Menos caças, aviões de vigilância e navios: Os quatro cortes dos EUA que preocupam a NATO

A administração do presidente norte-americano, Donald Trump, estará a preparar uma redução significativa da presença militar dos Estados Unidos na Europa, numa decisão que poderá afetar a capacidade operacional da NATO e reforçar a estratégia de Washington de concentrar recursos noutras regiões do mundo.

Pedro Zagacho Gonçalves

A administração do presidente norte-americano, Donald Trump, estará a preparar uma redução significativa da presença militar dos Estados Unidos na Europa, numa decisão que poderá afetar a capacidade operacional da NATO e reforçar a estratégia de Washington de concentrar recursos noutras regiões do mundo. A informação é avançada num relatório a que o The New York Times teve acesso, que cita dois responsáveis europeus não identificados.

Segundo a publicação, o Pentágono terá informado os aliados, através de um documento consultado pelo The New York Times, sobre planos para diminuir a presença militar norte-americana no continente europeu. Embora as medidas ainda não tenham sido anunciadas oficialmente, responsáveis europeus afirmam que poderão entrar em vigor mais cedo do que muitos aliados esperavam.

Quatro cortes poderão afetar meios essenciais da NATO
De acordo com o relatório, existem quatro áreas principais onde os Estados Unidos equacionam reduzir os seus meios militares na Europa.

A primeira passa pela diminuição do número de aviões de combate F-16 e F-15E destacados no continente, passando de cerca de 150 para aproximadamente 100 aeronaves.

A segunda medida prevê a redução da frota de aeronaves de reconhecimento marítimo, que passaria de 26 para apenas 15 aparelhos.

Continue a ler após a publicidade

Em terceiro lugar, Washington pondera retirar os oito aviões de reabastecimento aéreo que atualmente apoiam operações na Europa.

Por último, o plano contempla a reafetação de um submarino equipado com capacidade de lançamento de mísseis, bem como de um porta-aviões, respetivos navios de escolta e aeronaves associadas, para outras regiões estratégicas.

Segundo a Newsweek, esta combinação de medidas poderá limitar a capacidade da NATO para realizar missões de vigilância e ataques de longo alcance num contexto de persistentes tensões com a Rússia.

Continue a ler após a publicidade

Especialistas admitem desafios, mas afastam cenário de enfraquecimento abrupto
Citado pelo The New York Times, Giuseppe Spatafora, do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, considera que cada uma destas reduções poderá ser gerida individualmente, mas alerta que, em conjunto, poderão “colocar desafios à prontidão da dissuasão europeia”.

Já Roger Hilton, investigador na área da defesa do centro de reflexão GLOBSEC, em Viena, defende uma leitura diferente da situação.

Segundo afirmou à Newsweek, a reorientação gradual das forças norte-americanas “não é nova nem inesperada”, devendo ser encarada como parte da adaptação contínua da NATO.

“Pode parecer preocupante, mas qualquer ajustamento da postura militar norte-americana na Europa deve ser visto como parte da adaptação contínua da NATO e não como um enfraquecimento súbito das capacidades de dissuasão e defesa da Aliança”, afirmou.

Na mesma análise, acrescentou que “os Estados Unidos continuam a ser a principal potência militar da NATO e continuam a depender da Europa para bases, acesso e projeção de poder”.

Continue a ler após a publicidade

Washington reforça aposta no Indo-Pacífico
Os Estados Unidos mantêm atualmente cerca de 80 mil militares destacados na Europa, mas refere que a administração Trump tem vindo a orientar cada vez mais a sua estratégia para responder ao crescimento da influência chinesa na região do Indo-Pacífico.

Ao mesmo tempo, a guerra com o Irão continua a mobilizar importantes capacidades militares norte-americanas no Médio Oriente.

Donald Trump tem igualmente acusado repetidamente os governos europeus de investirem insuficientemente na defesa, defendendo que os aliados europeus — e também os parceiros asiáticos — aumentem as despesas militares para 3,5% do Produto Interno Bruto.

Debate sobre investimento militar intensifica-se na Europa
O debate sobre o reforço das despesas com defesa ganhou novo impulso no Reino Unido após a demissão do secretário da Defesa, John Healey.

Na carta de renúncia, divulgada na quinta-feira, Healey afirmou que o financiamento previsto para o plano de investimento militar da próxima década “fica muito aquém” das necessidades do país perante o atual contexto de segurança.

Horas depois, também Al Carns abandonou o cargo de ministro das Forças Armadas britânicas, igualmente devido às divergências sobre o financiamento da defesa.

Alemanha e Polónia também afetadas
Recorde-se que Donald Trump já anunciou a intenção de retirar cinco mil militares norte-americanos destacados na Alemanha, decisão que a publicação associa às críticas do chanceler alemão, Friedrich Merz, à intervenção militar dos Estados Unidos contra o Irão.

A esta decisão junta-se a suspensão da rotação prevista de mais de quatro mil militares norte-americanos que seguiam para a Polónia.

Além disso, uma reportagem da Reuters divulgada em maio revelou que Washington também pretende reduzir algumas capacidades militares disponibilizadas aos aliados em caso de grandes crises, numa revisão do Modelo de Forças da NATO que deverá ser debatida na próxima cimeira da Aliança, marcada para julho, na Turquia.

Europeus querem maior autonomia estratégica
Paralelamente, uma sondagem recente do Conselho Europeu para as Relações Externas (ECFR), realizada em maio junto de 19.481 pessoas em 15 países europeus, mostra uma diminuição da confiança dos cidadãos europeus nos Estados Unidos como aliado da NATO.

Segundo o estudo, apenas 11% dos inquiridos classificam atualmente a administração Trump como um “aliado”, uma descida face aos 16% registados seis meses antes e aos 22% verificados em novembro de 2024.

O inquérito revela igualmente que, em praticamente todos os países abrangidos, existe preferência por reduzir a dependência estratégica do equipamento militar norte-americano, sendo Dinamarca, Países Baixos, Suécia, Portugal e França os países onde essa posição é mais expressiva.

Ainda assim, muitos dos participantes acreditam que a relação transatlântica poderá recuperar após a saída de Donald Trump da presidência.

Num comunicado citado pela Newsweek, o ECFR afirma que existe atualmente “uma procura generalizada para que a União Europeia siga uma política de autonomia estratégica em matéria de defesa”.

Roger Hilton considera que os aliados europeus já se preparavam para assumir maiores responsabilidades, através do aumento das despesas militares, da expansão da produção de armamento e do reforço do investimento em defesa aérea, munições e mobilidade militar.

“Europa está a assumir um papel maior na sua própria segurança, permanecendo firmemente ancorada na NATO”, concluiu o especialista.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.