As famílias com crédito habitação, que tenham o seu contrato revisto em maio, vão voltar a sentir um agravamento nas suas prestações. Depois de semanas marcadas pela instabilidade provocada pela guerra no Irão, as médias mensais das taxas voltaram a subir nas três maturidades, com impacto direto nos contratos revistos este mês.
A análise é de Nuno Rico, especialista da DECO PROteste, que à ‘Executive Digest’ já tinha antecipado no mês passado um agravamento mais expressivo das prestações. Os números agora conhecidos confirmam essa tendência: apesar de as taxas diárias da Euribor terem aliviado ligeiramente face aos picos registados no final de março, as médias mensais continuam mais altas do que antes do início do conflito.
“Temos boas e más notícias”, resume Nuno Rico, especialista da DECO PROteste. A boa notícia é que os valores diários da Euribor sofreram uma ligeira descida em comparação com os valores mais altos atingidos depois do início do conflito”, explica. Segundo o especialista, o pico foi alcançado “nos últimos dias de março” e, desde então, as taxas aliviaram ligeiramente.
Mas esse recuo não chega para impedir novas subidas nas prestações. “Agora está a estabilizar um pouco, mas em valores mais altos do que existiam anteriormente”, alerta Nuno Rico. A má notícia, acrescenta, é que as médias mensais refletem todo o período de subida registado em março e abril. Daí resulta que vamos ter subidas nas três maturidades e, consequentemente, em todas as prestações”, conclui.
Quanto sobe a prestação em maio?
A subida será sentida nas três maturidades da Euribor, embora com impactos diferentes. Na Euribor a três meses, a média até de abril – até ao dia 24 – estava nos 2,177%, o que, na simulação usada pela DECO PROteste, corresponde a uma prestação de cerca de 646 euros. Para quem tiver revisão do contrato este mês, o agravamento será de 12 euros face à revisão anterior.
Na Euribor a seis meses, a taxa média atinge 2,449%, o valor mais alto do último ano. Neste caso, a prestação sobe para cerca de 669 euros, o que representa um aumento de 28 euros desde a última revisão. No mês anterior, o agravamento tinha sido de 18 euros, o que confirma uma aceleração do impacto.
O efeito é mais pesado na Euribor a 12 meses. A média chega aos 2,739%, o valor mais elevado dos últimos 18 meses. A prestação, na simulação da DECO PROteste, passa para cerca de 693 euros, mais 49 euros do que na revisão anterior.
Nuno Rico sublinha que estes aumentos ainda estão longe dos choques superiores a 100 euros registados durante o anterior ciclo de subida das taxas, mas reconhece que o impacto já é visível. “Não estamos nesses montantes, mas claramente temos aqui já algum impacto nas prestações”, explica.
A guerra já custa 25 a 43 euros por mês
Para perceber o efeito real do conflito no bolso das famílias, a DECO PROteste compara as prestações atuais com o cenário anterior ao início da guerra no Irão. A conclusão é clara: a instabilidade no Médio Oriente já acrescentou dezenas de euros à prestação mensal de muitos créditos habitação.
No caso da Euribor a seis meses, a maturidade mais utilizada nos contratos em Portugal, Nuno Rico estima um agravamento médio de pelo menos 25 euros por mês desde o início do conflito. Este cálculo compara os valores atuais com as médias anteriores à guerra, permitindo isolar o impacto da subida provocada pela instabilidade internacional.
Na Euribor a 12 meses, o efeito é ainda mais expressivo: cerca de 43 euros por mês de agravamento médio. Ou seja, mesmo antes de novas decisões do Banco Central Europeu, a guerra já está a refletir-se diretamente no orçamento das famílias com crédito habitação.
“Estamos a falar de um agravamento médio que as famílias estão a sofrer nestes meses de pelo menos 25 euros por mês, no caso da Euribor a seis meses”, explica Nuno Rico. “No caso da Euribor a 12 meses, estamos a falar de cerca de 43 euros.”
A boa notícia: a Euribor já recuou dos picos
Apesar do agravamento das médias, Nuno Rico identifica um sinal positivo. As taxas diárias da Euribor já desceram ligeiramente face aos níveis máximos registados no final de março, quando os mercados reagiram ao início do conflito.
Essa descida não significa, contudo, um regresso ao cenário anterior à guerra. Significa apenas que a Euribor deixou de subir ao ritmo mais agressivo e entrou numa fase de estabilização em patamares mais elevados.
No caso da Euribor a seis meses, os valores diários estarão cerca de 6% abaixo do pico. Na Euribor a 12 meses, a descida face ao máximo rondará os 8%. Ainda assim, as taxas continuam acima dos níveis registados antes do conflito, o que explica o agravamento das prestações em maio.
O problema está na forma como as prestações são calculadas. A revisão dos contratos usa médias mensais, não apenas valores diários. Como março e abril foram marcados por subidas fortes, a média final continua a refletir esse choque, mesmo com algum alívio nos últimos dias.
BCE decide na próxima semana
A próxima grande variável será a reunião do Banco Central Europeu, marcada para 30 de abril. Para Nuno Rico, será uma reunião particularmente importante, porque o BCE terá de decidir num contexto de elevada incerteza.
Por um lado, a guerra no Médio Oriente já está a ter impacto na economia, sobretudo através da energia e da inflação. Esse efeito pode pressionar o BCE a subir as taxas de juro para conter novas pressões inflacionistas.
Por outro lado, uma subida das taxas poderá agravar ainda mais o custo do crédito e alimentar o movimento de subida da Euribor, precisamente num momento em que as famílias e empresas já estão a sentir o aumento dos custos energéticos e de produção.
“Esta reunião do BCE vai ser muito importante por causa de todo este contexto que estamos a viver”, afirma Nuno Rico. “O conflito do Médio Oriente está totalmente imprevisível.”
O especialista da DECO PROteste considera que o cenário mais provável ainda é a manutenção das taxas na reunião da próxima semana. Ainda assim, admite que uma subida de 0,25 pontos percentuais não seria surpreendente.
“Eu apostaria numa possível manutenção ainda da taxa de juros nesta reunião, mas não me surpreenderia se optassem por uma subida pequena de 0,25”, afirma.
Se não for agora, junho pode ser inevitável
A decisão do BCE será também lida à luz da experiência de 2022, quando a instituição foi criticada por ter demorado demasiado tempo a reagir à inflação e acabou por avançar depois com subidas rápidas e significativas das taxas de juro.
Nuno Rico acredita que o BCE não quererá repetir esse erro. Ainda assim, com os dados disponíveis neste momento, considera mais provável que Frankfurt espere mais algumas semanas para perceber a evolução da guerra e dos seus efeitos na inflação.
A próxima reunião depois de 30 de abril está marcada para 11 de junho. E é aí que o risco aumenta.
“Não havendo subida já em abril, em junho será quase inevitável a subida”, antecipa Nuno Rico, caso o cenário de guerra e os impactos na inflação se mantenham.
Para as famílias com crédito habitação, a conclusão é simples: maio já trará novas subidas nas prestações, a guerra no Irão já acrescentou entre 25 e 43 euros mensais ao encargo em muitos contratos, e a decisão do BCE poderá determinar se este agravamento estabiliza ou ganha nova força nos próximos meses.








