ICE, vistos e deportações: Como Trump conseguiu transformar o Mundial no ‘Campeonato do Medo’

Os Estados Unidos aguardaram mais de três décadas para voltar a receber um Campeonato do Mundo de futebol, mas o arranque da edição de 2026 está a ser acompanhado por uma controvérsia que ultrapassa largamente o desporto.

Pedro Zagacho Gonçalves

Os Estados Unidos aguardaram mais de três décadas para voltar a receber um Campeonato do Mundo de futebol, mas o arranque da edição de 2026 está a ser acompanhado por uma controvérsia que ultrapassa largamente o desporto. Enquanto a FIFA procura promover o torneio como uma celebração global, as políticas migratórias da administração de Donald Trump estão a gerar preocupações entre adeptos, trabalhadores, organizações de defesa dos direitos civis e até algumas delegações participantes.

A poucos dias do início da competição, o debate centra-se nos vistos, nos controlos fronteiriços, na atuação das autoridades de imigração e no impacto que essas medidas poderão ter tanto na participação dos adeptos como no ambiente em torno do torneio.

Los Angeles torna-se o primeiro foco de tensão
A cidade de Los Angeles, uma das principais sedes da competição, deveria ser uma das imagens de marca do Mundial. Contudo, transformou-se num dos primeiros centros da polémica.

A cidade vai receber oito encontros, incluindo dois jogos da seleção norte-americana e uma partida dos quartos-de-final. Porém, mais de 2.000 trabalhadores autorizaram uma possível greve devido a um conflito laboral com a empresa Legends Global, responsável pela restauração e serviços do estádio.

Os trabalhadores exigem melhores salários, limites à subcontratação e mais garantias de segurança laboral. Entre as reivindicações surge também uma exigência invulgar: que a FIFA assegure que agentes do Serviço de Imigração e Controlo Aduaneiro dos Estados Unidos (ICE) não realizem operações dentro ou nas imediações dos recintos durante o Mundial.

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A preocupação não é considerada menor. Muitos dos trabalhadores envolvidos nos serviços de alimentação, limpeza, bares, cozinhas e hospitalidade pertencem a comunidades latinas, algumas das quais vivem em situações migratórias vulneráveis.

Preocupações com dados pessoais e fiscalização migratória
O conflito abriu ainda uma nova frente relacionada com a proteção de dados.

O sindicato dos trabalhadores e a organização de direitos civis ACLU solicitaram às autoridades da Califórnia que investiguem se as acreditações emitidas para o Mundial poderão permitir a partilha de informação pessoal dos funcionários com o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos.

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Para muitos trabalhadores, o receio não se limita à eventual presença de agentes de imigração nos estádios. Existe também preocupação quanto à utilização dos seus dados pessoais e à possibilidade de esses registos serem utilizados em futuras ações de fiscalização migratória.

As autoridades locais tentaram reduzir a tensão. O xerife do condado de Los Angeles, Robert Luna, afirmou ter recebido indicações de responsáveis federais de que não estão previstas operações civis de imigração durante os jogos e eventos associados ao Mundial.

Ainda assim, agentes federais deverão integrar os dispositivos de segurança montados para o torneio, situação que continua a gerar dúvidas junto de parte da população.

Comunidades latinas divididas entre a paixão pelo futebol e o receio
Para milhares de imigrantes e descendentes de imigrantes latino-americanos residentes nos Estados Unidos, o Mundial representa uma oportunidade única para assistir de perto a seleções como México, Argentina, Brasil, Colômbia ou Equador.

No entanto, para muitas famílias com estatutos migratórios distintos, a decisão de comparecer nos estádios tornou-se mais complexa.

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Segundo o relato de organizações locais, existe receio de que eventuais fiscalizações ocorram em parques de estacionamento, transportes públicos, filas de acesso ou outros espaços associados aos eventos.

Em cidades como Dallas, grupos de apoio a imigrantes já ativaram redes de resposta rápida, disponibilizando informação jurídica, contactos de emergência e observadores para acompanhar situações relacionadas com a presença de autoridades migratórias.

Adeptos enfrentam obstáculos para entrar nos Estados Unidos
As dificuldades não se limitam aos residentes em território norte-americano.

Vários países participantes, entre os quais Irão, Haiti, Senegal e Costa do Marfim, têm sido afetados pelas restrições migratórias impostas pela administração Trump.

Segundo o relato, os jogadores iranianos receberam vistos apenas dez dias antes da estreia da seleção, enquanto alguns membros da comitiva e equipa de apoio não obtiveram autorização para viajar.

A federação iraniana denunciou ainda a redução da quota de bilhetes destinada aos seus adeptos poucos dias antes do início da competição.

O problema também atingiu elementos oficiais da prova. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, selecionado para dirigir jogos do Mundial, foi impedido de entrar nos Estados Unidos à chegada a Miami, apesar de possuir um visto válido.

As autoridades norte-americanas consideraram-no inadmissível por razões de segurança não especificadas, levando a FIFA a afastá-lo do torneio.

Bilhete e visto não garantem entrada no país
Mesmo para os adeptos que conseguiram adquirir ingressos, a incerteza mantém-se.

A administração norte-americana anunciou exceções para alguns fãs que compraram bilhetes através dos canais oficiais da FIFA e utilizaram o sistema FIFA Pass para acelerar os procedimentos consulares.

Contudo, a própria FIFA tem alertado que possuir um bilhete para o Mundial não garante automaticamente a emissão de visto nem a entrada em território norte-americano.

Na prática, um adepto pode adquirir ingressos, obter um visto e ainda assim ficar sujeito à decisão final dos agentes fronteiriços no momento da chegada aos Estados Unidos.

Esta situação tem alimentado debates em fóruns de adeptos, onde as conversas já não se centram apenas nos jogos, seleções e cidades anfitriãs, mas também nos riscos de recusa de entrada, reembolsos e alterações de viagem.

Impacto económico abaixo das expectativas
As preocupações relacionadas com a imigração parecem estar também a ter reflexos económicos.

O Mundial era visto como uma oportunidade para gerar receitas significativas nas onze cidades norte-americanas que recebem jogos da competição.

No entanto, a associação do setor hoteleiro dos Estados Unidos refere que a procura está abaixo do inicialmente previsto. Segundo os dados citados, quase oito em cada dez hotéis localizados nas cidades anfitriãs registam níveis de reservas inferiores às projeções feitas antes do torneio.

Entre os fatores apontados encontram-se as dificuldades na obtenção de vistos, a instabilidade geopolítica internacional e uma procura externa mais fraca do que o esperado.

Embora destinos tradicionalmente turísticos como Nova Iorque, Los Angeles ou Miami possam absorver melhor eventuais quebras, cidades como Kansas City, Dallas ou Houston contavam com o Mundial para impulsionar significativamente a atividade económica local.

Em alguns desses mercados, os níveis de reservas aproximam-se mais dos registados num verão habitual do que dos associados a um dos maiores eventos desportivos do mundo.

FIFA promove festa global enquanto Casa Branca aposta na segurança
A poucos dias do apito inicial, o Mundial de 2026 encontra-se no cruzamento entre duas visões distintas.

Por um lado, a FIFA procura apresentar o torneio como uma celebração internacional do futebol, da diversidade e da circulação de pessoas.

Por outro, a administração de Donald Trump mantém uma política centrada no controlo das fronteiras, no reforço das medidas migratórias e na continuação das operações de detenção e deportação.

O resultado é um ambiente de incerteza que, para muitos adeptos, trabalhadores e comunidades migrantes, faz com que a principal questão antes do início da competição não seja apenas quem vencerá dentro das quatro linhas, mas também quem conseguirá efetivamente entrar, assistir e participar naquela que deveria ser uma festa global do futebol.

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