimada de três décadas.

Um relatório divulgado em março de 2026 pelas autoridades norueguesas concluiu que os torpedos continuam selados, mas o reator está a degradar-se. As libertações não são contínuas: surgem em episódios esporádicos, por pontos específicos do casco, incluindo uma conduta de ventilação de onde foi observada uma espécie de nuvem radioativa.

As autoridades norueguesas consideram que os níveis atuais não representam perigo para o ambiente marinho. Ainda assim, reconhecem que o combustível nuclear está em contacto direto com a água e continua a deteriorar-se.

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O risco futuro dependerá da corrosão, da quantidade de oxigénio na água, do estado das antigas vedações e da evolução das correntes. Essas alterações podem influenciar a velocidade com que o material radioativo é libertado e a possibilidade de entrar na cadeia alimentar através de organismos que vivem no fundo do mar e dos peixes.

O problema é que qualquer intervenção será extremamente difícil. A profundidade do naufrágio torna as operações complexas, caras e perigosas, e as autoridades norueguesas dizem não ter conhecimento de planos para uma nova ação de contenção.

Hans Kristensen, especialista em informação nuclear citado pela ‘BBC’, defende pelo menos uma nova expedição para avaliar o estado atual do submarino. O plutónio das ogivas tem uma meia-vida de cerca de 24 mil anos, o que significa que continuará a representar um risco durante um período praticamente ilimitado à escala humana.

O ‘Komsomolets’ foi construído para sobreviver onde nenhum outro submarino conseguia chegar. Acabou por encontrar no fundo do mar uma forma diferente de longevidade: a de um naufrágio nuclear que continua a degradar-se lentamente, sem que ninguém saiba ao certo quando deixará de ser apenas um perigo potencial.

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