Mais do que uma paixão adquirida, é uma herança. Cresceu em Braga, uma cidade profundamente ligada à cultura automóvel, e desde cedo se habituou ao som dos motores. Entre o karting, o enduro e, sobretudo, o papel de Oficial de Prova, foi moldando uma relação com o risco que hoje transporta, de forma quase natural, para o mundo empresarial.
AQUECER OS MOTORES
O automobilismo foi, e continua a ser, uma presença constante na vida de Ramiro Brito. “Não me lembro de existir sem o automobilismo fazer parte da minha vida”, afirma, sublinhando uma ligação que começou ainda na infância. Desde muito cedo, dividiu-se entre duas vertentes: a prática e a organização. Por um lado, o karting e o motociclismo; por outro, aproximou-se da componente técnica e estrutural das provas. “Comecei a andar de karting e de moto relativamente novo e também comecei a ser Oficial de Prova muito cedo”, recorda. Tão cedo que, aos 12 anos, já desempenhava esse papel de forma informal: “Era um ‘oficial’ que não era oficial, na medida em que não podia ter licença desportiva, mas já lá estava desde essa idade.” Mais do que uma escolha individual, o gosto pelo automobilismo foi também moldado pelo contexto em que cresceu. Natural de Braga, destaca a forte tradição da cidade neste desporto como um factor determinante. A ligação familiar também teve o seu peso: “Na minha família existia essa ligação, embora não tanto pelos meus pais, mas mais pelos meus tios, que sempre tiveram uma relação muito próxima com o automobilismo», conta. Entre referências locais e memórias de grandes eventos, como a emblemática Rampa da Falperra ou a passagem do Rally de Portugal, foi-se consolidando um entusiasmo que rapidamente se transformou em vocação.
PÉ A FUNDO
Para Ramiro Brito, falar de corridas é falar de paixão e desafio. “Sou sempre suspeito para falar de corridas. Acho que são um mundo apaixonante por vários motivos”, confessa, destacando a noção de responsabilidade que cada prova exige. Segundo explica, a adrenalina é o motor de quem entra num carro de corrida ou moto, enfrentando limites que a maioria das pessoas nunca ousaria desafiar. “É a sensação de que controlas e dominas algo que, em condições normais, a maior parte das pessoas não consegue fazer”, diz, acrescentando que a gestão constante do risco é o que mais motiva os pilotos. E essa procura por adrenalina não se limita ao desporto. “Digo muitas vezes que sou viciado em adrenalina. Preciso de ter algo que desafie permanentemente os meus limites, quer no desporto físico, quer no automobilismo.” A experiência de lidar com pressão e responsabilidade neste contexto acaba por se revelar um recurso valioso na vida empresarial: funciona como válvula de escape e ajuda-o a enfrentar desafios profissionais com maior serenidade. “Quando estás habituado a lidar com o risco e com a responsabilidade de forma permanente, ao transportares isso para o mundo dos negócios, acaba por ser uma mais-valia.”
NO COMANDO DAS CORRIDAS
O papel de Director de Corrida é uma função central e de grande responsabilidade no automobilismo. “Nas corridas, sou Director de Corrida ou Comissário Desportivo. Este último é uma espécie de juiz: analisa situações de corrida e decide se há ou não penalizações”, explica. Mas é a função de Director de Corrida que o fascina. “É a pessoa que está no topo da organização, responsável por toda a gestão da corrida: partidas, incidentes e fluxo da prova. Gerimos uma equipa de 200 ou 300 pessoas que trabalham para garantir que tudo decorre correctamente e que pilotos e equipas cumprem as regras.” Para ilustrar, recorre à série Formula 1: Drive to Survive: “Há uma temporada em que aparece Michael Masi e percebe-se bem essa função. Ele está no race control e coordena tudo o que acontece durante a prova: entrada do safety car, interrupções, incidentes e cumprimento das regras. Tudo passa por ele.” A sua experiência é vasta e internacional. Começou em Portugal, entre os 12 e os 28 anos, e prosseguiu sobretudo no estrangeiro, através da FIA. “Trabalho em campeonatos do mundo de GT e já fui Director de Corrida em todos os continentes, em mais de 40 países», revela. Actualmente, participa no Lamborghini Super Trofeo Europeu, no Campeonato do Mundo de GT e em várias provas do Campeonato do Mundo de TCR da FIA. Apesar do nível de exigência, é uma actividade amadora. “O nível de exigência é profissional, mas não é a minha profissão. O Rui Marques [Director de Corrida da Fórmula 1], por exemplo, é profissional. Consegui manter isto como uma paixão e equilibrar com as minhas empresas e com a AEMinho. Nem sempre é fácil, mas até agora tenho conseguido.”
CONTROLAR NAS CURVAS
Conciliar uma agenda executiva intensa com um hobby que ocupa tantos fins-de-semana por ano é um desafio que Ramiro aprendeu a gerir com organização e prioridades claras. “As corridas ocupam-me cerca de 20 e tal fins-de-semana por ano, mais as viagens.” Ter ao lado um sócio e amigo de infância igualmente apaixonado pelo desporto motorizado facilita a logística, mas nada dispensa uma gestão rigorosa do tempo. “Há coisas que sei que não posso fazer e tenho de delegar. E há prioridades claras na minha vida. Digo muitas vezes que o desafio mais importante da minha vida é ser pai. Faço mesmo um esforço enorme para não perder nada de relevante na vida das minhas filhas. E ser marido também”, sublinha. A base familiar, especialmente o apoio da esposa, é fundamental para articular os compromissos profissionais, associativos e pessoais.
POLE POSITION
A experiência no automobilismo também moldou a sua liderança enquanto CEO. “Encontro imensos paralelismos. Quando comecei a dirigir corridas, um dos meus mentores ensinou-me algo que trouxe para a minha vida: o papel do Director de Corrida é o mais solitário do mundo. Temos imensas pessoas a trabalhar à nossa volta, mas a última palavra é sempre nossa.” A pressão e responsabilidade, embora mais intensa e imediata nas corridas – onde o tempo médio de decisão é inferior a dois segundos – reflecte-se também na gestão de uma empresa. A vivência com equipas ensinou-lhe a importância do relacionamento humano: “Isso significa que tens de dirigir a equipa de uma forma totalmente friendly. Tens de manter um nível de exigência profissional sabendo que estás a lidar com pessoas que estão ali por paixão. Influenciou muito a forma como me relaciono com as pessoas nas minhas em presas e até na actividade associativa.”
BANDEIRA XADREZ
Apesar da ligação ao automobilismo, Ramiro nunca pensou em seguir uma car reira profissional. “Como piloto, nunca. Sempre achei que seria um hobby”, diz. Quanto à vertente de Oficial de Prova, já recebeu várias propostas para transformar a paixão numa profissão, mas optou por ser voluntário. “Primeiro porque amo demasiado este desporto para que ele seja a minha profissão. Depois porque manteria pouca objectividade. Hoje posso escolher os campeonatos em que participo.”
O compromisso com as suas empresas e com as pessoas que nelas acreditaram também foi decisivo. “Sentiria que estaria a trair essa confiança se abandonasse tudo para seguir apenas o automobilismo”, afirma. Para ele, o desporto funciona como “uma espécie de reforma precoce”: espera estruturar as empresas de forma que não dependam tanto de si, permitindo-lhe dedicar-se mais às corridas – seja como Comissário Desportivo, viajando com a esposa, ou continuando a explorar este mundo e conhecer novos países. “Costumo dizer que estarei nas corridas enquanto o meu físico permitir. Só saio de lá incapacitado ou morto.” O automobilismo moldou também a sua forma de liderar. “Não quero parecer presunçoso ao dizer que me tornou um líder melhor, mas tornou-me aquilo que sou hoje. Foi determinante no líder que sou”.
“Acredito que o automobilismo é uma excelente escola de liderança e de corporativismo”.
Entre os ensinamentos mais concretos está a gestão de crises. “Quando estamos a planear um grande evento, todos sabemos que não vai correr exactamente como previsto. Sabemos que haverá imponderáveis. Por isso preparamo-nos para gerir aquilo que não conseguimos a prever.”
O trabalho em equipa e a noção de responsabilidade são igualmente centrais. “Percebemos que estamos todos no mesmo barco e que as coisas dependem de nós de forma muito real. Nas minhas empresas nunca deixei de sentir que a responsabilidade final é minha e que sou o último responsável por as coisas correrem bem ou mal”.
No fundo (mas nem sempre a fundo), Ramiro Brito vive no ponto de encontro entre velocidade e decisão, adrenalina e responsabilidade. O automobilismo não é apenas um escape, é uma extensão da sua liderança, um laboratório onde pressão, risco e a necessidade de agir com clareza moldam a sua visão de negócios.
Este artigo foi publicado na edição de Abril (n.º 241) da Executive Digest.














