Guerra no Médio Oriente traz subida “incrível” em abril da Euribor: fizemos as contas ao impacto no seu crédito habitação

Depois de meses de estabilização e ligeira descida, os primeiros dados apontam para uma mudança clara de ciclo, impulsionada pela guerra no Médio Oriente.

Francisco Laranjeira

A Euribor vai inverter a tendência e abril deverá marcar o regresso dos aumentos nas prestações da casa, ainda que de forma moderada. Depois de meses de estabilização e ligeira descida, os primeiros dados apontam para uma mudança clara de ciclo, impulsionada pela guerra no Médio Oriente.

“Bastou o início do conflito para inverter completamente a tendência que estávamos a observar”, explica Nuno Rico, especialista da DECO PROteste, em declarações em exclusivo à ‘Executive Digest’. “Havia uma expectativa generalizada de estabilidade neste primeiro semestre, mas isso dependia de não surgir nenhum fator de risco. E esse fator acabou por surgir para uma subida incrível.”

O impacto imediato ainda é limitado, mas os números mostram uma aceleração significativa das taxas nos mercados.

O primeiro sinal nos números

A subida foi rápida e expressiva nos valores diários desde o início da guerra, no final de fevereiro.

Continue a ler após a publicidade
  • Euribor a 12 meses

Regista a maior subida, com um aumento de cerca de 31%. Os valores diários aproximam-se já dos 3%, quando no início do mês estavam perto de 2,2%. A média provisória aponta para cerca de 2,497%.

  • Euribor a 6 meses

Apresenta uma subida de cerca de 21%. A média atual ronda os 2,282%, refletindo já um agravamento face ao mês anterior.

  • Euribor a 3 meses

Sobe cerca de 8%, com uma média de aproximadamente 2,108%, sendo o indexante que tem registado menor volatilidade.

Continue a ler após a publicidade

“Isto mostra bem a inversão completa da tendência”, sublinha Nuno Rico. “Estamos a falar de subidas muito rápidas em poucas semanas, sobretudo nos prazos mais longos.”

O impacto na prestação da casa

Apesar da subida expressiva nos mercados, o efeito nas prestações será mais gradual, uma vez que os contratos refletem a média da Euribor no mês anterior.

Num cenário típico de crédito habitação — 150 mil euros a 30 anos, com spread de 1% — os valores estimados para abril, para quem tiver o crédito habitação revisto, são os seguintes:

  • Euribor a 3 meses

Prestação de cerca de 641 euros, o que representa um aumento de 5 euros. Será o terceiro aumento consecutivo, ainda que com subidas ligeiras.

Continue a ler após a publicidade
  • Euribor a 6 meses

Prestação de cerca de 656 euros, mais 15 euros face à última revisão.

  • Euribor a 12 meses

Prestação de cerca de 674 euros, um aumento de 9 euros — o primeiro agravamento em dois anos para este indexante.

“Os valores ainda não são muito significativos em termos absolutos”, explica o especialista. “Mas o que nos preocupa é a tendência. É uma inversão clara.”

Quem será mais afetado

Nem todos os mutuários sentirão este impacto de imediato. O efeito depende da data de revisão do contrato e do indexante associado ao crédito.

“Quem tenha revisto o crédito recentemente, por exemplo há um mês ou dois, pode não sentir qualquer alteração agora”, explica Nuno Rico. “Isso acontece porque a prestação está indexada à média da Euribor do período anterior, seja de três, seis ou 12 meses.”

Mas o cenário muda rapidamente para quem está prestes a rever o contrato. “Quem tiver revisão nos próximos três ou quatro meses já vai apanhar uma média bastante mais elevada, porque esta subida começou no final de fevereiro e está a refletir-se agora nos valores médios”, sublinha.

O especialista reforça que o impacto será progressivo. “Isto não é um choque imediato, é um efeito que vai sendo sentido ao longo do tempo. Cada revisão vai incorporar esta nova realidade.”

E deixa um alerta claro para os próximos meses: “O risco está mesmo à frente. Abril ainda não reflete totalmente esta subida. Maio, junho e os meses seguintes já podem trazer aumentos mais significativos.”

Mesmo num cenário de abrandamento do conflito, a descida não deverá ser imediata. “Mesmo que a guerra termine rapidamente, não é expectável uma queda rápida das taxas. Os efeitos económicos, sobretudo ao nível da inflação, vão continuar a fazer-se sentir”, concluiu Nuno Rico.

Por isso, a mensagem é de cautela. “As famílias devem preparar-se para um cenário em que as prestações podem voltar a subir de forma mais consistente. O que estamos a ver agora pode ser apenas o início dessa tendência.”

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.